CIDADANIA.COM - Ciladas virtuais, liberdade e responsabilidade. Por Juliana Vilas.

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Uma polêmica que animou as bolhas nas redes nesta semana revela o quanto a Comunicação é assunto que merece mais relevância (e cuidado) nas instituições públicas. E o quanto pode afetar a Democracia se confundida com a praxis privada.

Laerte Rimoli, que assumiu em maio de 2016 a presidência da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) – a agência de comunicação pública do governo federal que administra diversos veículos, como a Agência Brasil –, compartilhou um desses vídeos pretensamente engraçados que circulam nas redes ironizando o discurso sobre racismo que a atriz Thais Araújo fez num TedX em agosto. Não entraremos no mérito da piadinha dele, nem da fala dela – que escancaram outra ferida séria da sociedade brasileira.

Vamos nos concentrar, sobretudo, no que tange à Comunicação. Rimoli fez o comentário em seu perfil pessoal do Facebook que, diga-se, é notadamente de caráter privado, com pouco ou quase nada sobre as atividades políticas ou a função que exerce na empresa do governo. Ainda assim, tanto a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) quanto os funcionários da EBC pedem a exoneração de Rimoli por causa da desastrosa opinião emitida – pela qual, aliás, já pediu desculpas. Em todas as notícias sobre o caso, o nome do autor do gracejo é logo seguido do cargo público de confiança que ocupa. Fora o fato de alguns usarem politicamente o caso, temos aí um emaranhado de erros que mistura comunicação, personas e gestão de imagem pública.

O presidente da EBC, à paisana, pode expressar sua opinião num espaço privado? Em tese, sim. Mas a questão é: na internet, ninguém está à paisana. E nem tira folga.

Em 2013, Marian Salzman, CEO da Havas PR e observadora de comportamentos e fenômenos sociais, veio ao Brasil para uma série de eventos e comentou que – já naquele momento –, CEOs e representantes de instituições e empresas deveriam ficar atentos à própria imagem nas redes sociais. E, sobretudo, na sincronia das mensagens, narrativas e abordagens entre as personas pública e privada. Se não houver boa sintonia, uma pode causar grandes prejuízos à outra. Salzman referiu-se a empresas e executivos. Mas, considerando que a EBC não deixa de ser uma marca – ainda que pública –, é possível dizer que Marian estava certa. A conduta de agentes públicos, mesmo quando ocupam cargos comissionados, poderia seguir essa lógica para evitar certos desastres e desgastes. O secretário municipal de Cultura do Rio de Janeiro também criticou o discurso de Thais Araujo em perfil pessoal e, igualmente, expôs o cargo e órgão públicos que representa por conta de opiniões privadas – em tese.

A gritaria no meio digital (ou a morte do receptor passivo), novamente, foi capaz de trazer à tona temas que passam ocultos no desenrolar dos dias, sempre lotados de dados e informações, mas merecem reflexão cuidadosa de quem estuda a Comunicação. Além de esclarecer o conceito de Comunicação Pública e o Direito à Cidadania em todas as abordagens possíveis (transparência ativa, fomento à participação popular e direito à informação), é preciso debater a comunicação responsável, que envolve a imagem pública de pessoas físicas e jurídicas. E, ao mesmo tempo em que a gestão de imagem ficou mais complexa – sob a premissa de que cada pessoa real, na rede, é uma marca digital associada aos seus empregadores e parceiros – torna-se urgente diferenciar o ‘saber fazer’ ao pensar estratégias e conceitos diferentes de comunicação para cidadãos, celebridades, agentes públicos, candidatos a cargos públicos e os mais diversos tipos de instituições – públicas, privadas, sociais ou mistas.

No livro ‘La Communication Publique’ (PUF, Coleção Que sais-je? Paris, 1995), o sociólogo Pierre Zémor traz boas definições sobre a Comunicação Pública. A questão passa por entender que temos um novo interlocutor, que é, ao mesmo tempo; consumidor, eleitor, contribuinte, cidadão e – por que não? – fiscal implacável e agente político. ‘O cidadão de uma democracia, que é ao mesmo tempo usuário e decisor legítimo dos serviços públicos, não pode se satisfazer com as práticas unívocas da informação (…). Espera-se da Comunicação Pública que sua prática contribua para alimentar o conhecimento cívico, facilitar a ação pública e garantir o debate…’, diferencia Zémor, na tradução da Prof. Dra. Elizabeth Brandão, do Grupo de Pesquisa em Comunicação Pública da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

Nesses tempos da falsidade em que proliferam perfis, ‘posts’ e notícias mentirosas e oportunistas, a comunicação deve ser, em primeiro lugar, responsável. É preciso gerar conteúdo de credibilidade que eleve a qualidade do debate. Qualquer vírgula mal interpretada ou no lugar errado dá margens a linchamentos digitais que não costumam poupar nada nem ninguém no entorno – e ainda geram sub-interpretações em progressão geométrica, como o antigo ‘telefone sem fio’… Cabe aqui mais um longo e óbvio debate, dessa vez sobre a liberdade de expressão. Mas cabe também, ainda melhor, a velha relatividade filosófica entre liberdade e responsabilidade. E também cabe, como sempre, falar sobre ética.

Para finalizar, uma reflexão do sociólogo Guy Rocher, da Universidade de Montreal: ‘a noção de responsabilidade parece-me ser uma noção ética para retomar e voltar a desenvolver, insistindo (…) num aspecto (…): o da dívida cultural que cada indivíduo contrai ao vir ao mundo e ao viver. Ninguém existe, como indivíduo e como pessoa, sem ter uma imensa dívida para com a sua família, o seu ambiente, o seu meio, a sua sociedade, os seus avós, o seu patrimônio, os seus antepassados, em suma, para com todos aqueles que o precederam. Esta ideia de dívida, (…) de que somos devedores (…) é uma ideia que deve ser, cada vez mais, desenvolvida para contrariar a onda de individualismo. Falamos frequentemente do indivíduo, da pessoa como se ela estivesse absolutamente só, como se ela não fosse um ser sociológico. O discurso ético deve considerar a pessoa na sua totalidade humana e moral, como indivíduo e como ser social, como responsável pela sua vida e como devedora de uma herança imemorial’ – trecho do artigo ‘Le Défi Éthique dans un Context Social et Culturel en Mutation’, publicado na revista Philosopher nº. 16, 1994, p. 14-15.

Juliana Vilas.

Fontes:

– Sobre o ‘caso’ Rimoli: O presidente da EBC (Empresa Brasileira de Comunicação), Laerte Rimoli, compartilhou nas redes sociais posts que ironizam recente declaração da atriz Taís Araújo, 38, acerca do racismo no Brasil. Rimoli se referia a um discurso feito pela atriz – veja a íntegra aqui: https://youtu.be/H2Io3y98FV4 – em agosto deste ano. ‘No Brasil, a cor do meu filho é o que faz que as pessoas mudem de calçada, segurem suas bolsas, blindem os seus carros’, disse a atriz. A declaração foi chamada ontem de ‘idiotice racial’ pelo secretário municipal de Educação do Rio, César Benjamin, nesta terça. Rimoli desculpou-se e apagou o ‘post’.

– Marian Salzman – http://mariansalzman.com

– Guy Rocher:

http://classiques.uqac.ca/contemporains/rocher_guy/rocher_guy_photo/rocher_guy_photo.html

http://classiques.uqac.ca/contemporains/rocher_guy/defi_ethnique/defi_ethnique.html

Artigo na íntegra – http://classiques.uqac.ca/contemporains/rocher_guy/defi_ethnique/defi_ethique_contexte_mutation.pdf

– Pierre Zémor: http://www.pierrezemor.fr

Livro ‘La Communication Publique’ – https://books.google.com.br/books/about/La_communication_publique.html?id=mnchAQAAMAAJ&redir_esc=y
P. S.:

‘As dificuldades da comunicação cívica estão diretamente ligadas com a opinião pública, habitualmente estruturada por grupos sociais mais ou menos organizados (partidos sociais, sindicatos, profissionais, culturais, associativos etc.). mas que atualmente parece atravessada por influências efêmeras ou de correntes socioculturais fortemente dispersas. Complexidade de mensagens e heterogeneidade das disponibilidades acarretam a necessidade de substitutos de informação e uma real mediação’. Pierre Zémor, Conselheiro de Estado Honorário da França e ex-presidente da Comissão Nacional de Debate Público.

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