Ser ator, ser cidadão, ser enganado. Qual o seu papel?

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Está “no ar”, na TV, milionária campanha de esclarecimento (?) assinada pela ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) e pela ABRADEE (Associação Brasileira de Distribuidoras de Energia Elétrica), sobre o tema “bandeiras tarifárias”. Em tempo: A ANEEL é agência reguladora que, no momento, autoriza para as distribuidoras de energia elétrica, aumentos de receita que chegarão a cerca de 60% nas contas de energia do país este ano.

Trata-se de um dos mais evidentes casos de comunicação institucional mal feita, incompleta, enganosa e que induz o cidadão a erro de julgamento – ou seja, um rosário dos principais males que este OCI tenta evidenciar e ajudar a combater.

A bandeira tarifária (vermelha, amarela ou verde) é uma notação aposta nas contas de energia e refere-se a um só dado: o custo de produção da energia já entregue (e, portanto, já gasta…) pelo consumidor.

De maneira – propositalmente – confusa, a atriz Taís Araújo recita o texto que induz o espectador do anúncio a acreditar que sua ação individual pode alterar a bandeira tarifária de suas contas. As imagens corroboram, pois sugerem que apagar a luz de um abajur, por exemplo, pode ter algum efeito sobre o preço que se pagará pela energia. Um engano proposital: sim, economia efetiva se dá se apago lâmpadas – mas isto não altera o preço do kW a ser cobrado em minha conta no final do mês. E é este preço que está traduzido pelas bandeiras: vermelha, uma energia mais cara (basicamente provida por usinas térmicas); amarela, uma energia de preço moderado (fruto da combinação de fontes de suprimento); e verde, basicamente a energia proveniente de geração hidrelétrica (insumo energético mais barato). As bandeiras vêm impressas na conta a pagar. Ou seja, o valor do serviço já foi incorrido e deve ser pago.

Claro que, pela observação, o consumidor pode passar a ter mais parcimônia no uso da energia no próximo mês, mas para que sua atitude redunde em mudança de bandeira (que é a mensagem subliminar da peça publicitária), tal ação deveria ser tomada por outros milhões de consumidores, ao mesmo tempo, e mais… São Pedro também deveria dar uma força…

Indago: a cidadã Tais Araújo analisa suas contas de energia, mensalmente? Sabia, antes de gravar o anúncio, qual bandeira tarifária aparecia impressa em sua própria conta? Refletiu sobre o texto que lhe foi entregue pela agência de propaganda e que sua persona de artista ajudará a “empurrar goela abaixo” do consumidor?

Link para a versão de 30 minutos da peça publicitária – https://www.youtube.com/watch?v=PVqTsgG2JCI

2 respostas para “Ser ator, ser cidadão, ser enganado. Qual o seu papel?”

  1. Rose disse:

    É realmente uma propaganda para um EXCELENTE entendedor! Sofri tentando explicar a minha mãe (que é quem paga a energia) que não é só aqui em casa que está com a bandeira vermelha, que é uma questão coletiva, depois de muito ler e explicar ela resolveu aceitar. Fui ao site da ANAEEL e lá eles também enrolam e não informam essa estratégia de “consumo consciente (coletivo)”, tenho plena consciência de que a situação está péssima, mas essa estratégia de enganação coletiva é muito Brasil!

    • Marcondes Neto disse:

      Sim, De Rose. E um excelente entendedor constatar-se-á vítima de propaganda enganosa, cara, produzida e veiculada com recursos públicos. Grato pelo comentário, Marcondes Neto.

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