Zequinha - O papagaio de Veredinha. Por Juliana Fernandes Gontijo.

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Margarida e o marido, Juvenal, moravam desde criança em um pequeno município mineiro chamado Veredinha, norte de Minas Gerais. Ela era costureira e ele um pedreiro muito conceituado na cidade. Viviam modestamente em uma pequena e linda casa, construída por Juvenal. Eles não tinham filhos.

Certo dia, durante um passeio pelo parque da cidade, encontraram um filhotinho de “papagaio-verdadeiro” caído de um ninho. O casal, que estava sentado debaixo de um Ipê Amarelo, levou aquele susto quando a pequena ave caiu sobre as pernas de Margarida. Foi a “sorte do bichinho”. Juvenal até que tentou devolvê-lo ao ninho, mas a árvore era alta demais. Então, resolveram levá-lo para a casa, mesmo temendo que o filhotinho não sobrevivesse.

Deram-lhe o nome de Zequinha. Nos primeiros dias, o casal teve muita dificuldade de alimentar o animal, porque na cidade não havia uma papinha específica. Eles conversaram com o único veterinário de Veredinha e foi preciso comprar a ração em um município vizinho.

Com menos de um ano, o papagaio aprendeu a cumprimentar as pessoas que visitavam a casa de Margarida, mais conhecida como Florzinha. Ele era um “membro” da família. O casal tinha uma sobrinha e afilhada, Julieta, que passava meses sem ir à casa deles, mas quando chegava lá, mal cumprimentava os padrinhos. Ia direto ver Zequinha e brincar com ele. Só depois tomava a “bênção”. Margarida nem se importava mais com o “pouco caso” da afilhada. Julieta era assim mesmo: amante dos animais e “apaixonada” por Zequinha. Foi com ela que ele aprendeu a dançar. Era só ouvir qualquer som que ele já começava a mexer o rabinho. Além dos padrinhos, ele aceitava a comida no bico somente das mãos de Julieta.

O tempo foi passando e Zequinha crescia cada vez mais e demonstrava bastante inteligência. Como foi criado desde filhote com o casal, ele “se sentia” o rei da casa.

O papagaio era a atração da cidade. Na verdade, Zequinha era quem conhecia todos da região: o carteiro, o catador de papel, o padeiro e até parentes distantes da costureira. Qualquer pessoa que fosse à casa de Julieta, ele rapidamente aprendia o nome.

O casal tratava Zequinha melhor que muita gente. Ele só gostava de dormir debaixo das cobertas. Eles bem que tentaram fazê-lo dormir na gaiola. No entanto, o danado aprendeu a abrir a portinha (vendo o movimento que Juvenal fazia para fechá-la). Saía, indo direto para cama dormir entre “seus pais”. Todo mundo comentava:

– Zequinha acha que é criança.

Nas primeiras vezes que ele fugiu, Florzinha teve a ideia de colocar um pequeno cadeado na gaiola, assim o papagaio não sairia de madrugada para dormir na sua cama. Toda noite, deixava a gaiola na cozinha com um cobertor por cima. Por uns três dias, ele ainda dormiu ali, mas quando Juvenal apagava a luz do recinto, e dizia “boa noite”, Zequinha começava a chorar. Ali perceberam que, para o papagaio ficar quieto, seria preciso dormir na cama do casal. Ele não aceitou nem uma caixinha de madeira com uma cobertinha, feita de lã pela costureira.

Cacilda, vizinha de frente, sempre dizia à amiga:

– Acostumaram mal esse papagaio. O danado jamais vai querer dormir na gaiola. Vez por outra, Zequinha gritava para ela:

– Cacilda é faladêra! – Ela não se aguentava de tanto rir das tiradas do papagaio. Toda manhã, por volta das 7 horas, o casal escutava da cozinha:

– Bom dia, Margarida! É o padeiro. Pega o pão aqui na porta. – Gritava Tião, lá da rua.

Pode acreditar, um dia, o papagaio mais esperto, chegou à janela e disse:

– O pão chegô?

– A partir daquele dia, o padeiro, todas as manhãs, parava no portão da casa da costureira e falava:

– O pão chegô, Zequinha! – E Margarida aparecia no portão com o bichinho no ombro para pegar a encomenda bem quentinha.

Na cozinha, o papagaio “pedia”:

– Zequinha qué café. – Após algumas sementinhas de girassol, ele ainda fazia uma “baguncinha” com um pedaço de pão molhado no… café.

Ele gostava mesmo era de ficar perto da máquina de costura de costura e aprendeu facilmente aquele barulho. Fazia pequenos voos dentro de casa ou na vizinhança, nunca ia longe. O casal, temendo um provável sumiço do bichinho, pois ele era muito querido por todos, tratou logo de mandar fazer um anelzinho de prata com o nome de “Zequinha” gravado, uma espécie de aliança. Assim, por onde ele passasse, todos saberiam quem era.

Às vezes, Zequinha gritava o nome de Juvenal como uma criança grita “pai ou mãe”. Todos os vizinhos sabiam que Juvenal devia estar longe de casa.

Muitas pessoas que iam à casa de Margarida ficavam curiosas com o papagaio que mais se parecia um gato ou cachorro. Ele acompanhava Margarida “andando”, às vezes voava até o ombro e ficava ali quietinho, como se quisesse um chamego.

Zequinha era mesmo muito inteligente. Os clientes da costureira chegavam ao ateliê dela e ele cumprimentava as pessoas. Na hora da saída, ele ainda se arriscava em dizer:

– A roupa tá pronta não. Volta amanhã!

Quando Zequinha tinha uns 10 anos, um dia, na hora do almoço, ele sumiu. A cidade toda ficou alvoroçada, procurando o papagaio. Anunciaram na rádio. Sem sucesso.

O carro de som passou por uma hora no centro da cidade com Margarida e Juvenal gritando por Zequinha no megafone, mas ninguém dava notícia, muito menos ele.

A costureira chorava igual criança:

– Mataram meu filho…

Até o prefeito da cidade ficou consternado com a tristeza da costureira:

– Ô, Dona Margarida, vocês vão encontrar o Zequinha. Todo mundo conhece ele… Ele há de aparecê…

– Sei não, dotô Idelfonso. Ele nunca saiu assim… Voltava sempre logo, ou alguém devovia…

– Fé em Deus, mulhé. Zequinha vai voltá.

O casal mandou fazer cartazes com “Procura-se Zequinha, um papagaio muito inteligente. Pagamo recompensa!” O animalzinho ficou três dias sumido.

No quarto dia, já no fim da tarde, uma voz masculina desconhecida chamou no portão de Juvenal…

– Ô de casa! É urgente!

Mais que depressa, Margarida surgiu na porta.

– Ocêis aí são dono dum papagaio, intrometido e futriqueiro? – Gritou o homem com muita raiva.

– Eita! Olha como fala do Zequinha! Cê achou ele? – Falou a costureira chorando. – Ele sumiu faz quatro dia…

– Pois é, dona… Comê cê chama?

– Margarida, às suas ordens. Cadê meu Zequinha? – A mulher gritava muito.

– Esse diabo de papagaio me fez perdê o serviço!

– Olha moço, meu papagaio não é mentiroso. Se ele disse alguma que cê num gostô é purquê tu é ruim de serviço mêis…

– Não me venha, minha sinhora…

– Dá meu Zequinha, ou eu chamo o delegado!

– Vô te entregá esse cabra da peste! Eu tava precisando saí mais cedo da obra, pra encontrar com a muié sem o patrão sabê e… Na verdade, eu ia dar uma fugida pro mato…

– Desinbucha, home! Não é pobrema meu o que cê ia fazê!

– E esse papagaio futriqueiro disse ao meu patrão: “- Eita home preguiçoso. Tá fugindo do sirviço? Vai trabaiá mai não?” E ele continuou:

– Pois é, dona, fui pego com a boca na butija e inda perdi o serviço, por causa desse tal de Zequinha! Prenda esse papagaio ordinário ou, se eu vê ele de novo, afogo ele no ribeirão dos coelho… Eu já devia ter feito isso, mas a consciência ia doê! Só percebi que era esse indiabrado, purquê eu vi o anelzinho no pé desse camarada! Papagaio safado!

– Safado é ocê, home! Vai embora daqui seu, sem serviço, e me dá logo o Zequinha.

O homem devolveu o papagaio, preso numa gaiola. Sabe lá como o Zequinha se rendeu, pois ele era muito esperto e não se deixava levar a qualquer custo. Mas felizmente, ele estava muito bem:

– Tô vivo, Frozinha, tô vivo! – E deu um chamego no pescoço da costureira como se quisesse um beijinho…

Até hoje, muita gente em Veredinha fala que essa história do Zequinha é mais uma das mentiras do grande pedreiro Juvenal. Será mesmo?

Papagaio inteligente, igual ao Zequinha de Veredinha, eu nunca vi na minha vida.

Juliana Fernandes Gontijo é jornalista por formação e atriz. Apaixonada pela língua portuguesa e cultura de maneira geral, tem bastante preocupação com sustentabilidade e o destino do lixo produzido no planeta.