Uma história de caminhoneiro. Por Juliana Fernandes Gontijo.

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Otaviano, conhecido como “Ota”, era um caminhoneiro solitário que praticamente vivia na estrada entre uma cidade e outra no Brasil. Solteiro, sem filhos, seus os pais já eram falecidos. O caminhão foi herança do pai, Durvalino. Desde pequeno, já fazia viagens curtas com ele para a entrega de soja na região das Alagoas. Com 18 anos, aprendeu a dirigir o caminhão nas terras onde o pai trabalhava. Tirou a CNH e, em poucos anos, já conhecia praticamente todos os estados do país. Sabia das malícias do asfalto e tinha muita história p’ra contar…

O caminhão era bastante equipado, o motorista fez uma customização no veículo para que tivesse uma cama, com um espaço em baixo para guardar os seus pertences, um local para um pequeno frigobar e um forno de microondas. Nas paradas de estrada, ele procurava comprar a comida para o dia seguinte. Assim ia passando a vida. Dormia alguns dias nos caminhão, outros dias em algum hotel na beira de estrada ou em alguma cidade nos intervalos das viagens.

No início dos anos 2000, mais ou menos 3 quilômetros antes do trevo de Barro Duro, no Piauí, Otaviano resolveu parar o caminhão em um descampado e esquentar a marmita. Ele não conhecia muito aquela parte da estrada, pois não era comum que ele rodasse no Piauí, mas já estava com muita fome e sono. Não era mais possível continuar a rodar, afinal havia começado o dia por volta das 4 da manhã e já passava das 12 horas. O cansaço era enorme.

Parou o caminhão ao lado de uma borracharia que, naquele momento, estava fechada. Do lado de fora, havia um daqueles “orelhões” azuis com um telefone público. Como não conhecia muito aquela estrada, preferiu estacionar mais ao fundo do estabelecimento por motivo de segurança. Deu uma volta no mato para aliviar o corpo e “a alma”. Ao voltar, quando já estava dando a partida, ouviu o telefone tocar.
“Como alguém pode ligar para o meio do nada? Vou atender não!”. Foi puxando o caminhão para a beira da estrada, mas o telefone tocou novamente. Fingiu que não ouviu e seguiu estrada adiante.

Pouco mais de 2 quilômetros da borracharia, ele freou o caminhão bruscamente. “Dei sorte, ou melhor, foi a proteção de Nosso Senhor do Bonfim”… era um longo retão de asfalto. A alguns metros do caminhão, uma menina de uns 10 anos fazia sinal no asfalto. Deixou o pisca-alerta ligado e desceu do caminhão.

– Pelo amor de Deus! Mainha tá ganhando um bacuri. Liguei no orelhão da borracharia duas vezes, mas ninguém atendeu. Ela está sangrando muito! – Gritava assustada a menina.

O caminhoneiro ficou roxo de vergonha e bem desesperado… fora a ligação que ele não atendeu:

– Entra no caminhão. Onde você mora? Vou tentar te ajudar.

Enquanto ele ia colocando a menina no caminhão, uma viatura da polícia parou e o abordou:

– Pare aí! O que está fazendo? – Disse o policial federal.

A menina entrou no meio:

– Eu preciso de ajuda, ele não fez mal nenhum! Mainha tá ganhando um bacuri. Ela vai morrê, é muito sangue. Se ele não parasse o caminhão…

O policial também estremeceu e interrompeu:

– Ande menina, entra na minha viatura agora!

– Eu vou junto, disse Otaviano. Ela me achou primeiro.

A viatura seguiu apenas alguns metros e entrou numa porteira verde à direita na pista, numa pequena estrada de terra. O caminhão logo atrás. Ao longe eles já escutavam os gritos da mãe Damiana.

– Como você se chama, menina? Eu sou o policial Ronaldo.

– Tertuliana. Salva mainha! Eu só tenho ela. – Gritou a menina, desesperada.

Otaviano foi mais rápido e pulou da cabine do caminhão com uma pequena maleta de primeiros socorros.

– Dona, fica calma que vamos te ajudar! – Disse o caminhoneiro meio trêmulo. – Tertuliana, esquenta um pouco de água e pega uma toalha, põe na cabeça de sua mainha. Não conversa muito menina, vai logo.

O policial tentava ajudar, mas não levava muito jeito para um parto. A mulher sangrava muito.

– Liga para alguém, home! Chama alguma ambulância aqui nesse meio do nada! Eu não posso fazer muito, a criança vai nascer.

A menina voltou com a água morna na toalha molhada. O bebê estava vindo ao mundo. Era uma menina. Damiana gritava. O federal não conseguia contato pelo rádio e estava pálido. Pela proteção do Nosso Senhor do Bonfim, Otaviano tinha uma tesoura específica própria, bem limpa, para qualquer emergência. Aquela era uma grande emergência e foi preciso usar a tesoura. “Esse PF não aguenta sangue, como pode?”. Com a ajuda de Tertuliana, enrolou a bebezinha em um lençol e entregou nos braços de Damiana. Ela estava muito trêmula, pouco falava, mas estava agradecida:

– Ela vai se chamar Vitória Maria… Deus abençoe… – Disse baixinho.

– Vamos ter que levá-la a um hospital. Ela não pode ficar aqui, policial. Eu tenho uma cama no meu caminhão, mas será difícil subir com ela.

– Damiana vai na minha viatura. Tem um pequeno hospital em Barro Duro, fica a uns 7 quilômetros daqui.

– Vou com mainha. Espere, precisamos de mais algumas toalhas… Parece que o sangramento estancou… Deus tome conta de nós. Se não fosse o senhor, Otaviano, minha mãe teria morrido.

– Bondade sua, menina. Vamos logo. Eu não fiz mais que a minha obrigação em ajudar alguém. E se fosse com a minha mãe?… Pegue uma sacola com uma muda de roupas para vocês também…

O policial e o caminhoneiro colocaram a mulher, a bebê e a filha no carro. Fecharam a pequena casa e a porteira e se mandaram para o hospital. Sirene ligada, o caminhão ia atrás “tentando proteger” a viatura.

“Como fui egoísta, Meu Deus. Perdoe este pobre homem. Essa mulher poderia ter morrido! Não deixe nada de ruim acontecer com essa família, ou eu não vou me perdoar”.

Como estava seguindo em alta velocidade, em menos de 20 minutos, chegaram ao hospital.

– Emergência, emergência! A mulher pariu um bebê há menos de uma hora e teve muito sangramento. – Chegou gritando na recepção com a mulher no colo. Rapidamente, um enfermeiro chegou com uma maca e já levou Damiana para a sala de recuperação.

– Quem é a responsável por ela?

– Eu posso ser. – Disse Otaviano.

Enquanto ele e Tertuliana faziam a ficha de Damiana, o policial disse:

– Queira me desculpar, Otaviano. Eu achei que…

– O senhor não achou nada, não é policial? O home num ia fazê mal p’ra mim. Eu sei me defender muito bem.

– Olha, mocinha! Não se mete! Vejo que é muito faladeira para o meu gosto.

– Tudo bem, senhor Ronaldo. Talvez eu teria feito a mesma coisa. Se eu visse uma menina desesperada entrando dentro de caminhão com um homem… Mas julgue tanto, hein? Que tal, na próxima, dizer “algum problema?”.

– Olha, Tertuliana, eu posso passar somente esta noite aqui. Espero que mainha fique bem logo p’ra vocês voltarem para casa. Amanhã cedo, eu preciso pegar a estrada. O meu carregamento deve ser entregue até às 5 da tarde…

– Eu, já me vou. Tenho que fazer a ronda da estrada. Qualquer coisa, entre em contato com o posto da PF neste telefone, Tertuliana. Deus abençoe sua mãe. – Entregou o papel com o número de telefone, entrou no carro e foi embora.

No outro dia de manhã, Otaviano foi se despedir de Damiana. Ela ainda precisaria ficar uns dois dias no hospital.

– O que o senhor é dela, Otaviano? Se não fosse o seu socorro ela não sobreviveria… Mas ela e a Vitória Maria já passam bem. – Disse o médico.

– Eu nunca vi esta família na vida. Mas parece que Deus colocou elas na minha “estrada”…

– Foi isso sim, doutô. Se não fosse, ele… Mainha ia me deixar só no mundo… Nós não temos mais ninguém.

– Bem, eu preciso ir, Damiana. A senhora vai ficar bem. Meu carregamento deve chegar até às 5 da tarde de hoje. Nem sei se vai dar tempo… Mas, tudo bem. Eu sei que fiz o máximo que eu podia para ajudar vocês. Na volta da minha viagem eu passo aqui para saber notícias… Eu volto!

– Obrigada, eu! Deus te proteja! – Fez o sinal da cruz na testa do caminhoneiro.

Otaviano se mandou com a carga de soja. Ainda eram 400 quilômetros de estrada até a entrega final.

– Será que ele volta mesmo, fia? Vai saber, eu não acredito!

Enquanto enfrentava a estrada, os seus pensamentos não se desligavam de Damiana. Era um misto de consciência pesada e alívio: por ela e a bebê estarem bem. Um sentimento estranho, porém diferente, e que Ota jamais sentira em sua vida.

“Como eu poderia imaginar que isso pudesse acontecer na minha vida. Meu Deus! Por que eu não atendi aquele maldito ou bendito telefone?”.

O valor daquele carregamento a ser creditado em seu pagamento seria bem maior que as viagens tradicionais, logo ele poderia passar alguns dias em Barro Duro. Quem sabe se “redimir da falha grave” de não atender à ligação.

E ele voltou ao hospital. Não foi uma surpresa para Damiana. No fundo de seu coração, ela sabia que Otaviano voltaria. A mulher recebeu alta do hospital. Por segurança, ele pagou um táxi para ela voltar para a casa com as filhas. Ela não podia subir em uma boleia de caminhão com poucos dias de parto.

Ao chegar à casa de Damiana, ele a ajudou a chegar até a cama com a linda bebezinha ao seu lado.

– Eu não tenho como te agradecer, home! O que eu posso fazer por você? A única coisa é oferecer um trabalho lá na cidade. Pelo que vi, você não tem família, nem casa… É solitário, não é verdade?

– Na cidade tem uma empresa lá que precisa de um motorista de caminhão para rodar só na cidade e receber 1.800 reais. Só durante a semana e até às 6 da tarde…

Era muito dinheiro por mês naqueles anos 2000 para ele ficar só em uma cidade, mas não tinha casa… Como fazer?

– Mainha, posso chamar assim? Eu não tenho casa… Não sei se seria uma boa ideia.

– Vai lá, home. A firma está do lado do hospital, é uma distribuidora de frutas, verduras e legumes. Veja o trabalho. Tenho um barracão que faço de pensão aqui no fundo. Você pode ficar de graça por um mês.

– Vou dar uma volta na cidade e pensar na proposta. À noite, eu volto e dou a resposta.

Alguns meses se passaram…

Ota não só aceitou a proposta, mas aos poucos foi se apaixonando por Damiana, Tertuliana e Vitória. Ficou somente o primeiro mês no barracão de mainha.

Alugou um quarto numa pensão na cidade e, todos os finais de semana, ia para a casa de Damiana. Um ano depois, eles se casaram.

Ronaldo foi convidado como padrinho.

O caminhoneiro nunca teve coragem de falar com a mulher que não havia atendido àquela ligação. Ele sentia que era uma dívida que tinha com a família e era só assim que poderia se redimir da falha. Ota jamais poderia imaginar que uma parada para esquentar uma marmita na beira da estrada podia mudar definitivamente o seu destino…

Juliana Fernandes Gontijo é jornalista por formação e atriz. Apaixonada pela língua portuguesa e cultura de maneira geral, tem bastante preocupação com sustentabilidade e o destino do lixo produzido no planeta.