TERRA À VISTA - Os elementos indispensáveis ao patriotismo. Por Ana Paula Arendt.

Share Button

‘Rares sont les périodes où un gouvernement dispose de vraies marges de manouvre pour influencer le destin du pays (…) En partie seulement, car la situation économique internationale, certaines erreurs dont nous fûmes responsables et les contraintes du pouvoir limitèrent notre capacité d’action’. Laurent Fabius, Blessures de la Verité.

‘Quero ser como o asno que tira o fardo de Jesus Cristo das costas e vai pastar livre no campo’. Sr. Alencar (personagem fictício).

‘Dignas paucorum bonorum longe excellit infinitan multitudinem malorum’. Marco Túlio Cícero, Artificiosa Eloquentia, 45 a. C.

Meus Filhos nomeei em homenagem a lindos santos.

Pensei : assim não me escapam jamais. Grandes padroeiros para ser uma boa mãe. Amo essa graça divina que não nos separa jamais. Tenho muitos Filhos, aqueles que de mim nasceram, mas também aqueles que guardo no coração e dos quais também me ocupo.

Minha Filha mais velha é baby-boomer da geração pós-11 de setembro. Eu estava no hospital, em Brasília, por causa de problemas no estômago, de ser feliz na vida com livros, martinis e daiquiris no Café Martinica, com a minha rara cigarrilha de palha, levando uma vida intelectual e cosmopolita, durante uma era próspera e avançada do mundo, quando me vi com problemas gástricos. Depois de visitar meu médico no Hospital Santa Helena, parei na banca de jornal, para tomar um café e ver as notícias. Foi quando vi o choque na televisão.

Poucas pessoas… As novas gerações não sabem o que foi ver aquilo.

Na história, tudo muda para nada mudar. Mas aquilo mudou o meu mundo.

Larguei os martinis e daiquiris e fui viver na Igreja Católica. Trabalhando como voluntária e indo a missas pelo menos todo domingo. Comecei a ler mais atenta sobre o assunto, porque mesmo meus professores estavam em estado de choque. Tudo indicava que haveria uma expansão de exércitos em todo o mundo, penalizando a liberdade.

Recentemente meus pequenos queriam ver o memorial das vítimas. Estavam planejando nossos dias em um trânsito que fizemos em NY e incluíram o monumento na lista de locais a visitar. Eu fiquei surpresa. Não existe esse tipo de turismo. Disse não! Acho que eu disse “não” de um certo modo novo para eles: pois não insistiram. Chegaram a dizer levemente de novo, para ver minha reação de novo, e não insistiram. Não sei o que viram no meu rosto.

Nada a opor que no futuro, quando estiverem adultos, visitem o monumento, mas não a passeio, de vestido e terno, em respeito.

Eu bem me lembro, também, do impacto disso sobre outras pessoas. Existem lugares, centros de estudos sobre segurança internacional e geopolítica, que levam a sério os estudos que fazem. Na época, um de meus professores adoeceu, entrou em depressão, a ponto de precisar de medicamentos. Eu tentei reanimá-lo, para ele levantar da cama. A outro professor, tenho certeza igualmente abalado, escrevi um artigo sobre o tema, foi publicado em nosso nome. Algum tempo depois, contaram-me que outro acadêmico relevante, cuidadoso de estudar o tema de segurança regional latino-americana, havia sumido por um ano e meio. Depois desse tempo, retornou à universidade e explicou a ausência, disse tout court: “enlouqueci”. O que me pareceu é que os pesquisadores sérios não aceitavam o fato de que não conseguiram prever nem evitar uma tragédia daquele proporção, e já não se sentiam mais capazes de fazer nada útil. Retomar o trabalho e a vida foi algo que custou tempo a quem tinha sensibilidade e senso. Eu vejo pelo lado positivo: pois talvez fosse uma virtude, que ninguém fosse capaz de imaginar uma tragédia daquela dimensão.

Na minha passagem pelo Marrocos, não faz alguns meses, encontrei uma jornalista britânica que cobriu o evento no local, em Nova Iorque, acompanhada de seu parceiro paquistanês cego. Desenvolveram um projeto social,  o “Travel Eyes” para tentar superar o que viram e deixaram de ver; transmitem a memória; e deram uma bela palestra sobre contra-terrorismo. Nesse tema o Brasil certamente tem mais a aprender do que a ensinar, tendo em vista o nosso cenário doméstico marcado por indicadores de violência persistentes. Há uma impressão de que nós, brasileiros, temos talento para evitar disputas internacionais, apesar da nossa vida sem método, e talvez por isso gozemos de grande respeito; mas a verdade é que não ignoramos as nossas limitações e a nossa necessidade de nos aperfeiçoar.  No encontro informal ouvi também a opinião de um especialista turco, consultor de uma embaixada americana: para ele o contra-terrorismo essencial é o intercâmbio, pois depois do contato com novas culturas, ao retornar a seus países de origem, os alunos já formados produzem o inevitável efeito de mudança de perspectivas, nos locais antes marcados pelo extremismo. De meu lado, partilhei com os amigos de outros países também a experiência que estava tendo na África Ocidental, tomando nota do combate ao extremismo, pois a amizade nos obriga: nos manda defender o que amamos. Felizmente onde servi não houve nenhuma intercorrência, por ali sempre transitando excelentes especialistas, tanto da chancelaria israelense quanto da academia regional de defesa marítima, lugar onde muito aprendi sobre a construção regional da paz, seus fundamentos de diálogo e perseverança. As mulheres muitas vezes se tornaram o pináculo contra o recrudescimento de conflitos naquela região.

Por vezes penso que as pessoas têm equivocada impressão do que seja o contra-terrorismo, de que incluiria armamentos pesados, tecnologia, exércitos armados e poderosos… Nada disso! Tendo constatado o que funciona, a prevenção ao terrorismo é algo muito mais delicado. Desarmar espíritos, prevenir a violência, é pedir desculpas, dar um abraço, abrir um livro, escrever algo lindo, dar um sorriso; dizer coisas sábias que alimentam a esperança. Oferecer espaço em que as pessoas são valorizadas, em que podem dizer o que pensam e aprender sobre a necessidade de limites, do respeito mútuo… Feiras de livro, declamações de poema, música… Tudo o que alimenta e protege a alma combate a violência, pois apenas uma alma partida, desvencilhada da própria consciência, é capaz de praticar um ato perverso e irracional.

Desde pequena foi assim que aprendi, no Colégio Militar, a me manter longe da violência e do caos. Estudando, escrevendo, cultivando amigos.  Como diz o Embaixador Bretas Bastos, mais experiente, um notável especialista no tema de defesa nacional e segurança: “a bondade desarma”.

Na atualidade as redes sociais são o mais excelente instrumento de prevenção e segurança: permitem a liberdade de expressão e, portanto, identificar onde estão as manifestações de risco a ser contra-arrestadas.

Nem sempre esse esforço de precaução e prevenção é, por si mesmo, suficiente, sabemos disso. Conto que, tendo uma filha recém-aprovada em Medicina, estava ela muito atenta e interessada em ler sobre a descoberta de um novo vírus perigoso sobre o qual pouco ou nada sabíamos, já em janeiro de 2020, o novo coronavírus. Com muita iniciativa e tendo lido tudo o que havia disponível a respeito, em artigos de médicos de várias nacionalidades, da OPAS e da OMS, ela determinou, toda soberana, que seguíssemos o conselho médico: usássemos máscaras cirúrgicas ao nos deslocarmos nos aeroportos, porque certamente onde transita muita gente, há maior probabilidade de contaminação. Achei formidável que uma criança quisesse me ensinar o que eu já sabia sobre segurança biológica, mas que estava longe de implementar; e é lógico que valorizei a iniciativa e pesquisa dela. Lá estávamos, todos nós, de máscara e álcool gel na mão, em pleno mês de janeiro, quando isso parecia coisa de gente paranóica.

Eu dizia a ela que estávamos pagando um mico, mas ela permaneceu imperturbável e irredutível: segurança em primeiro lugar. Quando chegamos na imigração em Nova Iorque, o agente policial pediu que retirássemos as máscaras, para o reconhecimento facial, o que fizemos. Contudo ele foi mais além: disse para não usarmos máscaras, porque estávamos assustando ele e assustando as pessoas. Eu busquei explicar que nós estávamos querendo nos prevenir e que, de fato, temos paranóia de segurança. Ele não pareceu esboçar nenhuma reação aprovando a lógica. É lógico que obedecemos e deixamos de lado as máscaras de proteção. Ele fez mais algum comentário, do qual já não me lembro.

Foi com uma certa tristeza de coração que já muito depois, longe de Nova Iorque,   observando as medidas e recomendações sanitárias, e pelos bons préstimos divinos, nenhum de nós tendo contraído a Covid-19, que me recordei daquele breve encontro com guarda da imigração. Talvez agora aquele agente de imigração tenha mudado de opinião, depois de ver o General Jerome Adams, médico do Pentágono, em vídeo nas redes sociais, ensinando as pessoas a fazer e a usar uma máscara, para proteger a si e aos demais. Não pude deixar de ficar estupefata que o fizesse apenas em 3 de abril, com uma defasagem de semanas. Isso assusta porque é incompatível com o muito mais avançado nível de tecnologia de segurança e de saúde de que dispõe os EUA.

Será que se eu tivesse sido mais insistente, naquela ocasião, sobre a importância do que estava fazendo, usando uma máscara, ao invés de me submeter à autoridade da imigração americana, aquele agente poderia ter se dado conta de que era um bom exemplo, um procedimento prudente, usar uma máscara, e tornar seu uso obrigatório nos aeroportos, quando se constata um novo vírus transmitido por via aérea? E que autoridade eu teria, para ter sublinhado a importância de algo que nem eu mesma poderia prever? Teria feito alguma diferença, eu ter transmitido a ele desde uma posição de autoridade um sinal de maior alerta e seriedade, ao invés de seguir o que ele estava dizendo, e tirar a máscara?

Na Igreja Católica nós aprendemos a nos colocar em último lugar, mesmo detendo maior autoridade em um assunto, porque a humildade é dever do católico. Tivesse eu sido mais firme, em defender o uso da máscara, aquele agente de imigração teria transmitido essa seriedade a seus colegas, e teriam eles levado a sério? Com que autoridade eu poderia ter feito isso, estando diante de autoridade com maior qualificação de segurança aeroportuária do que eu? Eu bem me recordo ele não compreendia o tipo de visto, nem que eu era diplomata, tive de explicar e me vi desguarnecida, distraída do que era mais importante. Fomos liberados com afabilidade, após o esclarecimento do visto de trânsito, mas me escapou a importância de ter transmitido a ele a necessidade premente de aumentar o nível de segurança e defesa biológica, de tomar consciência dos procedimentos de biossegurança que todos líamos sobre o que se passava, naquele momento, apenas na China.

Quando leio, desde onde estou, meses depois, sobre mais de 100 mil mortes que poderiam ter sido evitadas em grande parte pelo uso de máscaras, pelo scanner de temperatura nos aeroportos e pelo distanciamento… Um número de mortes em um país amigo maior que do evento de 11 de setembro… Eu me sinto adoecida. Sinto uma profunda tristeza, como aquela de meus professores, em 2001. Tenho buscado apoio em meu médico para me levantar da cama e também nos colegas para escrever sobre o assunto, para não enlouquecer. Estou triste pela situação e comigo mesma, porque houve uma oportunidade de mudar a perspectiva de autoridades, e eu não fui capaz de fazê-lo.  Não fui capaz de evitar a situação que temos hoje, nem de vislumbrar o risco. Por que, naquela oportunidade que tive na imigração, de conscientizar pelo menos um único agente de segurança, não busquei asseverar, porque não disse algo além de pedir desculpas porque “somos paranóicos por segurança”? Por que não defendi com mais ardor a conclusão alcançável mesmo a uma criança de 17 anos, de seguir as recomendações dos médicos que estavam lidando com a situação na China? Por que obedeci o que o agente de imigração me dizia e retirei a máscara?

Talvez me digam que eu esteja tendo um delírio de grandeza, ao supor pudesse ter feito qualquer coisa para prevenir um maior dano de uma pandemia nos EUA. Mas é justamente o contrário. Porque sou insignificante é que minha consciência se preocupa. Os que estamos em campo, e somos estudiosos, e zelamos pela segurança, e temos consciência de moralidade e razão, sabemos que uma única pessoa pode, sim, com sua atitude, com um único pensamento positivo, com um um único lampejo de coração, desencadear uma mudança de perspectiva sobre um problema iminente. Por que não fui assertiva?

Porque estávamos em trânsito para outro país, e não deveria invadir a jurisdição de meus colegas; porque naquele momento não fui capaz de duvidar da melhor capacidade das forças de defesa e segurança americanas para aventar o risco e lidar com o tema, nem de imaginar a situação que temos hoje.    Porque havia e há técnicos na OMS e na OPAS muito mais qualificados do que eu para fazer a mudança, e se não conseguiram convencer as autoridades pertinentes dos protocolos necessários, muito menos capaz seria eu. Eu estava ali apenas como uma cidadã internacional em trânsito. Por meus estudos, bom senso e conhecimento poderia ter feito alguma coisa. Mas não achei que era comigo, nem quis vislumbrar o pior cenário. Quis relaxar por dois dias.  Fui submissa, quando deveria ter sido assertiva.

O resultado dessa falta de ação coletiva para mudar a perspectiva sobre a necessidade de protocolos de biossegurança foi ter visto uma amiga, neurocientista e médica, padecer do contágio, felizmente recuperando-se das sequelas, sob fortes orações.

Existem certos elementos, portanto, que me parecem necessários a que o patriotismo possa produzir seus bons efeitos. Achar que nada pode dar errado, ou cair num fatalismo; achar que se sabe de tudo; a soberba de querer determinar as coisas permaneçam como são e ignorar o risco; eis que isso leva a uma cegueira muito ruim para o bem-estar da população, para a segurança nacional. Portanto não basta dar um bom exemplo, nem uma política de segurança exemplar, para estufar o peito de patriotismo; nem uma diplomacia calcada na confiança mútua; nem uma informação perfeitamente levantada e explicada, um trabalho feito com afinco… Muitas vezes é necessário ao patriotismo algo que não temos: um espírito desarmado e temeroso, respeitoso, sem o qual não podemos ouvir o outro, enxergar o risco; e uma assertividade de ouro, pelo bem do outro, sem a qual deixamos de atuar para prevenir o risco.

Como cidadã comum, minha preocupação hoje imensa: pois no cenário internacional que temos, o que afeta os EUA, também se reflete no Brasil.  Mesmo assim, sob atraso dos EUA, nosso alerta acionado antes, talvez por evento fortuito: quando brasileiros em Wuhan manifestaram o pedido de retorno, com o que se ensejou uma modesta portaria governamental no início de fevereiro, o que alguns especialistas respeitáveis, como o Exmo. Corregedor do Superior Tribunal Militar colocou:

“(…) dentro dessa visão de sistema ante essa crise seriíssima originada na Covid-19, falamos da Constituição, mas existem normas infra-constitucionais, voltadas diretamente a como lidar com a criseEntão uma norma infra-constitucional, uma só para a gente trabalhar: a lei 13.979, muito recente, de 6 de fevereiro de 2020. Ela fala de taxa de isolamento, de quarentenaMas pára por aí. Ela parece tratar com as pessoas infectadas ou que estão em um processo avançado. Mas esquece de uma série de outras situações que ela não regrou. Ela é uma lei, quem puder observar, lacunosa. Ela não trata de todas as situações que estamos a vivenciar. Tratar dos contaminados, dos que são transmissores… É mais ou menos assim, uma frase célebre do Georges Ripert, diz assim: Quando o direito ignora a realidade, a realidade se vinga, ignorando o Direito’.”. (‘Estado de Normalidade x Estado de Excepcionalidade: O Direito nos tempos da Covid-19’. Entrevista de Min. José Barroso Filho – STM – à Dra. Olga Vishnevsky – TRT-2).

Isso fere o nosso orgulho, saber que nos atrasamos, que deixamos de agir com eficácia? Ou convida a uma reflexão para melhorar nossa segurança conjunta hemisférica? Por que me levanto mais um dia? Por que nada mais há de melhor a fazer que o necessário: identificar onde estão as falhas e buscar corrigir a comunicação, estudar o sistema de segurança hemisférico; sugerir que se melhore a capacitação dos agentes aeroportuários, os quais deveriam fazer parte de um sistema de segurança e de defesa química, biológica, radiológica e nuclear.

Todo esse prólogo e explicação prévia de um caso específico para dissertar sobre os elementos mais importantes do patriotismo. Um deles certamente é esse: defender a segurança, o sossego,  o bem-estar do lugar ao qual pertencemos, a nossa Pátria. Não há maior gesto de amor à Pátria do que zelar pela segurança dela, porque isso é nos recusar a colocar nossa própria vida e integridade em risco.

Outro elemento que me parece indispensável para cumprir o dever patriótico é identificar as causas e origens do nosso desassossego, para promover a limpidez de um pensamento sóbrio. O mundo é um lugar que, sabemos, padece de entropia; os fatos nem sempre obedecem a uma linha racional, sabemos que a realidade é algo caótico. E para nos proteger desse caos é que buscamos escrever para produzir entendimento, para  ordenar o que nos chega, para criar uma zona de proteção ao caos, em que possamos compreender o que somos e o que sentimos, nos dedicar ao que nos dá gosto e nos confere energia. Tentar colocar os fatos em ordem, analisando suas causas, sem nos encerrar em uma narrativa com dogmatismos, parece-me, é também uma maneira excelente de preservar nossa saúde mental, de enxergar novos caminhos e de nos proteger do caos.

Observei que recentemente algo nos perturba no Brasil mais do que de costume, tendo se instalado a pandemia: ameaças de morte a autoridades, megafones, manifestações, insultos, notícias falsas.

Quanto a mim, tendo recebido ameaças de morte, insultos, maledicências e tendo lido a meu respeito notícias falsas em autos, desde há muitos anos, desde quando pedi e obtive o divórcio e a nulidade de meu casamento na Igreja Católica, num ritmo quase diário, vindo de diversas procedências e sob os mais discretos formatos, eu busquei desenvolver os meus próprios métodos para alcançar uma paz celestial imperturbável. Por vezes meus métodos funcionam. Outras vezes, nem tanto. Quando perturbam o meu sossego, isso me leva a buscar aperfeiçoar o isolamento esplêndido e a proteção ao convívio familiar que almejo. Leio os santos, Confúcio, a Bíblia e outros escritos sagrados, leio relatos de pessoas mais experientes do que eu, escrevo tal qual Davi, escondido na caverna, da paranóia e perseguição de Saul.

Eu bem me recordo, na década de 1980, os anos intensos que vivi. Naquela época, todo esse desassossego a que me refiro pautava apenas os momentos de campanha eleitoral. Eram tempos ordenados, de uma democracia nascente. Em certos prazos, era permitido deixar de lado o quotidiano: apenas durante a campanha eleitoral. Do mesmo modo análogo, com que se permite até hoje na Igreja, o Carnaval, antes do jejum e oração da quaresma: para extravasar clamores não atendidos, e depois se arrepender de nossos excessos…

Pois naquela época, pela madrugada, os militantes de cada candidato político se dedicavam ao grafite. Antigamente, aliás, não se dizia grafitti, mas sim: spray.  É curioso. Também usavam o termo em inglês… Isso eu me refiro muito antes ao que temos hoje: beco do rato, beco do batman, cracolândias… Naquela época o spray não era grafite, nem havia vínculo ou símbolos pichados em linguagem marginal, relacionados a drogas. Refiro-me à real origem das pichações, numa época em que elas nasceram: quando eram voltadas para propósito eleitoral de campanha, e não para demarcar territórios do tráfico de drogas. O uso do grafite é mais recente e espúrio, bem sabemos; talvez até mesmo porque de fato não houve, àquela época uma observação desse risco, de que o spray viesse a se tornar grafitti, um elemento cultural para sustentar uma mentalidade criminosa, a normalização do ilícito, a vitimizaçao da cidadania.

Mas naquela época, anterior ao domínio do tráfico de drogas e aos grafites, nas vizinhanças, conto que se via a quantidade de sprays de todas as cores nos porta-malas de quem queria ver eleito seu candidato. De madrugada, pichavam. Jamais monumentos, mas o que há na natureza: pedras, muros de casas abandonadas, árvores, asfalto… Pregavam cartazes. O que diziam? De tudo, e dependia também da cor do spray. O nome do candidato e seu número, na maior parte das vezes. Pela cor a gente sabia o bairro em que o pichador morava, porque as vendinhas só tinham poucas cores, e se um candidato tinha ou não alcançado êxito em conquistar um bairro inteiro: sim, era assim antes das pesquisas de opinião, e das estatísticas, no interior do Brasil… Não existiam emoticons, mas as pessoas pichavam, às vezes, carinhas felizes e carinhas tristes. Sabiam disso? As novas gerações não sabem mais disso… Quando a comunicação era fora das redes sociais virtuais, e quando sequer havia internet, mesmo assim a comunicação existia: nas paredes e na natureza, de um modo muitas vezes tão discreto, a ponto de que só via quem queria ver. Às vezes era spray branco, às vezes era spray negro, cinza, e trazia palavras de reivindicação… E com muito cuidado, os manifestantes e apoiadores, o povo brasileiro, levava os candidatos a se pronunciar sobre o que parecia inaceitável, sobre o que necessitava de mudança. Naquela época, na década de 1980, isso não era ilegal, nem ilícito: pichar pedra, montanha, árvore e asfalto.

Eu tinha seis anos, mas bem me lembro de tanto movimento. Dois anos antes, na ‘cacunda’ de meu pai, fui às Diretas Já, na praça das três caixas d’água, em Porto Velho, acho que era 1984. Dei um grito de guerra daqueles! Animada em ver tanta gente, e diante de tanto blá-blá-blá que eu não entendia no palco, onde estava Jerônimo Santana… Por que me lembro de tudo isso, como se fosse ontem? Afinal eu tinha apenas quatro anos de idade. Algumas coisas ficam na memória: afinal eu me recordo porque meus pais ficaram envergonhados do que eu gritei, e disseram para eu parar de gritar rimas constrangedoras: – Jerônimo careca!/Cara de quequeca! Foi minha participação política em 1984. Hoje, 1984 tem tantos significados… Também o significado precisamente oposto às Diretas Já: a falta de liberdade imposta nas tele-teles, pelo “Grande Irmão” de Orwell…

Pois em 1986, também tendo visto tudo que eu podia, fui parar na residência do Senador Odacir Soares. Parecia uma caverna de super-herói, com elevador, uma casa estreita de três andares e em forma de um labirinto, onde tinha tamanho para circular gente de todos os tipos: agricultores descalços, moradores de rua, donas de casa, madames em vestidos da década de 1960, políticos, índios, policiais e soldados da PM: havia todo tipo de gente ali, entrando e saindo. Gente dormia encostada na parede… Era uma casa de homem público de verdade. Em cima de uma mesa redonda, havia um belo vaso de flores, certamente decorado pela esposa dele, e o jornal, que comecei a ler, enquanto meu pai ia falar qualquer coisa com o dito Senador importante. Meu tio era candidato a Deputado Federal, em 1986. Fiz campanha para ele nas ruas do centro, também, distribuindo santinhos. Aprendi a ler mais cedo do que deveria, é verdade. Talvez por isso fazia sucesso: loirinha e de olhos azuis, no meio da Amazônia, em Rondônia, lendo o jornal aos seis anos, de pernas cruzadas numa poltrona… Todo mundo sempre queria me pegar no colo.

Só depois de muitas décadas, contudo, memórias guardadas por esses paparicos, beijos e abraços que recebia, é que fui me dar conta do que acontecia ali, naquele QG democrático: pois estavam escrevendo a liberdade: a Constituição Federal de 1988… Por isso havia tanta gente entrando e saindo, e todo aquele movimento. A Constituição Federal deveria refletir o sonho de futuro de todas as pessoas, fazer duradoura e eficaz a nossa democracia. O som inefável das belas palavras que o Senador falava, enchendo a sala de silêncio…

Foi com uma nostalgia ímpar e comovida dessa outorga de uma compreensão tardia que, depois de muitos anos, indo do Anexo II do Itamaraty para o estacionamento no Bolo de Noiva, sentindo-me cerceada na minha liberdade, senti necessidade de escrever algo desse sentimento que vivi concretamente, na minha obra ‘O Constituinte’. Para transmitir aos meus Filhos o espírito daquele tempo, a era das palavras gloriosas, dos sentimentos vastos e verdadeiros… Do que vinha de verdade da voz do povo simples, porque ali estava o povo: manso e humilde, tímido em adentrar um espaço que desconhecia, preparado pelo Congresso para a inclusão social, fresco de tinta.

Mas conto então do que, nas campanhas daquela época, eram algo periférico demais para merecer qualquer atenção: as pichações nos locais em que se permitia, com spray.  Talvez isso fosse o que mais se aproximasse do que hoje, na era virtual e das tecnologias da informação, chamamos hoje de fake news. Se bem eu não me recordo de pichações de teor falso, contudo. Eram sempre os subterfúgios necessários dos quais se valia o povo para se comunicar com seus representantes, seus candidatos, com as autoridades; e eventualmente cobrá-los a esclarecer a verdade, nas entrevistas da televisão. Naquela época não existia ‘Central do Cidadão’; ou, quando existia caixa de reclamações, as autoridades ignoravam.

Quando havia pichações sobre áreas proibidas, ou de teor difamatório, entrava a polícia, sem dúvida. Era ruim para quem fazia campanha honesta: pois quem tivesse latinha de spray em casa, mesmo que tivesse pichado apenas coisas boas, tornava-se automaticamente suspeito.

Pois foi exatamente assim que começou a pulsar a nossa democracia, com algo similar ao que hoje todos reclamam e condenam…

Uma vez, na casa do meu avô, no interior de Rondônia, se não me engana a memória, veio alguém querendo esconder latinhas. Também me lembro disso: da gente sem honra nenhuma, que desejava sabotar campanha. Era aquele dilema permanente, que o meu avô dispensava: – Eu, hein! Chega p’ra lá! E ficávamos olhando se iam depositar na lixeira mais próximo, quando alguém ligava para a polícia. Ora: responder por pichação de baixo nível? Sem ter feito nada?  Eram esses os ataques rastaqueras daquela época, contra os parentes de candidatos, ou contra quem não queria tomar partido, como uma vingança primata. Hoje igual: também os militantes aloprados tentam culpar, em seu desespero, os ‘isentões’… O que podia ser feito contra os arruaceiros e sabotadores? Ligavam para meu pai. E então lá ia ele, até a residência do Senador que bem o representava. Se não tinham honra sequer durante a campanha, teriam alguma honra no momento de administrar bens públicos e a ordem pública?  Assim foi se costurando a nossa Carta Cidadã e foram se elegendo quadros favoráveis a uma ordem democrática sadia, com o apoio do povo verdadeiro… Dedicado à própria vida, o povo brasileiro queria viver em um lugar menos assoberbado por insistências vexatórias de militantes pagos.

Sobre fake news, o que prefiro chamar pelo que são, de notícias falsas,  tenho estudado e feito minhas reflexões, de quem deve se responsabilizar por esses conteúdos disseminados. E por isso é que me lembrei dos sprays.

Será que os sprays daquela época eram no escuro comandados pelos políticos que, intencionalmente, queriam atazanar sabotadores, e ver eleitos os defensores da mudança democrática que queriam?  Isso não passava pela nossa cabeça, então sadia. O curioso é que nunca vi um estudo antes, pelos doutores e docentes da Ciência Política, sobre esse movimento menor da democracia raiz, na década de 1980, que tornou possível eleger quadros favoráveis à Constituinte.

Afinal. Será que as fake news dos tempos de hoje são comandadas pelos políticos que desejam consolidar as maiores liberdades que almejam? Ou será que é apenas uma luta pelo poder entre grupos de distintas ideologias, o que vemos manifestado nas redes sociais, briga de torcida? Será que há uma engenharia por detrás disso, para manter uma estrutura de poder, dinheiro e privilégios, como prega religiosamente o dogmático Noam Chomsky?

Sempre busco me afastar de teorias conspiratórias e que explicam demasiadamente incontestáveis uma realidade complexa. Eu vejo algumas diferenças, entre aquela época do spray e a época de hoje,  das notícias falsas, ou das fake news,  plantadas por estrangeiros nascidos no País, de esquerda e de direita… Poucos sabem, mas há vários integrantes da esquerda que preparam eles próprios fake news sobre si mesmos, para se vitimizar: é absurdamente insano, mas o fazem para denunciar, posteriormente, como prova de exageros dos seus oponentes. A Justiça, que é cega, e já nem se lembra da propensão de certos movimentos à sujeira, cai nessa, acolhe tudo…

Na minha rede social, busquei compor uma amostragem estatística baseada nos conhecimentos prévios de Datafolha, um órgão fundado há algumas décadas pelo Vilmar Faria, quem tive a oportunidade de entrevistar quando estava no Planalto, há duas décadas.

Infelizmente eu fui perdendo parte dessa amostra: comecei a passar mal, durante a eleição mais recente, pelo teor de excessivo baixo nível, de intolerância e violência. Pelo excesso de mentiras, senti que aquilo abalava os meus eixos racionais. Afinal, para trabalhar e viver, é preciso resguardar a saúde e compreender as próprias limitações. Deixei de lado estudar o assunto pela aridez e insalubridade virtual.

Fiz minhas recomendações a quem julgo ter maior integridade que a minha, de jamais fazer uso do ódio como instrumento de mudança. De modo que talvez fosse necessário um aprofundamento por uma equipe mais capacitada e independente, que disponha de melhor estrutura para analisar o perfil dessas supostas fake news, que não seja balizada por coalizões multinacionais;  que certamente possa fazê-lo melhor do que uma cientista política que trocou a profissão artesanal pela diplomacia e pela poesia, que acompanha o assunto apenas como um hobby de quarentena.

É uma pena, mas ao mesmo tempo um alívio, que ninguém tenha registrado ou estudado os sprays da década de 1980, hoje uma memória guardada pelos que dominam a linguagem da “democracia raiz”: não essa democracia de plástico que querem nos enfiar goela abaixo, para justificar e esquecer dos excessos de quem se encontra no poder.

Quem é familiarizado com essa democracia raiz consegue rapidamente perceber a diferença entre as notícias falsas estrangeiras, “fake news”; os robôs de ódio; e o spray moderno, virtual, o meme: este o que há de mais saudável e indispensável ao metabolismo de qualquer democracia moderna. É realmente fascista quem deseja criminalizar o sonho e o riso, quem despeja no lixo de falsidades o que o povo disse para ser feliz e risonho.

Qual minha opinião? Quem era responsável por aqueles sprays, na década de 1980? Mistério? Nenhum mistério: quem fazia era o povo brasileiro… Tendo ido às ruas e às praças, a vida política pulsante… De pessoa em pessoa chegavam as ideias… Sim, seria necessário prender todo o povo brasileiro, por ter pichado em pedra, árvore e asfalto, se quiséssemos chegar à real autoria dos sprays da década de 1980.

Recentemente, um meme de ex-juiz e ex-ministro vestido de Maricotinha fofoqueira foi o ápice desta quarentena, ao lado de uma gravação hilária, satírica, com vozes imitadas, de conversa entre dois ex-ministros, desconvidados pelas pulsões de um pensamento insano. Quem quer tenha sido o responsável, talvez tenha contribuído para a sanidade coletiva: o Ministro Celso de Mello tendo muito antes publicado notabilíssimo voto a respeito, na ADI 4451/DF, sobre a importância do humor e do riso, para continuarmos no paraíso. Apenas acrescentaria que a liberdade de expressão e o riso, quando bem dosados, não apenas previnem excessos de quem se aferra ao poder e aspira uma autoridade além da que detém; mas também contribuem para relaxar o nível de tensão e prevenir a eclosão de atos violentos entre os grupos políticos.

É graças à liberdade de expressão que os pensamentos extremistas se dissolvem: entre colisões, a moderação infiltra acolchoados tecidos, para não esfacelar as instituições. Coibida a liberdade: vem o desassossego de viver sem amortecedores, num caminho esburacado pela aspereza do ânimo combativo.

Colocar debaixo de coerção judicial e sob risco de punição quem riu e colecionou memes? A meu ver, seria necessário um grande vazio de conteúdo político, de criatividade e de oratória, um grande vazio mental jurídico, para tornar algo tão periférico e inofensivo como os sprays da década de 1980, o equivalente aos memes de hoje, como algo a ser investigado… Seria como culpar o metabolismo pela doença de um vírus; anátema, dizer que se viola a democracia publicando posts críticos, ou mesmo divertidos, sobre as autoridades e suas circunstâncias. Além disso é condenar o que permite aos políticos e juristas, aliás, o que eles querem: o recurso de fama e prestígio, do qual, ao repelir e sublimar, elevam-se criando sua própria autoridade.

Qual a melhor forma de evitar memes, ou de estar fora do olho do furacão? Ora essas, bastaria apagar páginas de idolatria ao ego de autoridade pública, voltadas para o recrutamento de fãs; basta desmobilizar a estrutura de jornalismo que as próprias autoridades criam, com o intuito de estabelecer suas vozes acima da voz do povo humilde; para assim recobrar a cidadania plena, a felicidade de se tornar apenas mais um do povo, de não depender de público para dizer o que o coração pensa. Eis a maneira mais simples possível de habitar no mundo reduzindo provocações: dedicar-se mais ao serviço que à defesa de permanecer no cargo sem críticas. Ao invés, contudo, autoridades se colocam na esfera pública querendo monopolizar a verdade; e ao serem provocados, acionam mecanismos jurídicos, sobrecarregando e sequestrando reputações no Judiciário; o que querem, portanto, senão criar mais olhos de furacão, ensejando movimentos que pedem oposição, que paralisam a capacidade de Governo? Assim eles próprios criam a insalubridade.

A Constituição de 1988 é de fato uma coisa séria: não dispõe uma democracia de plástico, como uma mulher de borracha, à qual certos políticos e juristas abstinentes se dobrariam; ela é uma Carta de Direitos e Deveres imperfeita, porque nenhum texto constitucional jamais será perfeito, nem poderá antecipar uma solução a todo e qualquer problema, sem que essa solução seja construída também por quem a manuseia, em busca de Justiça; bastante surrada, porque foi escrita sob o impulso de grande paixão, pela pluralidade e amor altruísta ao adversário político; sagrada, porque sua redação foi tocada pelas mãos cheias de fé das pessoas mais simples… E por isso é que nela consta inscrito o recurso da emenda, e do que não pode ser relativizado: a ampla defesa e certas cláusulas pétreas, de dignidade, os consagrados fundamentos da liberdade de expressão, os elementos de patriotismo destinados a corrigir as próprias falhas… Tudo pensado naquele tempo para construir espaços seguros nos quais as pessoas pudessem se manifestar, diferentemente da baderna com que se exclui, como predicado, a participação popular.

O que dizer então das notícias falsas? Têm uma natureza e dimensão bastante distinta dos sprays, é verdade, mas também têm uma natureza distinta dos robôs: porque poucos dominam a tecnologia dos algoritmos. As fake news vêm acobertando, sob um mesmo rótulo, coisas distintas. Talvez de um modo perverso, o Estado brasileiro venha jogando debaixo do mesmo teor o que é saboroso, saudável e a democracia permite:  o meme, o libelo, a claque, a sátira, o cartoon, a ironia, a caricatura, o pitoresco, a provocação… Há de se ter maior rigor para reclamar do que de fato sejam notícias falsas, discernindo o que é parte de uma democracia viva, pulsante, do que enseja normalizar um comportamento violento, intolerante e difamatório, tornando o espaço público lugar insalubre.

Num breve histórico destes recentes anos de mudanças: consideremos que, muito antes de banalizar todo comportamento político crítico e cético sob o rótulo de fake news, já havia uma escola de má conduta, com tradição iniciada em várias plataformas por quem gosta de vaiar e de se opor, sem limites ou respeito à privacidade e à dignidade alheia, sobretudo por meio do uso espúrio do expediente do processo judicial e administrativo, elevando custos para desmobilizar o adversário político. Muitas vezes incentivaram a criação de provas por magistrados, para atender e bajular quem estava no poder, e assim vedaram a possibilidade de alcançar a verdade, de desnudar uma denunciação caluniosa. Ora: os precatórios… Quantos de nós resistiram à tentação de se iludir com essa promessa falsa de ver a honra restituída por vencimentos?

Foi em um segundo momento, apenas, que redes de cidadãos de extrema direita fizeram uso das notícias falsas como justificativa e pretexto para retaliação, elegendo alguns nomes de reputação ilibada, para fazer destes uma barreira humana.  Nessa retaliação imoral de “fake news”, com a elevação da escala de tensão política, restou o ônus de desmentir a quem inventou primeiramente essa modalidade de mentira e quem primeiro profissionalizou, na mídia, a manipulação da opinião pública: sobre os caluniadores anteriores veio o fardo de tentar restringir quem aproveitou a ideia e a implementou em maior e mais ampla escala pública; mas já não havia legitimidade, dentro da própria consciência, para impedir que a resposta fosse maior que o movimento difamador inicial.

O resultado foi a vitória eleitoral de quem puxou a corda da mentira política com mais força? Sobre isso tenho pensado, além da imoralidade da barreira humana que fizeram, com a figura do legislador íntegro, que a autoridade maior há de conseguir enxergar e proteger.

Mas dizer que 57 milhões de eleitores votaram em um Presidente por causa de fake news e disparos de WhatsApp ; que não sabem analisar candidatos em debate público nem exercer o seu direito ao voto… Não é proferir uma profunda ofensa à democracia? Quem assim procede não consegue enxergar a falácia com que ofende o eleitor, e o sagrado instituto do voto… Eis as falhas desse argumento com que os poderosos sugerem impor a sua própria visão de democracia: e disso o eleitor bem sabe. Antes de defender este ou aquele político, o governo ou a oposição, tenho um compromisso com a verdade e com o meu próprio bom senso. Não… Todos sabemos que a opinião do eleitor flutua de acordo com a campanha depois que ele faz um depósito de confiança no seu candidato. Como eu também fiz um depósito de confiança no meu representante, para não enlouquecer meio a esse pandemônio armado por quem não sabe perder.

Como é feito o depósito dessa confiança? Tantas variáveis, e a discussão acadêmica dos cientistas políticos jamais se encerra, pois o comportamento político é um tema complexo. Há o patriotismo. Há o sentimento… O sentimento partilhado de patriotismo, ao que me parece, é o que fez muitas pessoas depositarem um voto de confiança e flutuar no mesmo diapasão que seus representantes, distribuindo fake news e disparos em aplicativos sem maior reflexão sobre seu teor e conteúdo, desde que isso afastasse a possibilidade de eleição dos demais candidatos.

Perdemos os que ficaram ao lado da moderação e do bom senso. Perdemos! Porque perdemos a confiança do eleitor, com nossa vontade de impor nossa própria opinião das coisas e com a nossa falta de compromisso com ele. Não… Eu defendo a democracia de um modo radical, pois não há outra maneira de fazê-lo. O voto de confiança foi dado nas urnas e venceu o adversário. Se uma vez eleita, uma autoridade consentiu em ofender a Constituição a sério, além do critério verborrágico de uma emoção momentânea: para o Congresso e o corte de recursos. Se a autoridade ofendeu a honra de pessoas e prejudicou instituições: multa e suspensão na Justiça. Contudo, se nada disso: por que não liberar quem nada fez de errado? Sobretudo para informar o eleitor de que a democracia existe, e para manter a confiança na Justiça.

Desejo de todo modo um bom governo a meu adversário, o qual conseguiu transmitir e partilhar melhor sentimento patriótico, ainda que desconheça quais são os elementos do patriotismo; porque de críticas construtivas e de um bom governo dependemos todos, sendo um País. Apenas posso falar, no plural de modéstia, sobre mim mesma: sobre a minha paciência de aguardar a próxima campanha para realizar o meu novo depósito de confiança em alguém de boa conduta, e que permaneça com boa conduta, porque eu sou eleitora como todo brasileiro: eleitora que gosta de ter seu voto respeitado.

Nesse ínterim, constatamos o ímpeto eleitoral prosseguiu, mesmo encerrado o período de campanha, em um segundo momento, como instrumento de governo. Foi quando publiquei nesta coluna a tradução de uma cartilha sobre as origens do uso da mentira política, de Jonathan Swift: um grande inventor político de sua época. Afinal, a democracia inglesa, sempre aprazível, por regular com bom senso e elegância a mentira política, propõe observar certas regras, para não esfacelar as instituições nem a coesão social. Eu não sei se muitas pessoas leram, ou se deram ao trabalho de ponderar que, até mesmo a mentira política encontra na dignidade e na coesão de argumentos os seus limites, e precisa ser polida e, até algum ponto, ser inofensiva e jocosa, para alcançar o nobre intento de restringir o despotismo ou aliviar os ânimos da opinião pública.

E é assim mesmo, a democracia: um contínuo diálogo em que colegas e adversários políticos vão se moderando uns aos outros, até alcançar um equilíbrio do que seja razoável. As causas em comum, combater o totalitarismo do Estado, evitar que o Estado, ou um grupo baderneiro contratado pelo Estado, tenha voz absoluta sobre o que diz e almeja o povo… Não será esse um dos fundamentos mais importantes do nosso patriotismo, defender a democracia verdadeira?

O que me dói, apenas, é quando a experiência e observação atenta são ignoradas, quando o que é apresentado para que o outro tenha o arbítrio de decidir o que é essencial, o que é patriótico, acaba sendo deixado de lado como uma consideração técnica dispensável, como um alerta vago.

Quando a Justiça não está de olho, muito raramente existe alguém que, louco, toma para si um megafone. Muito diferentemente de mim, que no máximo envio mensagens e teço considerações como cidadã comum, se lança o louco inventado por Shakespeare, com um megafone, à perdição! E entre herói e louco a distinção aqui já se torna tênue, vai ele até à autoridade, aos berros, como um asno montado por Nosso Senhor Jesus Cristo, dizer abertamente o que o povo decano pensa, o risco potencial do que ouviu em sonho, transmitir a um bom entendedor as ameaças concretas que sofremos. A ele eu me solidarizo, porque também sei o que é não conseguir comer nem dormir, quando se desespera e se angustia o coração de Nosso Senhor, diante da maldade.

O que me faz pensar. Se eu tivesse chegado na imigração norte-americana, naqueles dois dias de final de semana de férias ao qual me dei ao luxo, em meu trânsito, não apenas com máscaras, nem apenas com sutilidade e precisão de palavras, nem apenas com meu bom exemplo de cidadã comum, mas também com um megafone, gritando que uma ameaça e tragédia se anunciava, que mais de 100 mil pessoas iriam morrer, denunciando a incompetência dos agentes de segurança em não adotar novos protocolos de biossegurança… Se tivesse havido alguém tal qual um profeta defensor da vida, causando debate obrigatório nos círculos mais acomodados, sobre o assunto, apenas por ter vislumbrado a pior hipótese, o pior cenário, será que teriam se salvado muitas vidas?

Mas tendo eu sofrido muito antes, e ignorante eu mesma do que poderia ser um pior cenário, daquela vez eu quis me limitar, observar tudo corretamente, ter um final de semana em paz e deixar para a autoridade competente decidir. Pensei antes em mim mesma, na segurança da minha família. Não quis ser louca, nem ser presa, nem perder o que me resta de convivência com meus Filhos durante as férias deles. Por isso, por causa das amarras institucionais e jurídicas, perdi a oportunidade de salvar muitas vidas: de sobreavisar e aumentar o nível de alerta de um amigo.  Não cabia a mim fazer, cabia a pessoas incumbidas disso; mas eu deveria, mesmo assim, de algum modo, ter feito.

A propósito, recentemente, vi alguém que eu não conhecia, de quem eu não fazia ideia existir, um Alencar distante, ser enviado à prisão por usar um megafone, fazendo o que um louco faria, informando sobre ameaças e riscos que sentiu sob a pele, a um Ministro do Supremo, no meio de uma crise político-institucional.

Em primeiro lugar me surpreendi. Perguntei aos meus familiares quem era, ninguém o conhece. Em segundo, mesmo sendo um desconhecido, o louco, reclamei e questionei o excesso do tal Ministro, em enviar descaradamente quem trocou uma arma pelo megafone, quem visivelmente lhe salvara a vida, à prisão. Apresentei os argumentos do que me pareceu contraditar as liberdades políticas que dispõe a Constituição Federal. Refletí com os melhores e mais caros princípios junto a meu espírito, porque assim pensei: necessário cumprir com meu dever de patriotismo. Os argumentos constavam em <https://www.anapaulaarendt.com/post/truculência-não-vista-desde-1816>. Consultado o CNJ, responderam-me que não exercem controle sobre atos do Supremo. Consultado o STF, recebi uma resposta automática, de que a Central do Cidadão não mais aceita críticas aos Ministros. Ao que de fato tive de assumir a minha falha e retirar a crítica do ar. Pois o Ministro em questão é um especialista em segurança dos melhores, ex-tucano e como alguém da minha família: ele é como um Thor louro. Apenas poderia uma cidadã comum deixar o registro dessa excepcionalidade.

Algo contudo me escapa: se não posso criticar, então por que poderia elogiar?

Não sei se o link do meu comentário voltou ao ar. Aparentemente voltou ao ar. De todo modo, se não se pode dar ouvidos ao mega-fone, se o CNJ não pode transmitir melhores argumentos ao Supremo, se críticas na Central do Cidadão não são aceitas, e nem relatórios da sua equipe de segurança podem ser lidos, talvez diante de um longo elogio, um Ministro do STF ouça.

De fato me pareceu assunto sério ao qual dediquei profunda imersão: a herança de um funeral de quem lhe antecedeu no cargo é pesada e merece melhor compreensão e apoio. Pois é importante que um Ministro do Supremo possa tomar decisões sem tão  triste fardo, sem ser amaldiçoado, para não cometer erros. E os elogios constroem muito mais do que a crítica. Do mesmo modo, um cirurgião e outros profissionais, e também os poetas e profissionais de precisão, precisam de sossego, de sorrisos, da paz e segurança do convívio familiar e de muita concentração para operar com melhor eficácia. É uma pena quando o sossego de nossa paz familiar é perturbado, e quando nossos sorrisos são vedados: porque estamos todos interligados.

Mas o desassossego, diria Fernando Pessoa, talvez seja precisamente o que nos salve: “Tenho a náusea física da humanidade vulgar, que é, aliás, a única que há. E capricho, às vezes, em aprofundar essa náusea, como se pode provocar um vômito para aliviar a vontade de vomitar. (Por Bernardo Soares, o Livro do Desassossego).

Todos os bons profissionais, independentemente de quem venha a arguir maior patriotismo, necessitam de liberdade de expressão, de desassossego, de boas críticas, para crescer e se tornar melhores, para enxergar novos caminhos. Pois apenas ditadores não cometem erros, nem querem conhecer seus próprios erros. E o fim deles é inevitavelmente terrível: jamais conhecem o prazer do profundo relaxamento de pedir desculpas. Oxalá eu jamais dispense nenhuma crítica, mas aprenda com elas; e que não me venham mais críticas do que aquelas que possa responder com ponderação e calma, ou das quais eu possa me esconder em subterfúgios.

Por isso talvez o homem do megafone tenha conseguido alcançar um elemento de  melhor patriotismo que me falta: chamar muitas pessoas, diante da náusea, de volta ao trabalho de vomitar, eis o bom senso. Pois uma boa política de segurança pede ouvir o que diz o povo, pela voz de quem almeja o sossego, e não a baderna. Talvez o megafonista tenha colocado em movimento e em alerta muitas pessoas, cumprindo com o seu desígnio, permitindo correções nas providências de segurança, trazendo à luz o que era debatido apenas no escuro; aumentando a consciência e incomodando autoridades, talvez ele tenha permitido discernir que deve ser separado o joio do trigo, as notícias falsas do libelo político; talvez tenha iniciado a convergência de um diálogo rumo ao consenso, de maneira a retomar a normalidade das coisas, advinda de repelir ordens absurdas. Sim, apenas uma pessoa, com um único gesto, pode fazer muitas coisas, desencadeando algo com um pensamento positivo, com um lampejo de coração perfeito.

Admiro esses heróis instintivos e selvagens, que defendem a democracia raiz, dizendo o que pensa o povo tal como fala o verdadeiro povo no peito, os que reclamam pela liberdade de um povo cativo dos próprios problemas, que não recebem nada por isso, que não estão nem aí para si mesmos. Muito embora eu não os siga e muito preferiria não se expusessem ao risco por quem não lhes valoriza tanto quanto mereceriam, rezo por eles: porque é algo de muito bom senso dizer, direta e abertamente, o sonho de futuro, reclamar liberdade, igualdade jurídica de facto, criticar e estar aberto a críticas.

Mas busco a perfeição e melhores meios que o heroísmo selvagem e o spray. Como dizer e fazer ouvir o que nos falta de Justiça, o que nos é necessário para encerrar brigas, para nos trazer de volta o sossego, sem um megafone, sem CNJ, sem Central do Cidadão, sem críticas, sem telegênese?

Ai! Mais elementos de patriotismo são necessários, e é preciso descobri-los! Descobrir o que ainda não sabemos. Será preciso talvez um discurso racional-burocrático, enfeitado por uma experiência prévia concreta de ferimentos da verdade, vestida de autoridade, para provar o que é óbvio? Qual é a Verdade? Quem de nós saberia dizer? Apenas seguimos com nossa vida pensando no que fizemos e buscando o que nos inspira a ser mais verdadeiros.

Qualquer governante, que dirá então legislador, nestes tempos modernos, tem muito pouca ou nenhuma margem de manobra diante do paquiderme do Estado; e faz uso muito moderadamente, ou quase nunca, da liberdade de expressar o que realmente pensa. Muitas vezes apenas uma sugestão: apenas uma boa sugestão, é tudo o que podem o governante são e o legislador íntegro, para tentar restaurar a confiança. E ainda assim, haverá quem queira perverter a boa sugestão e perturbar a ordem e o sentido original. É preciso debelar Belzebu, Astarot, Asmodeus e Leviatã: orar pela vinda dos bons anjos, obedientes aos bons propósitos que nosso coração almeja.

E mesmo nos países desenvolvidos, de burocracia governamental altamente qualificada, como a França, no seu melhor esforço, tudo o que a autoridade máxima consegue é convencer as pessoas apenas de uma pequena sugestão racional, uma coisinha de emenda pelo bem, que porventura fará pouca diferença, para ser bem realista, no resultado final das coisas. Se isso é difícil em um Estado pacificado, como o francês, o que se dirá, então, em um Estado cujas tensão, desconfiança e insatisfação na sociedade são altos. Eis que o esforço para descrescer o nível de tensão e aumentar a prevenção contra a violência é algo que precisa ser coordenado em um esforço contínuo… Circunscrevendo e isolando nichos nos quais a tensão é mais alta, haverá o jurista-político-legislador de identificar qual a fonte dos problemas e deixar de se colocar ele próprio no centro dos problemas que deseja resolver.

No Estado democrático moderno racional, seria muito mais conveniente, nas presentes circunstâncias que vivemos, portanto, responsabilizar mais quem determina diretamente a desordem e o dano, para concentrar e extrair poder do caos;  liberar quem é obrigado por comando demoníaco a cumprir com a desordem, libertá-lo com o propósito maior de salvador que alcança, de ter produzido a consciência do perigo, a mobilização do diálogo, o abraço de afeto; e trespassar menos quem se esforça por manter, mesmo sob vaias e coerção contrária, as boas sugestões de ordem, de convergência, de respeito a medidas sanitárias, de preservação ao ordenamento jurídico-social como dispõe a Constituição.

Gostaria de deixar este mês três poemas, o primeiro a respeito da sacralidade definitiva que encerra cada voto; um segundo poema em que mergulhei mais profundamente, sobre o fardo de um ferimento passado que nos antecede, e que busca interferir no mundo dos vivos, um despacho; e tento encontrar um poema que me pediu alguém especial, sobre liberdade de expressão. Um estudo sobre a liberdade de expressão: porque é justamente a liberdade de expressão, sem restrições, que nos permite encontrar a real dimensão dos riscos que estamos vivendo; tomar as providências necessárias para evitar catástrofes, para restituir e resguardar a nossa saúde, dignidade e entendimento.

O voto é sagrado – Ana Paula Arendt

Uma pessoa apenas

Pode mudar, com a sua opinião

O destino de um País inteiro.

Por isso eu voto com critério ;

Por isso eu voto com carinho.

E quando se perde a beleza:

Eu não voto.

Uma pessoa apenas,

Que diz algo verdadeiro

Espalha a verdade como fogo:

O canto simples no coração dos homens.

Alcança esse canto sem televisão nem telefone ;

Apenas de ter vivido junto;

Apenas de ter andado no ônibus lotado;

Apenas de ter morado na Rua Alvorada

E de ter trabalhado na Avenida Brasil.

Apenas de ter dado o coração ao outro!

Apenas de ter olhado

uma vez na vida

nos seus olhos.

É assim que se ocupa o espaço sagrado do voto,

Quando há alguém cansado demais

Para prosseguir governando,

Sustendo o lado bom das coisas,

Usando todo dia

Cada uma das mil chaves que não servem.

O meu colega ao lado disse: há sim, beleza!

Muito embora eu discorde.

E enquanto corriam a obedecer ordens,

Apressados, a gente suicida atrás de astúcia ,

Para ganhar votos e dinheiro,

Ele me dizia haver um homem triste,

de ser obrigado à determinação:

Que há beleza em ser homem.

Embora eu discorde,

Que a beleza de ser homem

Seja ser obrigado a algo,

Há beleza nesse meu colega

Que deseja me devolver a esperança

Com os seus lindos olhos.

E eu aguardo até que possa dizer:

Agora, sim, está tudo certo,

E já não me lembro mais

do que me magoava:

Agora sim, há um homem,

macho ou fêmea ,

Que me inspira beleza e esperança,

sem ter sido obrigado a isso;

Sem que eu tenha sido obrigada

a ver do jeito dele as coisas.

Pestilência – Ana Paula Arendt

Uma teoria em queda livre

Chuta para fora do ventre da noite,

Reclama no lapso de tempo e de sombra

Em que deixou tarefas e recados.

É chamada de chave para quem o substitui.

As moscas ao redor de um pedaço

De carne viva, de reza, de causas

Ignoram a transferência de chamada.

Meu calcanhar machucado não me mata.

A mosca quer e não quer a eternidade

De ter aberto enorme fenda

Onde alguém busca sinalagmas.

Ele abriu contratos e

Deixou em túnel as respostas,

Os pedaços de pão na estrada

Que os pássaros vão comendo.

Quer retornar com pressa,

No corpo da truculência

De um homem delirado,

Sem cabelos,

Que come os pássaros crus e

Os pedaços de pão na estrada.

A voz do além,

Do funeral mal feito

E da falta de saudade,

No teu corpo

É tosca.

Mosca.

Ai, o malhete gira,

A mente infantil infernal

Do homem cresce,

Mas não trabalha:

Os homens feitos de fôrma.

Quem matou a teoria?

É assim que ele me ouve,

O que ele mesmo diz

A si mesmo.

Quer se ver no espelho do rio,

Para saber se é verdade quem é ele.

Medo de perguntar a si mesmo,

Cansado das perguntas que

Outros lhe fazem enquanto dorme.

Tudo hoje é punir para ser lido,

A falta de aparência

Em busca de diafragma,

Porque a truculência

Quer trabalho, mas

Não encontrou a resposta.

Não seguiu meus bons conselhos.

Quer ser levado a qualquer parte.

Os diagramas.

A máquina gigantesca de fúria;

E quem mais odeia denuncia,

Para prevalecer o amor forçado.

Contudo colaboraram para o ódio

Os que o denunciam, sem saber ter ódio:

Ah, o seu papel fundamental,

De criar antagonismos a quem

Já não mais atraía…

Ah, o fomento sempre registrado

Nos dígitos e nas coisas não ditas

Entre as coisas de mulheres…

Os homens que deliram de amor comprado,

Dizendo ser isso amor.

Um delírio de alma quente nos infernos,

Que escolheu homem jovem

Para terminar o futuro que lhe foi impedido.

Vá em paz, à sua vida,

Aquele que fez uso da teoria

Para promover a desordem e a discórdia,

E a matou,

Porque não tem futuro!

Vá em paz, à sua vida,

Ó aliança implícita entre poderes vacilantes,

Desconfiados de suas próprias lágrimas;

Entregando aos vórtices

Quem pertence ao meu colo.

Fique aquele que abre a página do futuro,

As razões pelas quais dizemos o silêncio.

Parece improvisado?

Também é, quando vem, sem razão alguma,

Sem crime ou sem justificativa,

A tua morte, em idade apropriada,

Depois da velhice,

Pela qual luto.

Deveria dedicar-se ao que aceitou,

À escolha do que faz algo ser lido,

Ao prazer do labor no tempo;

À incerteza que chora:

Ao próprio nome.

Ao invés de perseguir quem questiona,

Ensinando, na fenda de queda livre,

Quão frio é poder sem fruto,

O abraço entre a pestilência e o exógeno.

Envio de volta esse desgraçado ao decano,

Na minha teoria de perda de tempo;

Não, a teoria não está morta.

Porque prefiro ler homens puros

Que se entregam desarmados,

Ter nos versos recordações de praia;

Fazer eco em folha sem medo.

Um estudo sobre a liberdade de expressão – Ana Paula Arendt

 

Quem foi que nos duvidou ao dizer o que pensamos?

Quem foi que riu de nós ao dizer o que sentimos?

Quem ignorou a palavra com o passar dos anos,
De defender quem guardamos em nossos peitos imos?

 

Quem foi que nos ameaçou dizendo tudo difícil?

Quem foi que nos comandou retirar o que dissemos?

Quem fez chantagem e atirou o primeiro míssil

E fez-nos enxergar só dois extremos?

 

E quem nos obrigou a desabrigar o nosso corpo?

Quem nos fez escrever sobre o que não queríamos?

Quem nos fez olhar num horizonte absortos

Fazendo esquecer do sonho que realizaríamos?

 

Mas algo, ou alguém, nos liberou da pluma dura,

De repente, já não estavam mais os olhos feios

Algo nos fez voltar à vontade de voz mais pura

E insistir em versejar nossos próprios anseios.

 

Bem cabe agradecermos a esse alguém ou algo…

Mas quem será que foi assim tão forte..?

Quem conseguiu afastar o orgulho fidalgo

Que nos atirava à servidão, ao medo da morte?

 

Quem nos devolveu a liberdade?

Quem nos enviou o sol de fazer janela aberta?

Quem, quem é esse algo ou alguém que nos desperta

A dominar nosso registro com integridade?

Quem nos ensinou a escrever as coisas certas,

A amar com altruísmo, com carinho e de verdade?

Quem?

Imagem: milagre eucarístico da Hóstia de Santarém, na Igreja de Santo Estêvão, Santuário do Santíssimo Milagre.

<http://alexandrinabalasar.free.fr/milagre_de_santarem_1.htm>

Ana Paula Arendt é poeta e diplomata brasileira. Escreve mensalmente na coluna ‘Terra à Vista’.

Ressalva: os trabalhos sob o pseudônimo Ana Paula Arendt pertencem ao universo literário, refletem ideias e iniciativas da autora e não necessariamente posições oficiais do Governo brasileiro. Estes trabalhos literários buscam estar em consonância com os valores e princípios da Política Externa Brasileira relacionados ao diálogo, à dignidade humana, ao desenvolvimento e aos direitos fundamentais do indivíduo. A autora está sempre aberta a sugestões e críticas.