TERRA À VISTA - Garantia de vida. Por Ana Paula Arendt.

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‘Não se consegue combater um incêndio com os olhos vendados – você não consegue parar essa pandemia se não souber quem está infectado’. 
Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor da OMS.

Escrevo em um momento ainda muito transitório – 20 de março – espero em breve superado pelo esforço conjunto dos países, instituições e povos.

Neste mês portanto um poema muito esperançoso, para tentar animar quem possa estar na difícil linha de frente de combate a esse terrível novo vírus. Não tenhamos medo de orar e interceder no que podemos pelos enfermos e pelos mais vulneráveis!

Garantia de vida
de Ana Paula Arendt a um enfermo

Escrevo desde acima dos telhados onde nos escondemos da morte, e vejo teu torso jogado, ferido de linha de frente. Louco, te atiraste contra a lança de bilhões de lamentos. Culpaste o sofrimento, como prova de tua coragem, para dizer nosso território. Por isto eu desço a ti, homem ancestral combalido, que se jogou na frente de todos: para preencher de novo com esperança tuas veias, soprar tua testa quente e molhada, acolher-te em tua força indigente. Dizer que de fato, em vivendo, não irás aprender nada, que inevitavelmente te tornarás orgulhoso novamente, mas: por melhores motivos. Por ora, eu sinto os suspiros de medo quando teus olhos fecham, a incerteza pulsando a ponta dos teus dedos. Nos falta coragem de caminhar em direção aos segredos do espírito: a alma parada. Receio de deixar o corpo e não encontrá-lo mais: levado por outrem. Mas por isto eu venho. O teu rosto surgiu num grupo do qual não faço parte: correu no túnel do silêncio, vazio de tuas ordens imperativas, escorreu sobre a cuia de meu tacacá vazio. O sobrinho do primo de tua tia pouco trabalha, ele esconde e controla o pânico. Estamos no Brasil. Pede o soberano eu te acuda e faça a mágica. Desde Tegucigalpa, aonde me enviou, de onde não posso sair de casa, cercada pelos maias, ainda com as mãos amarradas e de ponta-cabeça, ele me insiste: não há limites que impedem o sonho do poeta; não há distância entre os que se amam. Quer eu dê a ti uma garantia de vida, que eu alce e estenda ainda mais a voz marcada de um compromisso sagrado, mesmo que isto leve minha vida a estar ligada a qualquer vida que possa ser perdida, e ainda assim; por alguma razão eu não perca a minha nem a tua. Por isto eu venho a ti. É longa esta garantia de vida, mas nem tanto: nada além do que é normal esperar e escrever. Deliras e me dizes para combater a calamidade e florescer a vida humana. Queres te precaver com últimas palavras, mas bem sabes há muitas ainda a ser ditas. A beleza da fragilidade de quem sonda por mais beijos. Já salvei muitas vezes o meu tio, quando se quebraram quase todos os seus ossos: dirigiu com sono. Todos os dias o carinho leve, e ao cessar ele mais pedia, constante. Ao dormir, no país dos nossos sonhos, eu o deixava. Todos os dias, as visitas de cura que ele sorvia, confiante em meus olhos. E os enfartos, apenas sustos: o sorriso de estar presente, a fé bem salva. Até que eu não fosse mais, quando decidisse ele mesmo a hora de dar passos no caminho eterno… Escuta! Estendo então a tua garantia de vida, porque és pequeno ainda, e delegaste a D’us, O qual por sua vez, por razão que sinceramente desconheço, fez chegar a decisão a mim; talvez porque estivesse ali ao Seu lado, a serviço Dele. Te explico, deste ponto em diante, como funciona. O Senhor não vai te levar sem que tu queiras! A Sua bondade, seja racional: sempre foi infinita. O Cordeiro mais manso e onisciente sempre faz de bom o que tu decides, para o teu bem. Eis a pedra preciosa e luminosa de que todos sabem, e poucos acreditam, a ponto de tê-la. Portanto: não largue minha mão, nem isto que te dou, nem deixe a minha voz, no momento escuro; ainda que te esqueças disso, saiba que estou por ti. Até que tudo esteja de novo calmo, até que não haja dúvida alguma ao teu redor, de que não queres partir agora. Trabalha com calma, ouvindo os ruídos de teu peito, paciente, pesado, piedoso consigo por dentro. Concentra-te no que te faz sentir melhor e te acalma. Todos os dias um pouco, sendo paciente, patrício, perseverante consigo… O sorriso e alívio de ter mais uma manhã de presente; o solo de Novo Continente em que brota a tua árvore. Debela o perverso. Encontra o que te levou a estar onde está, o que te trouxe até aqui, o que te faltava saber… Pensa no futuro aos poucos, até que ele caiba em uma imagem sadia e clara, de sensação concreta, de proteção aos teus filhos. Foi no dia de São José, o calor de teu e meu colo. Caminha rumo à imagem de realidade que concebeste com carinho, rumo às pendências de tinta suave que te acalmam: a cor da tinta e as suas texturas são mais importantes que o quadro almejado. E fia por dentro, paciente, nos bastões de coragem com que combate gloriosamente o teu corpo. Te entregaste tão ditoso às engrenagens, que em tua fragilidade humana, a batalha veio adentro… Mas não há nada mais selvagem que a tua loucura, nem rede mais macia para cair de abraços. Um domínio de cabelos e curvas te aguarda: assim caminhas sobre a água entre os morros. Ainda estás lindo demais para ir-se agora. Esfrega tuas mãos, os teus ombros, o teu rosto; aguarda o tempo em que virá melhor momento decerto, para ir-se em segurança. Aproveita o repouso: que os dias ainda vêm, e serão muitas as diatribes na liça, as sílabas de epígrafes, as velas içadas, as paredes construídas, as folhas a brotar, os frutos a amadurecer, enquanto perscrutas o céu e aprofundas nossas raízes. O sofrimento sem dúvida virá: mas tão menor que a minha alegria em te ver! Em breve estarás trabalhando de novo na vida, até que disso, sem saber, tenhas esculpido o teu busto invisível, para brilhar no fundo das coisas visíveis; para dizer aos meus dedos palavras já escritas.

Ana Paula Arendt é poeta e diplomata brasileira. Escreve mensalmente na coluna ‘Terra à Vista’.

Ressalva: os trabalhos sob o pseudônimo Ana Paula Arendt pertencem ao universo literário, refletem ideias e iniciativas da autora e não necessariamente posições oficiais do Governo brasileiro. Estes trabalhos literários buscam estar em consonância com os valores e princípios da Política Externa Brasileira relacionados ao diálogo, à dignidade humana, ao desenvolvimento e aos direitos fundamentais do indivíduo. A autora está sempre aberta a sugestões e críticas.