Terceirização X DNA organizacional: como sua empresa empodera a própria cultura frente ao desafio da pejotização? Por Karina Grechi Tagata.

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Ofuscada momentaneamente pelo Corona vírus, a hashtag ainda está na boca das empresas, trainees sabem de cor e as redes sociais comentam o tempo todo: #employerbranding, a #marcaempregadora é o hit do momento no LinkedIn. Porta de entrada para a employee experience ou ‘experiência do empregado’, essa vivência do trabalhar, o ‘como é’ o dia a dia da organização, tem sido tratada cada vez com mais cuidado pelo mercado, subindo a régua para as empresas que buscam um diferencial, o ‘a mais’ que acaba impactando positivamente o valor de sua marca e seu apelo para atrair não apenas o consumidor, mas também os melhores talentos.

Sem sombra de dúvida, o #employerbranding é uma excelente notícia para o trabalhador, que vê nessa atitude a preocupação da companhia não apenas com o lucro, mas com propósitos maiores, tais como a responsabilidade social, ambiental – além da própria valorização de seus quadros, numa simbiose que gera bons resultados a todas as partes: uma verdadeira relação ganha-ganha.

Acredito que essa visão faça todo o sentido quando falamos de ‘empregados’, de funcionários contratados sob a égide e proteção da CLT, ligados à empresa em condições de trabalho de subordinação direta e contratual. Contudo, em tempos de flexibilização das leis trabalhistas, me pergunto como a terceirização – mais conhecida como pejotização – por suas características de contratação, está permeando o ambiente profissional e interferindo na cultura empresarial – no experimentar, vivenciar e compartilhar esse DNA.

É crescente o aumento na busca por registro como Pessoa Jurídica, por conta de ser essa uma alternativa muito visada por empresas para reduzir os custos de contratação de prestadores de serviços. Segundo dados do Portal do Empreendedor do Governo Federal, até setembro de 2019, o número de MEIs ultrapassou os nove milhões de inscritos, um aumento de quase 17% em relação ao ano anterior.

Refletindo sobre a mudança qualitativa no organograma atual de grande parte das empresas, principalmente pequenas e médias, vejo as tramas do tecido organizacional esgarçado, o DNA da organização no fio da navalha. Se, por um lado, a empresa ganha fôlego ao desonerar-se da carga trabalhista, por outra gera um risco de descolamento do colaborador pelo distanciamento inevitável que a transformação de patrão-empregado para tomador-prestador de serviços gera.

Contábil e legalmente um fornecedor, na prática esse profissional muitas vezes obedece a relações de subordinação dentro do organograma da empresa; não seria então uma falácia falar da employer experience ou ‘experiência do empregado’ para um prestador de serviço? E se não falar, como injetar nesse profissional o DNA da empresa se ele não é de fato e de direito parte dela?

No século passado o funcionário ‘vestia a camisa’ da empresa, com orgulho por se sentir parte dela, e procurava fazer carreira, crescendo junto e, não raro, permanecendo nela durante toda a sua vida profissional. Os tempos mudaram. Pegue os currículos atuais e veja quanto anos/meses esses ‘trabalhadores-empresa’ ficam nas organizações que os contratam.

Não se trata, aqui, de ser a favor ou contra as novas relações de trabalho, mas de entender como elas impactarão a cultura das organizações nos próximos anos. Fica a pergunta: como os contratantes estão trabalhando a questão – para que ela não cause estragos aos propósitos que elevem a marca a objeto de desejo do consumidor?

Karina Grechi Tagata é jornalista, com especialização em Gestão Estratégica da Comunicação Organizacional e Relações Públicas. São mais de 25 anos de profissão em grandes empresas de mídia e organizações privadas, com vivência gerencial em comunicação aplicada ao desenvolvimento de pessoas e negócios.

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