SUA IMAGEM, SUA ESSÊNCIA - Sua comunicação constrói pontes ou ergue muros? Por Patricia Gonzalez.

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Minha avó materna, com quem tive o grande privilégio de conviver durante quase quatro décadas, foi a pessoa mais sábia que já conheci. Praticamente não frequentou a escola e mal conseguia escrever o seu próprio nome. Porém, possuía a grande habilidade de ‘ler’ pessoas. Perdi a conta da quantidade de vezes que a ouvi, após muito observar o comportamento inadequado de alguém, suspirar profundamente e dizer: ‘ninguém pode dar o que não tem’. Mesmo sem entender muito bem o que isto representava, incorporei essa frase, ainda criança, em meu vocabulário. Porém, somente agora, na maturidade, consigo compreender, com profundidade, que a expressão tão apreciada pela minha querida ancestral tem tudo a ver com os alicerces emocionais que sustentam a forma como nos comunicamos com nós mesmos e o mundo.

Alguns anos atrás fui contratada por uma grande empresa para treinar um executivo que havia acabado de assumir um alto posto na organização e precisava aprender técnicas de relacionamento com a imprensa e outros stakeholders importantes. Era um profissional recém-chegado de uma companhia que tinha como política de comunicação manter seus porta-vozes o mais low profile possível.

No briefing que recebi para a montagem do treinamento, a descrição era de um homem muito sério, reservado e, porque não dizer, um tanto temido. Alguém que transmitia a percepção de que preferia erguer muros ao seu redor em vez de construir pontes de comunicação.

Tenho larga experiência neste tipo de trabalho e, ao ser convocada, estava absolutamente certa de que o meu pacote de fórmulas e ferramentas já (bem!) testadas daria conta do recado. Tratei de preencher todos os espaços da programação com conteúdo que considerava pertinente para a execução da tarefa, estruturei bem os módulos e segui com a certeza de que, mais uma vez, os resultados seriam muito positivos.

Iniciei minha programação, bem embalada e fundamentada em conceitos e cases de grandes marcas, apresentei vídeos impactantes, levei parceiros experientes e de credibilidade para relatar suas experiências nos grandes veículos de imprensa e ‘manualizar’ condutas e posicionamentos adequados aos líderes corporativos. Tudo bem estruturado e, a meu ver, com o ‘peso perfeito’ para o nível de profissional que eu estava atendendo.

Durante toda a apresentação, contamos com o olhar muito atento de nosso cliente tão especial. Porém, ao chegar no módulo prático do treinamento, com os exercícios de entrevistas, deparei-me com um profissional extremamente tenso, assustado, desconfortável com seu traje elegante, desencaixado dentro do seu próprio corpo.

Sua experiência, altamente reconhecida no mercado em que atuava desfalecia por meio de palavras desconexas, sofridas, quase sussurrantes. Os ombros daquele homem encolhiam de tal forma que tive sensação de ver o indivíduo alto e forte retroceder à condição de menino frágil e sensível. O menino que, certamente, vivia dentro dele e queria expressar todo o seu desconforto. Diante de mim, naquele momento, não estava o porta-voz, mas o ser humano que deixa transbordar suas necessidades emocionais não atendidas. Lacunas que representavam exatamente o que a minha sábia avó, a que mal conseguia escrever o seu nome, queria dizer com a expressão ‘ninguém pode dar o que não tem’. Havia algo de muito importante na voz interior daquele indivíduo que precisava ser ouvida, ativamente, por ele mesmo. Caso contrário, os muros em seus relacionamentos corriam o risco de ser cada vez mais altos.

Todos nós, seres humanos, temos quatro necessidades básicas: sermos ouvidos na essência; sermos notados, reconhecidos e amados; termos o direito de errar e o de pertencer aos sistemas. Se estas frentes emocionais essenciais não forem bem atendidas, dificilmente conseguiremos motivação para prosseguir. Ao contrário, corremos o risco de nos tornarmos cada vez mais apáticos, amargos, pouco resilientes, distantes dos outros, sem esperanças.

Abordarei melhor este tema nos próximos textos da coluna. Mas, neste momento, é importante compreendermos que, claro, sempre será possível aprender técnicas de comunicação e criar uma persona para não deixar que estas lacunas sejam muito evidentes. Mas a eficácia delas não durará muito tempo se a mudança não vier de dentro de você, as pontes de relacionamento não serão fortes o suficiente para manter conexões sólidas, profundas e de valor. E, não tenha dúvida, os muros voltarão a ser erguidos.

Sobre o desfecho da história que contei? Não, eu não prossegui com o treinamento naquele dia. Reestruturei o formato final, aguardei um tempo e remarquei com o executivo, mas, desta vez, sem levar grande equipe. Éramos praticamente ele, eu e uma assistente. Conversamos muito, inclusive sobre amenidades, até que ele se sentisse mais leve e pronto a dar mais um passo firme em direção ao que demandava seu novo job description.

Repetimos os exercícios quantas vezes julgamos necessário, porém, de forma mais descontraída, sem imposições e fórmulas mágicas. Todo aquele processo de mudança era novo para mim como profissional de comunicação. Era necessário ampliar o olhar para a situação e adaptar as técnicas que eu dominava ao desafio humano que se apresentava. Construir novas trilhas neurais. Para mim e para ele. Felizmente, tudo fluiu bem. Os resultados foram muito bons.

Aquele profissional, tão brilhante tecnicamente e com todas as suas questões internas, conseguiu, mais uma vez, atingir a meta que lhe fora determinada. Ao enfrentar seus próprios fantasmas internos, com muita coragem, abriu espaço para a compreensão de que não é preciso, necessariamente, deixar de lado a sua essência para erguer as tão essenciais pontes de relacionamento no campo pessoal e profissional.

Este trabalho valeu um enorme aprendizado para mim e uma virada de chave no entendimento e exercício do meu ofício. Tenho certeza de que, para o profissional que esteve sob os meus cuidados, a jornada de autoconhecimento e superação foi intensa e bem reveladora. E eu o respeito e admiro muito por isso. Por permitir-se ser. Ele mesmo. Com todas as suas forças e vulnerabilidades.

Patricia Gonzalez é jornalista, pós-graduada em Marketing, Cinema Documentário e Psicologia Positiva. É mestre em Bens Culturais e Projetos Sociais, analista comportamental e graduanda em Psicologia. Ao longo de quase três décadas, atuou como repórter em grandes jornais e como executiva de comunicação em importantes organizações e agências de comunicação do país. É docente, escritora e palestrante. Sócia-fundadora da consultoria de comunicação Múltiplas Narrativas e da Mulheres em Tribo – escola de gestão de imagem, carreira de transformação pessoal, voltada para o público feminino.