Sobre os campos de Moriá. Por Ana Paula Arendt.

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Chama-se Moriá o monte no qual Abraão subiu para sacrificar a vida do seu próprio e único Filho, Isaque. Hoje talvez esse monte seja mais conhecido na sua versão fictícia e anglo-saxã, Moria, como denominou J. R. R. Tolkien o campo no qual o Mal proliferava seus exércitos, com vistas a dominar o mundo. Tem algo em comum com a história bíblica: em Moria o protagonista, Frodo, também se sente tentado, pela confusão da adversidade, a acusar e punir seu amigo mais próximo e dileto. Em medicina, moria é o termo técnico para uma perturbação mental, agitação psíquica, tendência ao gracejo. Diga-se de passagem, diversão mesmo quando se instala um cenário de sofrimento e humilhação do outro, a qual também surge numa circunstância de adversidade intransponível.

A violência é um tema complexo e o nosso tempo não favorece lidar com questões complexas, porque abraça tantas vezes o objetivismo e a simplificação… A poesia não é proposta de síntese válida hoje para contar as coisas, embora na História Antiga, apenas o que fosse conversível em poesia era digno de ser contado. Alguns poemas antigos eu já trouxe a esta coluna. Mas até a poesia hoje segue sendo simplificada e fugindo dos grandes dilemas que Shakespeare encarou frontalmente. E quem poderá culpar a poesia por refugiar-se em campos de lírios e rosas, postergar o apocalipse? Talvez a poesia não sirva para tratar de um tema tão pesado. Talvez mesmo na poesia não haja nem seja possível haver algo decorrente disso.

Digo isto por causa de manchetes que sensibilizam a sociedade e especialistas recentemente, a tortura e morte de uma criança pelas mãos da própria mãe, o caso de Rhuan; a filmagem pornográfica e abuso sexual de netos por uma avó; e pelos homens são tantas as notícias escabrosas que chegam aos jornais, que as pessoas por alguma razão perversa tendem a não dar tanta atenção, como se a perversidade se tornasse um mal menos inesperado na mão dos homens. É difícil pensar a respeito e apenas escrevo sobre o assunto porque outras duas pessoas em cuja mão confio melhor igualmente o fizeram.

Muito tristemente esses não foram os piores casos que já li sobre violação do direito de uma criança à vida. Lamentavelmente já é um nível de barbárie inconsolável e intolerável a qualquer ser humano. Como foram também outras barbáries: um pai que, acusado injustamente de abusar sexualmente do filho em uma Vara de Família, num erro judicial de ter concluído procedente a acusação, compra uma arma e mata a mãe, sua família, o próprio filho e a si mesmo em Campinas; suponho ressona a mesma lógica, o Mal absoluto, detonado por uma juíza, definitivamente não de Direito. O pai que frita o bebê e o mata em uma frigideira em uma favela do Rio, porque estava chorando e a mãe havia saído para trabalhar, também é um fenômeno que não pode ser ignorado nem esquecido por quem leu, ainda que se busque alento em toda parte do mundo para não ter a alma envenenada por eventos que nos levam a questionar a existência divina. Em comum : o perpetrador se vê tomado por uma ideação de justiça macabra irresistível, numa posição de frustração e humilhação que julga impossível de ser superada; e vê mobilizadas todas suas forças e intenções para extirpar totalmente a possibilidade de vida humana. Será assim? Ou talvez eu não seja capaz de conceber a violência nesse tamanho desnível e perplexa eu prefira me distanciar do tema.

Há outras torturas e abusos menores que esses, mas não menos graves. Quantas vezes não se acumularam, silenciosamente, nas Varas de Famílias, mulheres ali clamando seus filhos, porque buscaram escapar de um relacionamento abusivo? Eu vi com meus próprios olhos como foram tratadas as mulheres pelo poder público. Vilanias engendradas às quais a sociedade se vê prostrada sem reconhecê-las como vilanias, mas que deveriam ser combatidas com maior afinco. Ali, nas delegacias de proteção a crianças e nas Varas de Família, entram e saem pessoas, mas suas histórias nunca são prospectadas em maiores detalhes: apenas relatos, que raramente trazem toda a memória dos fatos, são registrados de modo resumido e lidos por terceiros que não tiveram contato físico, nem visual, nem pessoal, com o sofrimento de cada pessoa que por ali passa. Em um ambiente asséptico, o Judiciário observa pessoas em um ambiente que ele próprio cria, onde as pessoas buscam conter seus sentimentos e suas opiniões. O teatro oculta uma realidade visceral. Como poderiam desse modo captar a realidade nos autos? Centenas e milhares de processos nos quais constam acusações de morte e violência inconcebíveis, e muitas vezes falsas, de pais, mães, avós, tios, uns contra os outros, alegando risco para obter guarda dos filhos e proibir o respectivo desafeto de vê-los, muitas vezes omitindo seus interesses patrimoniais e triunfalistas, onde tentam ocultar com gestos dos advogados a indiferença pela felicidade da criança. O Estado que determina numa jurisprudência favorecer o lado que agride, mas que manifesta pela permanência de um vínculo, sob o pretexto injustificável de jurisprudência, licencia o estupro de mães, ao franquear permissão legal ao lado paterno para lhes subtrair os filhos. O estupro é o sexo sem consentimento: não se pode considerar razoável que o Estado e que o Direito preveja subtrações a mulheres que não queiram mais ter um relacionamento nesse nível. Mas a violência do Estado existe lamentavelmente, e muitas vezes produz a meta-violência, quando é praticada sob os auspícios de uma legalidade.

A ameaça sub-reptícia de subtração dos filhos de um cônjuge agressor talvez poucas mulheres conheçam, mas talvez não tão poucas; mas me veio à memória a história de Celine Axelos (1902-1992), uma poeta muito querida pelos egípcios em Alexandria, mulher de letras e oradora, cujo filho de três anos foi subtraído pelo pai, em função do divórcio, e foi deixado por ele em uma pensão em Virginia, nos Estados Unidos. Depois de quinze anos circulando em orfanatos ela o teria finalmente reencontrado. O leitor neste ponto fica em dúvida se prosseguir ou não na biografia dela, tão chocante é o sentimento, mas opta por prosseguir, porque o reencontro nessas entrelinhas entre uma mãe e um filho subtraído é de uma luz dilacerante que nos cura. Ela escreveu ‘Les deux chapelles’ (As duas capelas) e ‘Les marches d’ivoire’ (Os passos/degraus de marfim) e encontrou humanidade e acolhida nas letras. Conforme a biografia disponível, o Governo egípcio felizmente desapropriou todos os bens do ex-cônjuge, o qual havia obtido cidadania americana, a despeito do advogado indicado por Hoover, numa arbitragem internacional que chegou a Viena. Guardou também os registros da poeta, que teve a felicidade de reencontrar o filho, observar a queda das pretensões materialistas do seu algoz e falecer em avançada idade, bem quista.

Fato é que, retornando à tragédia em solo brasileiro, onde o cidadão lamentavelmente sente menos o caldo de uma cultura de civilização milenar, ninguém chega por conta própria aos campos de moria. No Brasil estamos construindo uma sociedade na qual abafar e ignorar sentimentos é uma virtude; na qual o trabalho das autoridades é agir raramente, e na esfera discursiva; na qual gestores e autoridades buscam justificar a realidade objetivamente a partir dos resultados existentes, por critérios que aos fatos se adaptem, ao invés de produzir novos cenários que ensejem resultados melhores.

O resultado dessa falta de prática em lidar concretamente com o difícil problema da violência crua resulta também em que não saibam mais as autoridades brasileiras discernir o que é uma pessoa ou criança que sofreu abusos. Não! Uma pessoa que sofre um abuso grave muito raramente vai conseguir de pronto montar um grande aparato de segurança jurídica e uma equipe eficaz, para garantir seus direitos com discursos redondos, com fluência social e estratégia de mídia. Apenas nós, seres humanos incapazes de refletir além de nossa própria experiência, limitados, conseguimos acreditar prontamente no circo legalizado, perseverar numa ideia apenas porque ela apresenta um rosto factível, um recurso adequado a termos jurídicos consolidados e um corolário decisório prévio, um advogado de reputação. Mas a realidade é mais irracional e direta do que isso. Quem sofre é quem sofre. Quando o Estado se distancia da realidade, erra, e tudo o que nos resta é a perplexidade, a incompreensão, o choque. A violência crua. Laudos vaginais de mulheres nas chamadas de capa… Grandes absurdos para qualquer civilização que deseje se tornar habitável, não é o caminho que queremos para nosso País.

E Abraão, a figura aparentemente colocada em situação adversa, sem ter para isso contribuído, padecia de grandes sofrimentos? Certamente a mãe de Isaque iria padecer. Não sabemos, pois, o que o levou até aquele monte de Moriá, não está registrado em detalhe nas escrituras sagradas. De que forma D-us lhe haveria dito para prosseguir naquele plano, que a qualquer ser humano pareceria maligno, matar o próprio filho? Deveria esta autora comparar assassinos de crianças que surgem na capa dos jornais com Abraão, o nosso patriarca? Contudo pela virtude da obediência ele se justificou e o justificam muitas gerações. Para nós é uma linda história, apenas porque em razão proporcional de sua obediência D-us teve misericórdia, por meio de um anjo impediu a tragédia. Isaque foi salvo de ser morto pelo pai. Zeus também escapou com seus irmãos do destino de ser devorado por seu pai Kronos. O medo do pai. O abismo e o paraíso num só conto nos encanta.

Apenas posso pensar. O que leva outros pais a colocar crianças debaixo do braço e levá-los a esse monte de sacrifício, e o que leva cidadãos a exaltar esse aparente monte perverso no qual D-us não é reivindicado, no qual a única possibilidade de justiça, seja ela racional, irracional ou divina, consistiria em sacrificar a vida do outro ? E em menor medida, ao colocar crianças debaixo de um rol de acusações a um dos pais a respeito de sua integridade, é, ainda que sob diferentes intensidades, em essência história que nos faz lembrar da história que lemos sobre Abraão, sempre esperando o melhor desfecho. Mas quando o desfecho melhor não vem, o que dizer? Um egoísmo descontrolado, um auto-centrismo obsessivo? Afinal, D-us se confundiria acaso com o ‘id’, o descontrole dos desejos de pais insatisfeitos sexualmente? E o que nos faltaria progredir, para que o anjo salve a criança do matadouro moderno das delegacias indiferentes e dos tribunais frios, para que a história narrada seja necessariamente a superação do Mal?

Sempre me chocou muito essa passagem de Gênesis. O ensinamento ancestral do que consiste no maligno e como a misericórdia divina nos salva. E me chocam também as situações nas quais a intervenção divina não salva. Fato é que a violência para nós pode ser algo tão dilacerante, a ponto de querermos nos distanciar dela, sequer estudá-la. Causa perguntas indesejáveis e sofrimento abordar o inconcebível. Evitamos. Mas se não estudarmos e não refletirmos, como avançaremos nossa sociedade para prevenir a violência crua, quando essas circunstâncias plenamente criadas por seres humanos instruídos escapam ao controle?

Penso que para uma pessoa que foi consistentemente abusada em seus direitos mais fundamentais, constatar inadmissível pela sociedade o seu pleito de se ver compensada pelos abusos sofridos causa uma espécie de segundo sofrimento. Afinal, a mãe de Rhuan era lésbica e bruta, como poderia esperar que o tratamento da família, dos vizinhos fosse complacente, ou compreendesse o sofrimento primeiro, o abuso do qual ela primeiramente foi vítima? Certamente não se viu endossada pelos seus próximos em obter uma compensação psíquica pelo sofrimento acumulado em sua vida, o que a levou a um sofrimento em nível mais alto e inexpressado. Do desequilíbrio, cambaleou até Moria e de lá, do sofrimento profundo em que foi descendo os degraus da escada do inferno: entregou-se ao Mal absoluto. Haverá um momento no qual nós, seres humanos, podemos ter poder de decisão de não prosseguir nesse campo do Mal absoluto?

Eu também já sofri abusos e muitas pessoas sofrem; contudo não nos tornamos assassinos. Também há pessoas que, mesmo após ser coletivamente abominadas, se não entregam ao Mal absoluto nem prosseguem caminhando mais adentro, como o fez aquele servidor brasileiro que ateou fogo em uma escola, a ponto de Professora Heley ter de sacrificar a própria vida para salvar seus alunos, em Janaúba. Fato é que ao senso comum escapa admitir algo: a dimensão e profundidade do sofrimento pode sim, levar qualquer ser humano à perda do auto-controle e do senso. Há aglomeração, inclusive, entre pessoas perturbadas, como demonstra a existência de ameaça cibernética de grupos que cultivam a morte, dos quais faziam parte os alunos que se entregaram ao Mal absoluto em Suzano. Subjugar qualquer um que arbitrariamente venha a acrescentar sofrimento a uma pilha já enorme? Ou abortar o Mal que via? Algumas pessoas não parecem encontrar o momento da escolha, diante do desespero, ao chegar a essa encruzilhada. É difícil julgar. Porque há também uma conjunção de forças negativas coletivas: a família como palco para tragédias inexplicadas atrai as manchetes e as pessoas, após manifestar repúdio por alguns dias. Haverá uma sede coletiva por sangue, que explique os eventos violentos na História? No Brasil, nós nos silenciamos, para se chocar apenas quando se torna impossível ignorar outro caso. Afinal, há cadáveres todos os dias nas ruas na Cidade Ocidental, nos arredores de Brasília e nas favelas; talvez para a empregada doméstica que ali reside não haja outro destino senão o de considerar isso parte do seu cotidiano, da sua vida de pobreza, e a quem ouve suas histórias, repeli-las.

Mas há casos lamentáveis não apenas onde os ambientes de pobreza repelem a visão e a ação do Estado, a atenção dos cidadãos e a esperança da polícia. Portanto retorno ao problema dos campos de moria, a perturbação e a excitação mental que decorre da necessidade de descontar em alguém, sem se importar quem seja, mesmo inocente, o que foi sofrido. A lógica do trote universitário, dos ritos violentos de admissão… Fato é que vemos a violência quando ela se manifesta, mas também há a violência com a qual o agressor se familiarizou primeiro, silenciosa. O Mal é a força de um comando instintivo, sob qualquer justificativa espúria de comando divino, para satisfazer um senso de reequilíbrio, um senso de justiça perversa centrada no eu. Como escapar disso?

Talvez eu tivesse sido colocada perto dos campos de moria, pois conto que fui colocada na antessala dessa região temerária, por quem desejou me punir em uma Vara de Família. Teceram considerações vergonhosas a meu respeito. E sim, depois de meses perplexa, uma perplexidade que jamais me deixará, o gracejo surgiu temporariamente como escapatória inofensiva de dores infinitas. O sarcasmo, a ironia e a sátira são reações humanas, não menos naturais, a uma humilhação imanente. São caminhos para Moria? Reivindicam o sarcasmo e a ironia restaurar a dignidade, mais me parecem ser reação de um amor-próprio, ao defender um direito intrínseco que não deveria ser alvo de controvérsia, sobretudo quando o direito é o de simplesmente existir. Todo ser humano tem direito à existência e, quando privado em discursos ou na realidade desse direito, poucos conseguem se refugiar apenas na oração. E como cobrar que se refugiem em planos espirituais, quando a religião os recusa, tendo em vista a seara estrita dos domínios conjugais? Afloram então o sarcasmo, a ironia e a sátira, por vezes o humor, como caminhos a meu ver benignos ; não, talvez eles não conduzam a Moria, pois não são necessariamente malignos, não implicam em dano, apenas causam dano quando o outro, por um ato próprio de vontade, resolve vestir a carapuça. É optativo sofrer com uma crítica ou uma sátira, arbítrio humano enxergar-se em uma fábula. E não necessariamente se satisfaz o autor do sarcasmo e da ironia com isso; pois o sarcasmo e a ironia nos deixam no mesmo lugar de sofrimento, eles apenas nos acomodam a uma posição incômoda. O que então faz prevalecer o gracejo e a excitação, quando se constata o sofrimento do outro? E de um outro inocente?

Um forte senso moral, parece-me, jamais permitiria pensar concebível que se desconte a eletricidade das energias negativas que surgem de uma humilhação em crianças, nas pessoas que configuram o centro dos nossos afetos mais preciosos. Toda pessoa sã pode conceber já ter, involuntariamente, descontado algo em alguém que não fosse responsável ou co-responsável pelo seu sofrimento; mas não é possível conceber despejar em uma criança algo ruim, quando se tem pela criança o mais profundo afeto, a afeto materno. Também todo ser humano sem dúvida pode conceber factível uma reação violenta instintiva a um roubo; sim, existe a defesa legítima, tolera-se a defesa assistida. Mas uma criança, numa civilização na qual se permite ter sido criança, também, e na qual as memórias de infância são um bem valioso, jamais poderá ser o centro de uma justificativa abjeta para a violência.

Talvez eu não tenha estado verdadeiramente nos campos de moria, de fato talvez apenas tenha o visto ao longe, seus montes explosivos sendo clamados por gente doida, indiferente e cruel. Talvez eu não tenha capacidade de enxergar que tipo de erro crasso a sociedade engendrou para resultar nos casos mórbidos. Pois não me faltou refúgio. Não vi graça nas provocações.

Mas na falta de refúgio, quando Igreja, família, o círculo social e o Estado negam dignidade a uma pessoa que acumula o fardo de ter sido alvo de muitos abusos, uma pessoa pode se encontrar numa completa escuridão de discernir o que sente. Quando não se criam novos lugares nos quais essa dignidade humana possa ser resgatada, ou preservada, o que fazer? Haveria algo que um cidadão ou cidadã pudesse fazer, para não ter de ler essas notícias escabrosas nos jornais? Não haverá uma tecnologia, nos encontrando em plena era digital e em 2019, que pudesse desarmar essas explosões violentas que nos chocam?

Talvez mesmo diante dessa possibilidade fosse melhor simplesmente calar. Não há nada nem haverá nada que possa explicar uma atrocidade como o crime de uma mãe contra o filho. Mas seria muito confortável não ter de buscar explicações nem meios de se prevenir que algo assim ocorra, quando lemos que coisas coisas assim ocorrem. Seria desumano: deixar de pensar no que poderia ter sido feito para evitar uma tragédia dessas. Seria muito mais desumano esquecer que vizinhos ligam para a polícia avisando do sofrimento do menino antes desse desfecho. Que as autoridades vão atrás de outras denúncias e deram importância a picuinhas relacionadas a divórcio, e falharam neste caso! Onde estão os vizinhos? Onde está o Chefe de Polícia que recebeu a chamada? Por que ele não veio a público dar uma satisfação para a sociedade? Por que não estamos pensando em como reformular por completo no nosso País a maneira de receber e processar chamadas e denúncias? Por que estamos coletivamente aceitando o inaceitável? Não podemos aceitar. O Estado deve vir a público. Dizer algo. Ao menos em nome da saúde mental pública.

Há também de se recordar a posição confortável do abusador, escondido na sua covardia, à qual talvez nossas instituições brasileiras estejam se habituando, assimilando sua perversidade.

Apenas quem sofreu abusos sobre si sabe da proporção preocupante de ignorância prática que leva a sociedade a caracterizar errado eventos, a tolerar a covardia do abusador, a risada e o achaque. Sabemos, os que sofremos nas mãos de autoridades, que a inércia os leva muitas vezes a evitar quaisquer decisões que possam conduzir efetivamente a uma mudança de rotina, à responsabilidade de proteger. Ao registro e à reação inicial, transmitida sempre indiretamente e de modo incompleto, dão-se por satisfeitos : a sociedade de relacionamentos líquidos também produz registros levianos, sobre os quais irá tomar decisões insuficientes.

Mas as pessoas, não obstante os belos discursos do Estado e da Igreja, ainda estão calcados em ideias muito fixas de direitos e dignidades que buscam preservar, sobre as quais construíram suas saciedades, expectativas. Ideias que mudam com o tempo e com os costumes, sem dúvida, mas às quais as pessoas por vezes se aferram, e as instituições não poderão ignorar a realidade como um apêndice. Quando o ideal e a projeção de si mesmas das autoridades pairam sobre indivíduos e casos diferentes, a falta de percepção sobre necessidades, de vivência e de empatia conduz à falta de decisões necessárias, a dar atenção e até mesmo contribuir para o conflito.

Bento XVI questionou recentemente essas mudanças, a revolução sexual e dos costumes, como um caminho aberto para aceitar comportamentos que antes eram vedados ; atribui um suposto aumento da violência e do abuso a esse liberalismo, e não à maior transparência, e parece considerar algo negativo que se normalizem certas mentalidades.

Contudo existe um outro lado a ser considerado, na tentativa de flexibilizar a ideia de costumes e de sentimentos, que ainda é bastante incipiente. Expandir o conceito de família a ser aceito pela sociedade, flexibilizar mentalidades permitiu prevenir a canalização da insatisfação social aos mais vulneráveis, aos que sofrem maior preconceito. É a razão de Estado que nos fala, de prevenir danos, de proteger vulneráveis, de compreender diferenças, que nos dizem as Ciências jurídicas ser o propósito inerente da ação do Estado.

Quando as autoridades enxergam nessa flexibilidade uma inerte condescendência, é talvez quando se produzam casos e os muitos lapsos na sociedade como o de Rhuan, no qual muitos falharam antes de que se constatasse a atrocidade.

A despeito dessa divergência entre os que defendem um retorno ao que era supostamente fixo, na forma da família tradicional, do gênero biológico, e os que defendem uma reconciliação e adaptação da conduta do Estado, para prevenir violações de direitos a minorias, podemos notar que seguimos entretanto uma sociedade que tem medo de assumir responsabilidades de longo prazo, não importa o discurso.

Também na época dos valores fixos havia desvios; mas reconhecer os desvios abertamente é flexibilizá-los? Não estaríamos clamando um retorno aos valores fixos, mas simultaneamente abrindo mão deles, por força do hábito? Exemplifico. Onde está o pai e onde estão os demais familiares daquela criança que foi executada pela própria mãe, o qual ela reportou ter sido autor de abusos contra si? Abusar, produzindo situação explosiva, e abandonar em seguida pessoas perturbadas ao cenário maligno criado, é algo menos perverso? Se a ideia é defender a família tradicional, onde estão os cidadãos conservadores clamando a punição do pai agressor que abandonou o filho, o chefe daquela família, que ele venha a público se responsabilizar?

Não é possível, mesmo no formato conservador, aceitar que uma mulher aviltada se cale eternamente sem enlouquecer. Qual foi a reação das pessoas ao seu redor quando reportou os abusos do pai agressor? Aí também está o instrumento estúpido fabricado, punhal invisível com que a mulher enlouquecida abraçou o Mal absoluto: o Mal absoluto apenas pode ser fabricado por muitos. E onde está, na sociedade, a discussão sobre políticas adequadas para reverter o isolamento psíquico no qual proliferam silenciosamente os clamores de uma violência crua, que terminam no indenominável?

São responsabilidades de longo prazo e de muito esforço, cuidar de uma criança e proteger a integridade psíquica da função materna das mulheres. Não podemos nos desesperar nem nos calar. Devemos analisar todos os aspectos, ainda que não saibamos de tudo.

De um ponto de vista mais alto. Persistir incluindo crianças e mulheres em uma condição hierarquicamente inferior e elevando imagens de figuras femininas santas com virtudes distantes da realidade de seu povo jamais irá contribuir para isso. Coloca-se a Virgem e o menino em um altar, na mais altíssima hierarquia, mas ao mesmo tempo se relega a mãe e o filho no lugar mais vulnerável ; rasga-se o tecido humano do qual a mãe e os filhos são feitos. Não há acolhimento suficiente nas delegacias nem nas Varas. Entre essas hierarquias dilacerantes justifica o homem ocupar um lugar vago, tergiversando sobre suas responsabilidades, conveniente a não se mover de sua situação de conforto; frequentemente ausente. A mulher então é atirada ao centro do vulcão da acumulação das adversidades.

No nosso quotidiano, notemos a cultura ser constituída de gestos e reações simples. Nós também somos responsáveis por tornar esse esgarçamento aceitável. Quando uma mulher deixa o ambiente de trabalho para atender a uma urgência de uma criança, elogiá-la por atender ao filho, está, no momento que vivemos, fora de perspectiva cultural. E talvez de fato em séculos anteriores essa relação fosse melhor prezada e sacralizada. Até mesmo para as mulheres preservar a integridade desse tecido humano indispensável parece um contrassenso, pois acham que devem pedir por isso desculpas ; sentem-se culpadas de sua menor produtividade profissional, a qual sabemos ser aparente. Uma mulher que se ausente do trabalho quando demandada pelos filhos; que ache suficiente a relevância social de cuidar dos filhos; que reivindique estar nisso a sua força, e não a sua fragilidade; que cobre louvor, respeito e reconhecimento por isso, ouvi dizer, poderia perfeitamente receber uma suspensão pelas próprias colegas e ser enviada à terapia, eis os rumos que a sociedade tem tomado hoje. Ausentar-se do trabalho por terapia é contudo compreensível nessa sociedade moderna, na qual ao mesmo tempo é exigido e proibido estar tudo bem.

Victor Hugo, Froissart: é preciso proteger e valorizar a maternidade, e convém fazê-lo sob todos os modos.

Mas hoje se vendem projetos para os quais a mulher não encontra felicidade ou saciedade, pois a saúde da mulher se distingue da saúde do homem : o delírio do consumo, a promessa da estética, a seguridade da profissão. Mas nós, mulheres, concebemos. Amamentamos ; o cuidado da casa que se segue durante a infância dos filhos é uma prolongação desse ato louvável, o cuidado com as papinhas, a alegria dos cuidados e aprendizados dos filhos. A reversibilidade desse papel é uma grande loucura, pois negar o cerne dessa estabilidade emocional, retirar o controle que a mulher tem do seu meio doméstico é subtrair-lhe o protagonismo biológico reprodutivo, sem necessariamente lhe oferecer o protagonismo em qualquer função social para cumprir com o papel masculino, de inspirar atitudes. E por que obrigar a mulher a assumir uma função paterna? Não pouparia esforço simplesmente reconhecer maior valor na função materna ? Suspeitemos também dos grandes problemas psíquicos dos decisores e debates públicos, em conferir respeito a isso.

Fato é que temos apenas 9% de mulheres no Senado, no Brasil ; nas empresas, quantas mulheres as presidem ? Retirou-se a importância da função materna e não se ofereceu qualquer pretexto a isso: e não haverá aí um distúrbio psíquico grave do decisor público, em achar que isso fará bem à sociedade? Como justificar a subtração da relevância da função materna e doméstica sem que antes seja oferecido um espaço no qual a mulher possa presidir o sentido e encontrar o propósito de vida? Seres humanos não podem viver nem encontrar a felicidade sem que tenham auferido um propósito para suas vidas, sem encontrar o prazer do convívio, um reconhecimento positivo em seus atos, sem reger o que consideram essencial a si. Respeitar a maternidade é alimentá-la positivamente, nutrir o sentimento e o vínculo, protegê-lo, e sem esse vínculo rumamos ao precipício como país. Seja abominado publicamente quem despreza e duvida do sentimento sagrado de uma mãe pelo seu filho, até que aprenda e se sinta corrigido, pois quem despreza a necessidade de cultivar o sentimento materno é precisamente quem enseja uma cultura na qual esse vínculo não tem importância.

Há de se conclamar mais criatividade nas políticas públicas, o progresso de mais e mais discursos e direitos? Teriam bastado os ‘bullet points’ sobre Convenções Internacionais em uma repartição sem símbolos, nas apresentações dos defensores de Direitos Humanos? Ou há de se criar e oferecer esferas e espaços seguros, nos quais uma pessoa possa acionar e desengatilhar conflitos para providenciar sua síntese, onde possa desenvolver o vínculo sagrado que desatará os nós do peito? O discurso de direitos humanos e de igualdade de gênero, sabemos, na forma como estão sendo modulados hoje, com seus pilares imutáveis e inflexíveis a encerrar-se em si mesmos, centrados no isolamento discursivo, repelindo os casos extremos, não os tem resolvido. Como se desses casos extremos não se pudesse extrair reflexões nem pudessem ser uma parte oculta do quotidiano também de quem os enxerga; como se o ser humano fosse galgado a entidade inimputável; como se pudesse existir sozinho no mundo.

É uma sociedade que não tem futuro algum. Ocorre que à garantia dos direitos fundamentais pelo Estado, ao reconhecimento da diversidade, não necessariamente se suprime a violência. Precisamos coletivamente reformular e progredir de um discurso estanque, que com frequência termina em algum ponto do espaço sideral, mas que se recusa a olhar para o passado que fundamentou concretamente o ser humano e a vida. Sagrar a família e o bem que deve existir nela independentemente da fórmula, como um espaço primeiro no qual o ser humano deve ser valorizado, para encontrar propósito, é urgente. O caminho para prevenir a violência, parece-me, é o que vi e vivenciei eu mesma, resgatar o ser humano da antessala dos campos de moria, outorgar-lhe dignidade e responsabilidade antes de que venha a se perder por desertos errantes guiado pela fé autorreferenciada de Abraão, ao deus-dará; tornar a nossa sociedade mais humana, mais sensível, ainda que em micro-escala. Oferecer a empatia e a consideração a quem sofreu imensos abusos, ainda que não seja capaz de expressar ou explicar seu sofrimento. O amor, parece-me, a resposta de quem se ama, ou de quem ama, ainda que por meio dos acenos de seus anjos milagrosos, é que ensina, a única coisa que previne com eficácia a escuridão na qual as pessoas se entregam ao desespero e à sedução da violência.

Este mês naturalmente não é possível elaborar um poema sobre esse tema. Proximamente, após ver passarinhos, ler coisas boas e fazer exercícios, e certamente depois de me assegurar que meus filhos estão bem, e portanto abraçados em meu colo, espero poder trazer aos leitores algo mais leve.

Ana Paula Arendt é poeta e diplomata brasileira.

Imagem: Santa Ana, mãe de Maria, Gaudim Press.

Ressalva: os trabalhos sob o pseudônimo Ana Paula Arendt pertencem ao universo literário, refletem ideias e iniciativas da autora e não necessariamente posições oficiais do Governo brasileiro. Estes trabalhos literários buscam estar em consonância com os valores e princípios da Política Externa Brasileira relacionados ao diálogo, à dignidade humana, ao desenvolvimento e aos direitos fundamentais do indivíduo. A autora está sempre aberta a sugestões e críticas.

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