Reminiscências da fazenda do vovô. Por Juliana Fernandes Gontijo.

Share Button

O mato estava fresco, de tão verde, pois a chuva do dia anterior fez a cor natural retornar à paisagem da fazenda. O céu parecia uma tela de pintura, o azul sem igual mostrava que aquele seria o dia da revoada de pássaros. Centenas e centenas de aves cobriam o pasto. A cada árvore, um ninho. Os piados dos filhotes pareciam a mais completa sinfonia.

Tonico, aquele garoto franzino, de cabelos quase raspados, cavalgava por longos e preciosos minutos na fazenda do seu avô. Sempre que estava em férias escolares, ele preferia aquele local como refúgio. Para ele, não havia coisa melhor do que tomar o café misturado com o leite de cabra e saborear os biscoitos quentinhos do forno de cupim do seu avô, João.

Ele era um senhor forte, feito um carvalho. Com os seus 76 anos, ele ainda carregava um saco de 50 quilos de cimento. Queimado de sol, a pele morena tinha um aspecto diferente. O trabalho na roça fez desaparecer seu aspecto europeu. O avô de Tonico nascera durante uma viagem que sua mãe Giusepina fizera em 1899 para o Brasil, fugindo da vida pobre e difícil da Itália. Os olhos verdes, herdados dela, sobressaiam diante da grande cabeça com uns poucos fios de cabelo. No entanto ele tinha um semblante triste, devido à falta que a mulher, dona Gracinha, fazia. O enfarto do miocárdio tirou-lhe a vida com apenas 45 anos. De lá para cá, ele decidira não se casar mais. Resolveu tocar a fazenda somente com um peão, seu amigo de infância, o Joaquim José, que não participa desta história porque está de férias com os pais centenários no interior da Paraíba.

Todos os dias, o avô de Tonico levantava de madrugada, rezava costumeiramente e depois de “esfriar” o corpo, a fim de não sair no sereno com a “temperatura das cobertas”, partia em direção ao curral. Lá ele tirava o leite das vacas e das cabras. Grande parte da produção vendia ao povoado vizinho.

Eram sempre os mesmos dizeres naquela voz rouca e gasta pelo cigarro de palha: “Oia o leite fresquinho da fazenda do seu João. Quem não quiser comprar hoje, tem ‘pobrema’ não! Amanhã, já sabe, trago mais leite no Torpedão”. Este era o apelido que ele dava ao L-312 conhecido como Torpedo, comprado 0 km quando foi lançado em 1956. Ele até que tentava cuidar bem do seu caminhão mas, às vezes, precisava dar uns tapinhas no motor para ele funcionar.

O neto tinha muita liberdade para fazer quase tudo o que quisesse quando ficava na fazenda, mas com uma condição: todos os dias, teria que ajudar o avô a lidar com a terra da horta. “Prantar é fundamental, fio. Ou não coiemos os fruto p’ra cumê no futuro…”.

O rapazinho era bem inteligente. Aprendeu o ofício do arado, o plantio das hortaliças, o tratamento dos porcos, das vacas e cabras. Depois de alguns anos, já domava até os cavalos: eram mais de vinte. Cavalgar, então? Aprendeu sozinho com apenas 8 anos.

Após uma hora em cima de um negro cavalo mangalarga, preferiu o retorno, a fim de ajudar o avô na horta. Tinha responsabilidades. As “brincadeiras” do restante da infância estavam excedendo o tempo que seu João lhe dera para descanso. Se Abelardo, pai do menino, soubesse de suas andanças na fazenda montado a cavalo, haveria problemas. Entretanto, a revoada de pássaros era o que mais prendia o garoto naquela parte da fazenda. Naquele tempo, ele gostava de fazer alçapão para capturar algumas jovens aves que ensaiavam os primeiros vôos para a vida adulta. Algo era importante: manter o bichinho o mínimo de tempo nas mãos. Como eles eram mais novos, era preciso ter um cuidado especial. E Tonico fazia o possível para não mantê-los presos sem respiração. Aprendeu com o avô que, para não fazer a ave ter medo, as duas palmas, uma sobre a outra, sempre abertas deveriam ser o aconchego do animal. O avô sempre dizia: “Tonico, bodoque, nem pensá! Se eu pego, te dou uma surra, minino!” O neto era obediente.

Naquele dia, o menino descobriu um ninho diferente. Feito com pedaços de rabiolas de pipa, gravetos, linhas, capim e folhas secas, o aconchego desse passarinho era bastante original. A ave era um “sósia” do bem-te-vi, porém pequenino, uma espécie de miniatura. Com asas pretas, o papo e barriguinha amarelos, a avezinha tinha na cabeça duas listras brancas. Uma graça. É o famoso Cambacica.

Ao ensaiar o primeiro vôo, o bichinho perdeu o equilíbrio e caiu do ninho. Tonico ficou atordoado, suas pernas tremiam e seus olhos verdes, levemente acastanhados, ficaram vermelhos e cobertos de lágrimas. Tentou correr e chegar mais perto, entretanto os pais já estavam tentando reerguer o filhote que se debatia ao chão. Ele estava fraco, não conseguia apoiar as perninhas tão finas no mato. O garoto até tentou correr para amparar o coitadinho naquela triste cena de um dia muito ensolarado. Tentaria socorrê-lo para devolvê-lo ao ninho, mas…

Um piado ensurdecedor corta o canto dos outros pássaros e cala o pio dos pequenos. A poucos metros do neto do seu João, um gavião Carcará aparece e pousa numa galha da bilosca sem folhas. A envergadura de asas fazia medo até nos pombos maiores.

De longe, aquela ave de rapina percebera a melhor presa, um filhote estava em apuros devido à queda do ninho. Em segundos, o vôo rasante do animal assusta os outros passarinhos indefesos. E o bichinho desaparece do mato. Os pais, desesperados, voltam ao local, mas não o encontram. Longe na imensidão azul do céu, lá vai o Carcará com o filhote de Cambacica se debatendo nas suas garras afiadas…

E o menino? Ah, Tonico ficou tão traumatizado que nunca mais brincou de fazer alçapões na fazenda do avô. Para tentar se redimir da “culpa” do filhotinho não ter sobrevivido às garras do Carcará, ele criou uma entidade de proteção às aves na cidade onde mora…

Imagem de Aline Vieira por Pixabay.

Juliana Fernandes Gontijo é jornalista por formação e atriz. Apaixonada pela língua portuguesa e cultura de maneira geral, tem bastante preocupação com sustentabilidade e o destino do lixo produzido no planeta.