Qual a sua real preocupação com a produção diária de lixo? Por Juliana Fernandes Gontijo.

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Mudar a postura quanto ao destino do lixo é uma forma de colaborar com o bem-estar do planeta.

Em 2018, foram gerados 79 milhões de toneladas de resíduos sólidos (lixo de casa e o de limpeza urbana) pela população brasileira. Em matéria publicada na Agência Brasil, a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) também informa que esse número ainda pode chegar à marca de 100 milhões de toneladas até 2030.

Com o passar dos anos, a sustentabilidade e a educação ambiental foram assuntos que ficaram mais presentes nas escolas e no mundo corporativo. A partir daí, a necessidade da criação de uma consciência na redução do consumo e da reutilização de embalagens. No entanto, ainda falta um pouco de atenção com pequenas coisas que podem facilitar muito a vida dos coletores de limpeza urbana e dos catadores de materiais recicláveis. É que, infelizmente, tem sido muito comum a quantidade excessiva de embalagens em compras pela internet e aplicativos, algo que pôde ser mais observado em decorrência da pandemia.

Diante desse quadro, qualquer pessoa pode fazer ações para diminuir o lixo que vai para o caminhão. Há mais de 20 anos, minha família em casa, foi tomando essa postura. O resultado foi a redução de cerca de 70% do lixo que vai para coleta comum.

O bairro onde moro fica a 7 minutos de carro do centro de Belo Horizonte, capital mineira. Bairro que é considerado o mais populoso da cidade, com aproximadamente 65 mil habitantes, mas que não tem coleta seletiva semanal por meio de caminhão. Existiam apenas os Locais de Entrega Voluntária (LEVs) – que foram retirados durante a pandemia. Era nesse local que depositávamos grande parte do nosso lixo que pode ser reciclado. O relatório de gestão da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) – 2017 a 2020 -, publicado no site da prefeitura de BH, diz que a coleta seletiva está presente em 45 bairros da cidade, compreendendo 11% da população. Índice baixo para uma estimativa de 2.500.000 habitantes em 2021. Existe uma promessa de implantação da coleta seletiva para a toda Belo Horizonte até 2036.

Enquanto isso não chega, é possível qualquer pessoa fazer um pouquinho. É uma mudança de postura e pode ser feita em qualquer lugar do país.

Em casa, utilizamos um pendurador de vassouras com sacos plásticos: separamos papel, alumínio e plástico mole. Temos uma outra sacola( maior) para plásticos duros. À medida que vão enchendo as sacolas, temos um espaço para o armazenamento. Exceto papel, guardamos tudo lavado para não juntar insetos ou gerar mau cheiro. O que tem gordura lavamos com água da lavagem de louças. É claro que às vezes alguma coisa vai para o lixo comum, mas tomamos cuidado para isso não acontecer; não custa nada. Se você mora em apartamento, vai levando aos poucos a um container, ou deixa separado do lixo comum – o que já ajuda um catador de recicláveis.

Hoje, separamos as tampinhas de refrigerante e leite longa-vida para instituições que fazem castração de gatos e cães. A cada 150 mil, um animal é castrado.

Restos de papel com partes em branco, cortamos em tamanhos pequenos e servem para a anotação de recados; depois vão para a reciclagem. Trabalhei em duas empresas que tomavam estas medidas para economia de papel nos escritórios.

Rolinhos de papel higiênico e papel toalha agora servem de diversão para gerbos. Esses roedores picam o material dentro do viveiro ou brincam de passar por dentro dos rolos. E o tutor dos animais se encarrega de dar o devido fim ao produto que também vai para a reciclagem.

Toalhas velhas “viram” pano de limpar chão ou poeira dos móveis. Quando se rasgam muito, aí o destino é o lixo. Uma hora acaba, não é mesmo? O pano velho (picado) também pode virar enchimento de almofada ou retalho para tapete de patchwork.

Não acumule roupas velhas, sapatos e adereços que podem ser doados a famílias carentes ou, quando estão um pouco melhores, alguns brechós até compram.

Para as embalagens longa-vida, anteriormente, guardávamos lavadas e montadas para algum projeto sócio-cultural. No entanto, passaram a ocupar muito espaço, pela dificuldade em fazer a doação, assim resolvemos abri-las para facilitar o armazenamento. Tudo lavado. Levamos em cooperativa ou divulgamos em redes sociais e, se alguém precisa do material, pega em nossa casa. Essa armazenagem é de mais ou menos de 1 ano. Acreditamos que já deixamos de mandar para o lixo comum mais de 7 mil embalagens longa-vida em cerca de 20 anos.

O óleo de cozinha vira sabão caseiro de garrafa PET. Com receita simples, o sabão é produzido em cinco minutos, mas é preciso esperar uns 10 dias para secagem e “eliminação” da soda cáustica. Quem não pode fazer isso, é só procurar redes de supermercados ou postos de combustíveis que têm containers de armazenamento. Junte o óleo em garrafa PET ou de sabão líquido. Pergunte também no bairro por alguma senhorinha que faça sabão caseiro, sempre encontramos uma…

Para as pilhas e baterias, existem containers em supermercados também. Verifique na sua cidade se as agências do Banco Santander fazem esse tipo de recolhimento – como é feito em BH.

Levamos as lâmpadas queimadas para lojas de materiais de iluminação, pois elas são obrigadas a recebê-los.

Juntamos restos e cascas de frutas, verduras e legumes e jogamos nos canteiros no quintal. O ideal é compostagem, mas ainda não conseguimos fazê-la. No entanto, as plantinhas agradecem. Disso aí, já nasceram em casa pés de mexerica pokan, tomate, pimentão, alho, morango, goiaba, mamão, milho, feijão e vagem verde.

A água da máquina de lavar pode ser utilizada para lavar pano de chão, escada, calçada. Armazenamos a água de reuso em um cesto de plástico com capacidade para 120 litros.

Vidros quebrados vão para os LEVs. Quando são potes inteiros e com tampa, procuramos algum artesão para doarmos o material. Gente interessada é que não falta.

Reaproveitamos o entulho produzido em casa construindo bancos de alvenaria ou reforço de muros no quintal.

Sacolas e saquinhos de supermercados, se não estiverem rasgados, também podem ser reutilizados como sacos de lixo ou para guardar algum alimento na geladeira. Já fazíamos isso quando ainda existia o famoso leite pasteurizado “tipo” C há mais de 30 anos (que era vendido em saquinho de plástico).

Uma última dica, não menos importante: lugar do lixo é na lixeira e não nas ruas e avenidas. Tenha sempre dentro do carro uma sacolinha para guardar o lixo e não jogá-lo pela janela. Uma embalagem de bala ou chocolate pode ficar no bolso ou bolsa provisoriamente. Quando encontrar uma lixeira, descarte.

De nada adianta as empresas mudarem os canudos e copos do plástico para papel se a população ainda continuar jogando lixo no chão, nas praias. Isso é uma mudança de postura, questão de educação ambiental, algo que ajuda na saúde dos coletores de limpeza urbana e de recicláveis. E mais do que isso, o meio-ambiente agradece.

Imagem: da autora – sabão de óleo reciclado e armazenamento das embalagens longa vida.

Juliana Fernandes Gontijo é jornalista por formação e atriz. Apaixonada pela língua portuguesa e cultura de maneira geral, tem bastante preocupação com sustentabilidade e o destino do lixo produzido no planeta.