Qual a nossa realidade? Por Flávia Ferreira.

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Nós somos a civilização da imagem. Nós somos a civilização que estabeleceu um sinal de igual entre visível, real e verdadeiro. Só é real aquilo que está diante dos nossos olhos. (…) É como espetáculo que a nossa civilização funciona da economia à guerra e é como espetáculo que a imagem exerce sua tirania sobre nós. (BUCCI, 2007)

Os media intermedeiam grande parte das mudanças que ocorrem na sociedade e realizam a manutenção dos princípios dessas novas ordens que se instituem, sendo assim, tornam-se responsáveis por boa parte das referências socioculturais que a sociedade leva consigo. O jornalismo é capaz de instituir um local aos indivíduos deslocados na sociedade contemporânea através de um espaço de reconhecimento por meio de bens simbólicos, que ativam as memórias culturais e nos remetem às nossas identidades a um sentimento de pertencimento. Dessa forma, ele se sente parte do acontecimento, o qual é incluído nos meios de discussões informais diárias, formalizando um sistema simbólico que atua como estruturador e mantenedor da organização social, estipulando e reforçando atitudes e valores.

Sob essa lógica, a mídia auxilia na construção de uma dada realidade. Em seu Dicionário de Filosofia, Blackburn (1994) define a realidade como ‘aquilo que existe’, mas coloca a questão de se saber o que existe relacionada às dúvidas de caráter filosófico. Entre elas, se a realidade inclui a mente tal como a matéria, ou a matéria tal como a experiência. O conhecimento, por sua vez, refere-se às questões centrais como sua origem, o lugar da experiência e da razão, além de sua relação com a certeza e o erro.

Dentro dessa relação, a vida cotidiana apresenta-se, de acordo com Berger, Luckmann, como uma realidade interpretada pelos homens e subjetivamente dotada de sentido para eles na medida em que forma um mundo coerente. Basicamente, isso é feito pelos repórteres, cinegrafistas, fotógrafos, produtores, editores, enfim, por todos aqueles que modificam, de alguma forma, o resultado final da matéria na medida em que selecionam as informações e importam para essa sua carga cultural e toda sua subjetividade.

Segundo Cardoso (1994), devemos entender todo e qualquer processo de produção, organização e consumo de informação como social, já que ele acontece entre grupos, segmentos e classes. GÓMEZ (2002, p. 32) afirma que ‘[…] ações e discursos são relativos àquilo que interessa a um grupo de pessoas e que é diferente para cada grupo, já que é de seu interesse, o que está entre eles e os vincula de algum modo’.

É necessário reiterar que a mídia atua conforme as perspectivas de seu alvo, por isso todo produto jornalístico é feito em cima de um cálculo de impacto e retorno. Caso a sociedade altere suas concepções, a mídia se adaptará em prol de novas vontades/necessidades que surgem.

Não há como negar, portanto, que a mídia, da qual o jornalismo faz parte, é uma empresa movida pelos lucros, claro que isso não justifica fechar os olhos para os princípios deontológicos da profissão, mas adaptá-la a uma nova realidade que a informação do espetacular gera audiência e a exploração da mesma determina o balanço positivo para a máquina publicitária.

Alguns pensadores, no entanto, apontam que essa atitude dos media não é de todo ruim. Lipovetsky (2004) afirma que é a mídia quem permite a multiplicidade de olhares e a comparação entre outras épocas, lugares e ideais, o que favoreceria em escala global um uso mais intenso da razão individual. Seguindo essa linha, Goffman (1974, p.21) já sugeria que o próprio indivíduo é eficiente em organizar e dar sentido ao que acontece em sua volta, mesmo que a partir de questões particulares, desde que essa organização ocorra de modo que outras pessoas sejam capazes de entender e compartilhar.

Na pesquisa de mestrado de Josemari Poerschke e Quevedo e Eloisa Beling Loose, sobre a tragédia de Santa Catarina nas revistas Veja e Época, datada de 2009, elas afirmam que não há como negar que a mídia faz parte da nossa experiência e que ela participa do nosso viver, nos oferecendo mapas de entendimento para compreender o mundo do qual fazemos parte de algum modo. ‘Nesse sentido o jornalismo tem grande e preponderante importância na vida das pessoas, no que tange ao que elas apropriam como realidade’, explicam.

A partir dessa perspectiva construcionista do jornalismo, Traquina (2005) estabelece que as notícias ajudam a construir a realidade e, quando a fazem, utilizam-se de fórmulas e estratégias para noticiar fatos de grande repercussão, destacando aspectos que são enfatizados e repetidos até o esgotamento. Ou até surgirem matérias mais espetaculares ou mais violentas que exigem da mídia o mesmo tratamento.

Flávia Ferreira é jornalista pós-graduada em Gestão Estratégica da Comunicação. Com mais de 10 anos de atuação profissional, já navegou pelo terceiro setor, o setor público e o privado, sempre trazendo o viés social para o trabalho cotidiano, seja com comunicação corporativa, gestão de marcas ou reportagens de campo.