- Profissão? - Professor! Por Yvone Teixeira da Silva.

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O professor e o bode expiatório.

Qual a origem da tão conhecida expressão bode expiatório, que certamente algum dia todos já ouviram? Estaria o professor, hoje, se transformando no bode expiatório da sociedade?

O Levítico – livro da Bíblia que explicita os mandamentos e as leis que Deus mandou Moisés dar ao povo de Israel – em 16, 1-26 -, explica-nos a origem da expressão bode expiatório. Narra o autor do texto bíblico, que no denominado Dia da Expiação, para obter a expiação, ou perdão dos pecados, os antigos israelitas ofereciam – no Templo de Jerusalém – dois bodes para serem sacrificados. Um deles era oferecido em sacrifício; o outro – após a imposição das mãos pelo sacerdote, como forma de fazê-lo carregar todos os pecados cometidos pelo povo – era mandado para o deserto a fim de expiar os pecados do povo que lhe haviam sido impostos pelo sacerdote. Temos aí a origem da expressão bode expiatório.

Diariamente, nos últimos tempos, chegam-nos através de diferentes mídias, notícias muitas vezes estarrecedoras a respeito de atos de violência física e verbal que ocorrem hoje contra professores, nas escolas ou nas imediações destas, independentemente de serem públicas ou privadas, de Ensino Básico ou Superior. Estarrecidos, perguntamo-nos: – O que está acontecendo? – O que está por trás de tais atitudes tão nefastas? – O que impulsiona uma criança, adolescente ou jovem a levar a cabo uma ação violenta contra seus professores?

Poderíamos aventar inúmeras hipóteses de explicação, desde a violência presente na macrossociedade, refletida e se reproduzindo na microssociedade – no caso, a escola -, às enésimas dificuldades encontradas nos condicionamentos biológicos e naturais, históricos e sociais, emocionais, cognitivos… existentes em todos nós seres humanos, docentes e discentes.

Pesquisas mostram que o fator mais importante no contexto educacional é o professor. Daí surge outra pergunta: – Por que o Brasil se tornou um dos países onde o professor é menos respeitado no mundo – fato este também mensurado através de pesquisas recentes? – Por que a sociedade não valoriza o professor e muitas vezes sequer respeita seu trabalho?

Profissionais que há poucas décadas ocupavam posição de destaque na sociedade, sendo respeitados e admirados, hoje são desvalorizados. – O que estará ocorrendo? – Ou teria o professor, em seu dia a dia exposto às plateias de alunos dos mais diversos segmentos da educação, além daquela de seus pais ou responsáveis, dos superiores hierárquicos internos e externos à escola, de seus próprios pares… se tornado alvo da necessidade que sentimos, nós humanos, de livrar-nos dos nossos males depositando-os sobre as costas de outros? – Estariam os professores sendo transformados, nestes nossos dias, em bodes expiatórios? – Devem eles ser responsabilizados por todos os males que se apresentam na nossa sociedade?

Longe de mim sequer levantar uma hipótese de resposta. Assumo, sim, outro papel: o de fazer perguntas. E gostaria de arriscar uma suposição, também em forma de questionamento, que pode, inclusive, parecer simplista: – Nós, professores, temos tomado nas mãos a responsabilidade pela nossa imagem profissional e pessoal? Ou delegamos sempre a outros nossos sucessos e, principalmente, fracassos? – Por onde vamos começar o resgaste da nossa imagem, hoje tão aviltada, vilipendiada até?

Comecemos de onde estamos, fazendo tudo quanto estiver ao nosso alcance. Tenhamos em mente o tripé: sou, ainda-não-sou, posso vir-a-ser. Trabalhar-nos está ao nosso alcance. Talvez assumir a máxima socrática: ‘conhecer-nos a nós mesmos’, possa ajudar muito. Descobrir, conhecer, saber quem sou corresponde a trabalhar a nossa autoestima. – Poderíamos começar por aí? Certamente, sim! A nossa imagem é muito preciosa! Trabalhar a nossa imagem pessoal e profissional constitui um grande desafio. Apenas seremos valorizados pelos demais quando atribuirmos valor a nós mesmos, conhecendo e usufruindo das nossas competências e habilidades que certamente não são poucas. Seremos empoderados pelos demais – sejam eles os discentes, os responsáveis por eles, as autoridades hierárquicas ou os nossos pares -, isto é, pela sociedade em geral, apenas quando nós mesmos nos empoderarmos, apenas quando nós mesmos reconhecermos todo o nosso valor pessoal e profissional. Cabe a todas e todos, a cada uma e cada um de nós rejeitar, rechaçar, não assumir a função de bode expiatório da sociedade.

Profa. Yvone Maria de Campos Teixeira da Silva é mestre em Ciências da Religião pela PUC-SP e pedagoga, tendo atuado do Ensino Básico ao Superior – na direção de instituições, docência e assessoria. Hoje, atua como psicopedagoga clínica, assessora de imagem profissional, tradutora do francês, espanhol e italiano – com mais de cinquenta livros traduzidos.