OBSERVE-SE - Entrevista de emprego. Por Mariana Vieira.

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A sala ampla e higienizada tinha a metragem dos meus medos e o frio das minhas angústias.

A caneta prateada, pousada sobre a mesa de dimensões continentais, anunciava a minha morte financiada.

Ao fundo, flutuavam os olhos que inspecionavam os menores vestígios das minhas fraquezas, que, àquela altura, dialogavam com os soluços da minha carestia.

“Um talento que não lhe cabe”. Disseram.

“As suas ideias foram fartas”. Afirmaram.

“A caneta lhe obedece”. Confessaram.

“Mas, hoje, nobre candidato, preferimos as máquinas aos poetas. O trabalho não será mais seu”.

E assim, meu querido amigo, depois que os pássaros se fartarem do soro dos meus olhos, seguirei adiante.

Mas não agora, que preciso fazer uma canção triste sobre o vazio de uma existência inteira.

Mas não agora, que preciso salvar um insone da derrota.

Mas não agora, que preciso fazer as pazes comigo.

Mariana Vieira é escritora, poeta, artista plástica e advogada. Formou-se em Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF), atuando notadamente na defesa dos Direitos da Mulher. É autora do livro ‘Sinto muito, eu te amo – a poética dos afetos’, pela Autografia Editora.