O medo das mulheres de pensar sozinhas. Por Ana Paula Arendt.

Share Button

”A mulher será verdadeiramente igual ao homem no dia em que, para um cargo importante, designarem uma mulher incompetente”. Françoise Giroud (1916-2003), jornalista e política francesa.

Ainda temos no Brasil apenas cerca de 10% apenas de mulheres ocupando nominalmente, de jure e de facto, cargos de maior hierarquia decisória. Isso se aplica ao Senado, mas também aos cargos mais altos no Executivo e no Judiciário, no setor privado. Na Igreja Católica, isso talvez alcance 1%, ou menos. Eu já escrevi sobre isso, mas como essa situação ainda se verifica, é preciso seguir falando e variando a respeito, sondando as possíveis explicações e mecanismos causais que precisam ser abordados para atingir o que parece razoável e desejável a todos: que homens e mulheres, sendo metades razoavelmente proporcionais da população, a despeito de suas diferenças, também sejam revestidos em igual proporção de deveres, de reconhecimento público pelos seus trabalhos.

Comumente e em artigos anteriores já se falou neste espaço de uma sobrecarga doméstica, abordada pelo Relatório de Desenvolvimento Humano do PNUD em 2002 (‘Gender, work burden and time allocation’ – p. 238), embora não tenha essa informação sido esmiuçada em relatórios posteriores. Os organismos de desenvolvimento aparentemente incluíram a questão sob o corolário de outras ações mais genéricas a ser cobradas de instâncias estatais. Considere-se também que a atividade no espaço doméstico não deixa de ser um prolongamento da amamentação, uma particularidade feminina. O controle sobre esse espaço se confunde com a regência da mulher sobre a própria vida, de modo que pareceria pouco indicado tratar o tema como se homens e mulheres tivessem corpos e necessidades vitais iguais.

Tampouco parecem se limitar à esfera doméstica os fatores que interferem no crescimento pessoal de cada mulher, necessário para tomar decisões e expressar essa capacidade, a autonomia. Ainda que a mulher não abandone os seus deveres domésticos, imposições da vida ou auto-atribuídos, nada impede que decisões de natureza pública sejam trazidas para o ambiente no qual a mulher se sinta mais confortável, haja vista a que muitos homens abriram há tempos esse precedente. Reuniões ocorrem tarde da noite, decisões são tomadas nos clubes de golfe e em outros espaços sem problemas. Por que restringir atividades a horários e ambientes nos quais as mulheres tenham dificuldade em se mover?

Também sabemos pela experiência própria que as mulheres tendem a retrair-se mais rapidamente quando desaprovadas em público ou em qualquer ambiente; que se deixam mais frequentemente interromper quando detêm a palavra; sabemos ainda que somos ensinadas que o maior poder feminino constaria na dúvida manifesta, na sedução, sobretudo numa exuberante imagem física, e que os homens parecem julgar cansativas aquelas que busquem expressar-se e afirmar-se demasiado. Isso sabemos por estudos citados abundantemente.

Observemos também que mulheres falam pouco sozinhas, apenas consigo mesmas; estão sempre cercadas de companhia masculina ou de outras mulheres. Raras são aquelas que viajam sozinhas, e quando uma delas se atreve a fazê-lo e com isso morre, a notícia percorre o mundo rapidamente para que outras mulheres fiquem avisadas dos evidentes perigos de sair por aí desacompanhadas. As mulheres também pensam pouco sozinhas. Há um instinto permanente de buscar um homem ou alguém para endossar e certificar antes uma hipótese, jornal, revista, opinião, iniciativa, formato. Entre o discurso de igualdade e a realidade encontramos portanto um imenso hiato, pois apesar da lei garantir autonomia, liberdade de pensamento e de movimento, não constatamos todas as mulheres fazendo uso dessas prerrogativas na prática.

Seria natural, pois a parceria é pressuposto da preservação da espécie? Afinal, também os homens conduzem assim, buscando a aprovação de seus pares e do sexo oposto?

Por outro lado, a contradição : muitas mulheres cuidam exclusivamente sozinhas de si mesmas e do seu relacionamento com os filhos. Para isso não há necessidade de consulta prévia. Fato é que, na escola, as mulheres sofrem menos afrontamentos, enquanto os meninos são chamados muito cedo ao embate, ainda que discursivo, uns entre os outros, e também pelos homens de pouco maior hierarquia. Logo cedo descobrem o melhor valor da cooperação e se estabelecem as amizades, as quais se tornam uma segurança implícita à ação e à autonomia. Uma auto-defesa retraída da mulher, na média, produz menos oportunidades e interações e limitam os espaços nos quais se poderiam produzir os laços que vão construindo sua realidade de civilização. O subdesenvolvimento da auto-defesa também leva a sociedade a conclusões erradas: de que é mais simples e mais fácil despejar reclamações, críticas e retaliações sobre a escrivaninha de uma mulher, sem ser retaliado de volta. Portanto há de se recordar também uma sobrecarga invisível que se forma no ambiente profissional em que se insere a figura feminina, dadas as maiores expectativas de silêncio, concessão, aceitação e conciliação mediadora.

Uma declaração afirmativa de uma mulher é frequentemente colocada em dúvida; talvez por essa constatação anteciparia a mulher a necessidade de um endosso prévio, produzindo disso seu receio e de seu receio, o questionamento de si? Por que as mulheres têm medo de pensar sozinhas? Por que raramente lideram? O depoimento de um homem, por outro lado, é tomado prontamente como suficiente ; a busca do apoio virá depois, por meio do clamor silencioso dos laços. Há uma segurança implícita. Essa diferença é crucial : pois dar um passo e saber que irá contar com o apoio depois é uma coisa ; ter de obter antes apoio para dar um passo é outra coisa, demanda muito mais esforço.

E se a declaração feminina é eficaz por si mesma, se a mulher dá um passo antes de ter obtido endosso: encontram-se então os adjetivos negativos relacionados ao risco de um feminismo descontrolado, e logo o burburinho da imprudência… Supõe-se talvez a inércia de confrarias nas quais o homens juram diante de si os votos de fidelidade mútua, à Verdade, à opinião autêntica; cultura na qual o homem será exposto e a mulher deverá ocupar um lugar protegido. Nesses automatismos instintivos das engrenagens sociais, na qual se presume o homem mais virtuoso – e de fato, com frequência, são os homens mais virtuosos, porque aprenderam melhor a sê-lo – lideranças femininas vão sendo moídas na sua substância delicada; até que desencorajadas o suficiente, deem-se por vencidas e fiquem fora dos pleitos, já suficientemente competitivo entre os homens, subordinadas em tudo que pertença às esferas criadas por eles. Portanto há de se falar que há mulheres que se colocam nos espaços públicos, mas não encontrando lugar fértil ou respaldo, face a muitos entraves e oposições, enfrentam a tentação da desistência, sem o incentivo de ser alçadas, sem ver seus pleitos atendidos.

As feministas falam em patriarcado: nada disso, haveria sentido contraditório, pois os homens, por sua vez, os quais ocupam os lugares de autoridade, dão seus passos em parceria com as mulheres que se sentem confortáveis e valorizadas na sombra. Por que a opinião de uma mulher para um homem é valiosa, mas sobretudo quando ela não ocupa um cargo, apenas quando conta com a credencial de consulta de um homem? Por que louvar a expressão do poder indireto? Por outro lado, por que muitas mulheres reagem buscando destruir a voz feminina alheia, quando a voz feminina não é produzida desde um lugar inalcançável e hierarquicamente muito superior?

A força da história bíblica, de um registro sagrado sobre a realidade imanente, é inegável. Uma mulher em um cargo tomando iniciativas reflete a pretensão da vaidade inequivocamente fadada ao erro: o pecado de Eva. Moisés deixou uma lição latente no Gênesis: homens, não deixem que as mulheres lhes ponham rédeas nem as sigam cegamente, erro crasso para perder o paraíso… Com bom humor poderíamos ainda lembrar que a Bíblia é longa, e poucos são os que chegam aos livros seguintes ao Gênesis, às biografias das santas.

A figura feminina foi sendo contudo resgatada, paulatinamente, por mulheres que assumiram, ainda que sem muito protesto, seu papel coadjuvante, donde desenvolveram protagonismo e iniciativas nos livros de Judite, Ester, e de São Lucas. São mulheres que foram criando novos espaços nos quais poderiam elas próprias desenvolver sua proficiência.

A efígie de Maria-Mãe revela o máximo desnível : um dia ela será reconhecida, louvada e bendita entre as mulheres, porque em seu tempo, Maria era uma personagem dúbia: obediente, mas grávida antes do casamento. Para ela o pleito de um legado permanente, de diálogo puríssimo com força maior divina, com anjos, acima dos homens, era em seu tempo algo duvidoso.

E o Evangelho de Maria Madalena, apócrifo, registra mesmo hoje o pronto questionamento sobre o que é feito e escrito por mulheres, acerca da validade de descrever os estados da alma, da conjunção espiritual, de ser espelho da revelação divina. Há uma certa genialidade no texto atribuído a Maria Madalena em simplesmente ser uma mulher, na capacidade de anular-se completamente em um diálogo no qual o Outro a defenderá; ainda que o valor dessa missão à qual se arriscou, até o momento no qual escrevo, não seja ainda reconhecido pelas autoridades bíblicas. Por que seria menor, menos valiosa ou menos acurada a realidade mística, menos indispensável a beleza, a bondade? Um grande patrimônio da humanidade estará nesse texto a ela atribuído, hoje considerado apócrifo pois vindo de gnósticos. Consideremos a hipótese de que seja autêntico, que ali discorra a melhor aluna, a qual teve a humildade e a coragem de não incluir o endosso prévio de seus amigos em seus escritos, tendo preferido se expor igualmente. Um texto que propositalmente prescinde de respaldo e que assim se confessa nos leva a refletir : sempre existiram mulheres que pensam sozinhas. É um milagre que um texto tão antigo, com uma tomada de posição tão séria, a Maria Madalena atribuído, tenha sido preservado; e não me parece um luxo que no tempo certo tenha ressurgido.

Uma mulher se encontra, na verdade eu vos digo, em um ponto de tensão entre o racional e o anseio do espírito ; é chamada a moderar as inconsistências entre o pensamento e a vontade. E quando o fazem, valendo-se não apenas dos instrumentos determinados por um discurso objetivo reconhecível, nem restritas ao nicho no qual os homens buscam determinar que a mulher permaneça, nem traçando o percurso que já foi previamente preparado, têm suas pretensões diminuídas, sua hierarquia rebaixada. Esta é a experiência que vivi concretamente. Mas não é possível encontrar um encaminhamento satisfatório das questões que movem o mundo sem criar os próprios instrumentos, sem ultrapassar os restritos limites da classificação em nichos, sem criar novos trajetos e leituras. Há de se enxergar tanto quanto a força de um martírio, tanto quanto as iniciativas ousadas, também a força da delicadeza, as vias desbravadas por mãos femininas até o paraíso que almejamos…

Por que o Evangelho de Maria Madalena é colocado prontamente em dúvida, e não acolhido como um tesouro potencial, em cima do qual se poderia estudar e extrair solução a conflitos ainda irresolvidos? A Palavra registrada e observada desde a visão feminina não traz o mesmo valor e potencial da palavra registrada e observada desde a visão masculina, tendo sido dita pelo mesmo Autor ? Como justificar então o traço irrefutável de que ambos são gêneros do ‘homem’, criados à mesma imagem e semelhança divina? Os Ensinamentos nos Evangelhos e livros reconhecidos, que marcam a história da vida e depois de Cristo, também nos convidam a observar que uma mulher não precisa cumprir com seus deveres domésticos, nem se tornar fluente em qualquer capacidade, antes de se lançar a infinitas empreitadas; que seus chamados de desespero devem receber pronta atenção divina, para que seja salvaguardado o equilíbrio das coisas. As cenas de Maria Madalena com Marta e Lázaro, e demais mulheres, suas posturas e ‘timing’ seguem relegadas a eventos de menor importância teológica, mas abrem um universo no qual as mulheres têm capacidade de desenvolver e de produzir novas observações sobre a vida e seu cerne, sobre o espírito, sobre o mundo e o tempo; no qual as mulheres são as mais próximas colaboradoras de quem personifica o centro e os valores da civilização cristã e ocidental.

Temos hoje a situação de que apenas pela materialidade e maternidade necessária para que nasça o Filho do Homem, como um quesito do qual não se pode prescindir para existir e se reproduzir, ou apenas garantindo-se a devoção por meio da castidade, abre-se a porta para ouvir a sério a voz feminina; e apenas uma vez assegurado que a mulher não virá a reivindicar posição hierárquica atribuída por si mesma, é que a palavra da mulher pode ser resgatada e ouvida como um discurso de autoridade, de uma ressonada sanidade mental; quando dispõe sobre a beleza da vida e sobre os mistérios do mundo; quando se resigna às restrições e deixa de indagar nominalmente sobre as razões das dificuldades em ser igualmente aceita. Após longo silêncio nas cavernas de um texto rapidamente rotulado de apócrifo, talvez nos faltasse, em uma cultura judaico-cristã, perquirir maior valor em um ensinamento que possa ter sido legado pela melhor aluna da Cristo, por mulheres de erudição que lhe acompanhavam de perto… Comento, tempo propício de cessar as limitações herdadas nos discursos em que a proposição e registro intelectual por um viés feminino soa elemento lateral, tentativa duvidosa, ou vergonhoso acréscimo.

O que falta para que as mulheres sejam lidas por seu próprio valor, pela realidade que vivenciam, e não indiretamente pela autoridade do homem que as credencie, endosse? O que falta para que os homens recebam postulações femininas de um modo neutro, para valorizá-las e preservá-las? E para que autoras busquem equivalências e espaços próprios, templos e tempos nos quais possam cultivar seus espíritos, para alcançar uma vida igualmente profícua, eterna e satisfatória? Onde encontrar o sentimento de solidariedade para caminhar lado a lado aos homens? Faço estas indagações porque o caminho alternativo, da admiração masculina à mãe, à musa, ou à virgem, é perverso: coloca o homem um passo à frente para receber primeiro as tribulações e encargos da vida, alimenta a vaidade feminina e atrofia o espírito, amarrando mulheres ao mundo material, condenando-as à angustiante incerteza sobre o destino masculino. Não que a mulher disponha de menor força física ou muscular numa esfera material: como certa vez me recordou um filho meu, suportar um parto normal é algo para o qual ele supõe um homem não teria forças físicas. Mas sobretudo porque o desenvolvimento do estado de espírito da mulher, uma ciência que lhe perfaça em todas as suas conexões e correlações que cria, e que não lhe reduza, parece-me indispensável para uma sociedade saudável ; porque é avançando no plano das ideias, ascendendo o espírito em generosidade, que as mulheres poderão se atribuir dignidade no instante em que vivem.

As mulheres podem perfeitamente colocar-se no mesmo nível, recusar o disfarce, pensar sozinhas, ter coragem; cultivar virtudes. Muitas o fizeram. Sacrifícios e arbitrariedades virão do mesmo modo. E a justificativa de reivindicar respeito à voz e visão feminina não poderia ser melhor: a necessidade de proteger igualmente a sensibilidade, segurança e bem-estar dos homens. Sem mais satisfações.

Neste mês deixo uma tradução de escritos da excelente poeta egípcia, Céline Axelos (1902-1992), mencionada na coluna anterior, francófona. Uma mulher que se viu forçada a pensar sozinha, pois teve seu filho subtraído aos três anos de idade pelo pai, o qual, não aceitando o divórcio, abandonou não apenas o lar e seu país, como também o seu filho em um pensionato nos EUA. Conforme os registros disponíveis, após circular por vários orfanatos, recusando a se conformar com o apuro, tiveram mãe e filho a alegria do reencontro permanente. Durante quinze anos intermináveis, ela dedicou-se a tecer versos e histórias nas quais parecia encontrar alento e os recursos para lidar com uma vida difícil, tendo deixado um legado de obras à família. Reconhecida e benquista pela sua cidade, Alexandria, como ‘uma Mulher de Letras’… Felizmente não se afogou! O encontro místico com o divino e o diálogo com a natureza em seus elementos vivos transmitem o profundo sofrimento que vivenciou. A acolhida carinhosa de seus versos pelos egípcios me fascina, assistir à Justiça em sua vida me consola, e o encontro com seus versos me estremece. Boa leitura!

Do livro ‘As duas capelas’, a dedicatória:

A todos e a todas,
dedico alguns poemas
escritos sob a tormenta,
por amor
à Beleza e à Bondade.

Céline Axelos

A Voz

Me disseste: ‘Canta mais, mesmo as portas fechadas,
Os templos destruídos, o trigo que demore.
Criança, canta o Amor, canta as rosas desabrochadas;
O Amor é imortal, a rosa reflore’.

E eu me vou, carregando no fundo de meu peito
A chama da esperança e o chamado da primavera;
O ostensório de minh’alma divina imperfeito
É feito de argila viva entre as mãos das Eras.

De início contrária ao vento, veste cabeça altiva,
A palmeira, ao entardecer, suplica aos céus.
À mais sombria das noites clamando a luz votiva,
Como a palmeira ao vento, eu clamarei meu Deus!

Os ciprestes escuros

Os grandes ciprestes são escuros e o lago, violeta.
Eu caminhei carregando meu coração em apuro até à alba.
Os grandes ciprestes são escuros e o lago, violeta.
A lua de cabelos longos desliza nas dobras de sua cauda.

A lua de longos cabelos desliza nas dobras de sua cauda,
Uma estrela chorou caudalosamente pela noite o apuro,
Tua lembrança se estendeu até à sombra desta calda;
Um lago violeta, sob grandes ciprestes escuros.

Um salgueiro trêmulo murmura uma prece.
Uma estrela chorou caudalosamente pela noite o apuro.
Tua Lembrança em mim, quando sob a vaga luz cresce,
Fica assim, como o lago, sob grandes ciprestes escuros.

Céline Axelos

* Tradução de Ana Paula Arendt, poeta e diplomata brasileira – escreve mensalmente a coluna ‘Terra à Vista’.

Ressalva: os trabalhos sob o pseudônimo Ana Paula Arendt pertencem ao universo literário, refletem ideias e iniciativas da autora e não necessariamente posições oficiais do Governo brasileiro. Estes trabalhos literários buscam estar em consonância com os valores e princípios da Política Externa Brasileira relacionados ao diálogo, à dignidade humana, ao desenvolvimento e aos direitos fundamentais do indivíduo. A autora está sempre aberta a sugestões e críticas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *