O caso da cobra no pote. Por Juliana Fernandes Gontijo.

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Minha bisavó, Nita, e meu bisavô, Zé, moraram em um pequeno distrito carinhosamente chamado de “Salgado” no interior de Minas Gerais por volta de década de 1930. Eu sempre os chamei de vó e vô – mesmo sem eu conhecê-lo. Sim, quando vô Zé partiu “dessa para melhor”, eu ainda não havia nascido.

A casa deles era um pouco escura e, mesmo com as paredes pintadas com cal, a iluminação só era boa mesmo se o “Sol estivesse raiando” como dizia a minha vó Nita. Quando chovia, não havia outro jeito a não ser acender o lampião.

Meu vô era lavrador, na época, chamado de colono de terra. Ele possuía um terreno onde plantava arroz, feijão, batata e vendia a colheita aos armazéns da região. Às vezes, viajava por alguns dias a fim de negociar a colheita com produtores de cidades vizinhas. Então vovó Nita ficava sozinha com a única filha, vó Terezinha, que era ainda menina.

Vó Nita era costureira “de mão cheia” como diz o povo do interior e viveu até 91 anos. Costurou por muito tempo; meu pai aprendeu muita “coisa” com ela.

Alguns fregueses, porém, não pagavam pelo serviço da costura. Assim ficava na base da troca, um terno por um corte de carne; um vestido por uma galinha caipira e assim levavam a vida. Quando meu vô ficava fora da cidade, ela aproveitava para organizar suas costuras e, às vezes, nem dormia à noite para atender bem uma freguesa. Na manhã seguinte, claro, estava bem cansada.

Um dia, levantou um pouco sonolenta, após uma noite mal dormida e foi preparar o café para ela e vó Terezinha. O dia ainda parecia noite, bem nublado. A casa estava mais escura, ela então precisava da luz do lampião para enxergar os mantimentos na despensa. Ao pegar mais pó na prateleira, viu algo estranho em um pote de vidro; a coloração era bem escura. Chegou mais perto e viu uma cobra enorme dentro do pote. Deu um pulo para trás que quase caiu da cadeira. Ela não poderia assustar a menina que ainda dormia:

“Só pode ser uma cobra dentro do vidro. Pelo amor de Deus, e a Terezinha? Cadê o Zé que não me aparece!” Ela tremeu feito “vara verde”, mas procurou não deixar a filha perceber e muito menos iria permitir que Terezinha entrasse na despensa a partir daquele dia. Começou a fazer uma novena e incluiu a reza: “São Bento, água benta. Jesus Cristo no altar, arreda cobra, afasta bicho, deixa filho de Deus passar”.

Tratou logo de pegar, dentro da despensa, tudo o que poderia precisar para uns dois dias pelo menos. Ela estava “morrendo de medo de a cobra armar o bote”. Nem percebeu se o pote estava tampado. E o cheiro no cômodo já não era mais agradável.

“Como é que essa cobra foi parar lá dentro?” – Pensava vó Nita. – “A despensa só fica fechada e o Zé arrumou a porta! Meu Deus! Acho que vi o bicho até mexeno…” – pensava minha vó.

Meu vô chegou dois dias depois, ao anoitecer. Estava feliz da vida porque conseguiu fechar um bom negócio com a produção de feijão daquele ano. No entanto, minha vó cortou a alegria dele. Ele mal chegou e ela foi logo dizendo:

– Ô Zé, tem uma cobra dentro de um vidro lá na despensa. Pelo amor de Deus! Coloquei até a trava na porta e nem deixo a Terezinha passar perto.

Meu vô tomou aquele susto. Como seria possível uma cobra na despensa? No entanto, a região era bem famosa pelas jararacas mais escuras que rondavam os quintais das casas do “Salgado”… Era muito perigo que a mulher e a filha estavam correndo.

– Num é possível, Nita! Deixou a porta aberta?

– Deixei não, Zé! Corre lá e mata já!

– Ô Nita, vô ali no riberão tomá um banho e assim que eu terminá, vamo lá matar essa cobra. – Meu bisavô Zé era um senhor bem tranquilo diferente da minha vó Nita, que era um pouco agitada.

Ao terminar o banho, catou a espingarda e foi para a despensa, já pensando em ter que abrir a porta com o maior cuidado, retirar tudo da prateleira a fim de encontrar o bichano escondido em outro lugar.

Entraram na despensa. Ele olhou o vidro e não encontrou a cara da cobra. Era muito mal cheiro para um lugar só. Afastou-se chegando perto da porta, puxou minha vó pelo braço.

– Ô Zé, eu coloquei uma trava do lado de fora da janela p’ra não corrê risco da cobra saí. Eu já num sabia mais o que fazê, se ocê num chegasse e…

– Pá! Pá! Pá! – Foram três tiros no vidro! Um baita de um estouro. O vizinho do lado até correu para saber do acontecido. Mas em vez de esparramar sangue e escama de cobra, esparramou foi gordura e vários pedaços de linguiça de porco. Vó Nita não sabia onde enfiar a cara de tanta vergonha do meu vô e do vizinho. Os dois estavam com as roupas bastante sujas de gordura e vó Terezinha olhava e ria do tanto de linguiça e gordura espalhada por todo canto da despensa.

– Sai pra lá, fía! Vamo limpá essa bagunça que sua mãe arrumou!

– Eu num acredito, Nita! Como é que ocê fez uma coisa dessa? Essa era linguiça que o João da Maria deu p’ra nóis, da melhor qualidade!

– Socorro, Jesus! Como eu me esqueci disso?

– Nem tem desculpa, Nita. Custou muitos contos de réis! Ondé que cê tava com a cabeça? E agora essa sujeira aqui! Ah, mas ocê limpá vai tudo! Ah, se vai…

– Ô Zé, foi muito trabalho nas suas viagem. Botei a linguiça no pote há umas duas semanas e esqueci de tampá, porque num deu tempo de cozinhá pro armoço. Acho que a cabeça num tá boa não…

– Num tá mes não, Nita!

Ela contava que o difícil foi limpar aquilo tudo cheio de gordura, misturado com vidro. Felizmente eles não se machucaram com os estilhaços. Durante muito tempo, os três e a vizinhança deram gargalhada do caso da “cobra” no vidro. Vô Zé até relevou o esquecimento da minha vó, mas ela dizia que, no dia, ele xingou demais.

Fico pensando “cá com os meus botões”: deve ter sido uma piada o pote se espatifando e “voando” gordura, pedaço de linguiça e vidro na pequena despensa lá da casa do Salgado…

Como eu gostaria de ter conhecido meu vô Zé. Meu pai e meus tios dizem que ele era um grande homem! E as minhas vós (Nita e Terezinha) eram duas mulheres incríveis! Saudade delas! Saudade de um tempo que não volta mais…

Juliana Fernandes Gontijo é jornalista por formação e atriz. Apaixonada pela língua portuguesa e cultura de maneira geral, tem bastante preocupação com sustentabilidade e o destino do lixo produzido no planeta.