NOVO COLUNISTA - Rafael Aleixo - Grazi & Moby: cachorros não precisam de 'ESG'.

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Passados alguns meses do início da pandemia, quando o mundo percebeu a gravidade dos impactos causados pela Covid-19, muito se questionou se nos tornaríamos pessoas melhores depois de um período tão difícil para a humanidade. Neste momento de reflexão da sociedade, a adoção dos critérios ESG (do inglês Environmental, Social and Governance) ganhava ainda mais força nas empresas.

Assuntos relacionados à saúde mental, modelos de trabalho, diversidade, respeito ao meio ambiente e postura ética das companhias tornaram-se mandatórios. A possibilidade de home office se tornou uma realidade, o que me permitiu estar em contato com a natureza durante o isolamento. Esta conexão reforçou o quanto podemos – e precisamos – aprender com os animais, sobretudo se quisermos, de fato, ser pessoas melhores.

Durante esse período de isolamento, tive contato com alguns animais, dentre os quais a Grazi e o Moby.

Grazi tem 16 anos, é um Pastor Belga Malinois, a raça considerada “Ferrari dos cães”. Mesmo nascida em uma família premiada, em razão da idade, ela já não tem mais a energia de antes.

Moby – nome dado em homenagem ao músico e ativista dos direitos dos animais – é um vira-lata de 11 meses que invadiu a fazenda e literalmente nos adotou. Provavelmente, nasceu nas ruas ou foi abandonado muito cedo. Ao descobrir o amor, retribuiu em dobro e com imensa gratidão.

A diferença entre eles é de toda natureza: idade, personalidade, origem, oportunidades. Nada disso, porém, atrapalhou a imediata amizade. Ao contrário.

Grazi adotou Moby acolhendo-o da melhor forma possível e, desde os primeiros dias de sua chegada, está nitidamente mais feliz, mais animada. Naturalmente, quando brincam, ela não tem o mesmo pique para acompanhá-lo – mas nem liga para isso. Grazi não quer competir.

A serenidade da Grazi é algo quase inabalável. Nem mesmo as brincadeiras excessivas de Moby – típicas da idade – a tiram do sério. Quando chove forte, percebe que ele está com medo e aproxima o seu corpo ao dele para acalmá-lo.

Grazi e Moby se complementam: ela traz serenidade, segurança, enquanto ele desperta alegria e entusiasmo. Os dois, juntos, certamente são melhores e, sobretudo, tornam um ao outro melhores.

Por outro lado, nós, seres racionais, somos especialistas em “pinçar” limitações – ainda que imersas num caldeirão com inúmeras qualidades – e achar diferenças que acabam nos separando.

Em um paralelo com o mundo corporativo, Grazi certamente já não teria mais oportunidade no mercado (por que não?). Moby teria dificuldades pela falta de experiência e deficiências na formação por falta de oportunidade.

Paradoxalmente, muitas empresas, alinhadas com os critérios ESG, buscam os valores que os dois possuem: gratidão, lealdade, respeito pelas pessoas, ao meio ambiente e à ética (cães não abanam o rabo e depois mordem pelas costas).

Somos capazes de feitos extraordinários, mas engatinhamos em temas absolutamente elementares. Ainda fazemos guerras estúpidas, discriminamos semelhantes por orientação sexual e religiosa, gênero, idade e etnia. Os animais, por outro lado, não são capazes de produzir vacinas, mas nos ensinam muito sobre amor, respeito e tolerância ao diferente. Na verdade, nós que criamos as diferenças.

Rafael Aleixo é advogado, pós-graduado em Direito Ambiental pela PUC/RJ, LL.M. em Direito Empresarial pela FGV e pós-graduado em meio ambiente pela COPPE/UFRJ.