NOVA COLUNISTA: Viviane Cupello - Há filosofia na 'escola da pandemia'?

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Reflexões educacionais e sócio-humanas no isolamento.

Os muros escolares foram ‘derrubados’ com a pandemia. As escolas ‘entraram em casa’ e todos nós tivemos que aprender a lidar com tamanha mudança na rotina.

Quando me dei conta, havia uma instituição ‘sentada’ no meu sofá, ditando algumas regras escolares dentro do meu lar.

‘Ah, tudo bem, eu sou da área’. Mas, todos vocês são?

Não, claro que não! E muitas intercorrências aconteceram desde que decretos pararam com as aulas presenciais e iniciou-se um afastamento físico-social, trazendo uma rotina extra para nossas casas.

Além de todo home office, porque nós também temos nossos afazeres profissionais, as tarefas domésticas foram deixando de ser terceirizadas para que mais atividades fossem absorvidas pela família. E aqueles super-avós – que sempre foram parceiros na divisão das tarefas com as crianças -, fazem parte do grupo de risco do novo vírus e, por amor e pela saúde, necessitaram afastar-se de seus netos.

Como a vida não dá um stop para ninguém, professores se reinventam todos os dias, buscando alcançar seus alunos de forma eficiente, prazerosa e dinâmica (a vocês, queridos colegas docentes, meus parabéns pelo empenho diário e muitas palmas de gratidão), e os pais buscam manter a parceria necessária para o sucesso da aprendizagem das crianças, se desdobrando para darem conta de tanta novidade. Aulas on-line, suporte técnico de informática, divisão das ferramentas tecnológicas para que seus filhos estudem, acompanhamento das tarefas escolares e deveres de casa, estudo com as crianças, aplicação de avaliações.

Opa! Espere, aí! Avaliações?

É… a vida não dá nem para a necessidade de acompanhar o rendimento e o desenvolvimento cognitivo dos alunos, mesmo em tempos não presenciais. Neste momento crítico, eu me pergunto, diariamente, quais seriam as competências e as habilidades específicas a serem elencadas em um processo avaliativo.

Em meio à crise mundial, o mundo muda, a sociedade se reinventa, e as pessoas se transformam. Quem já não leu ou ouviu Paulo Freire defendendo que ‘a educação não transforma o mundo; a educação muda as pessoas; pessoas transformam o mundo’?

Estamos em mudança interna e externa, individual e coletiva. Há dúvidas de que haverá transformação mundial? Sem entrar no mérito tecnológico, pois esse é evidente para a reinvenção da escolarização, refiro-me ao desenvolvimento humano. Refiro-me à humanização.

Recorri, então, à filosofia para tentar elucidar minhas defesas à evolução de forma crítica, social e humana.

Aristóteles defendia que toda atitude filosófica surgia da experiência de estranhamento da realidade e que essa investigação filosófica gerava perda de referências, de crenças e de opiniões, fazendo nascer o questionamento. A espontaneidade e a criatividade seriam a base para contestar a conserva cultural cristalizada. E, para a filosofia, para que se tenha esse espanto e questionamento da realidade a fim de investigar as dificuldades, seriam imprescindíveis a coragem e a sensibilidade.

O racionalismo de Sócrates defendia a busca pelo desenvolvimento de um ser humano pensativo, crítico, argumentativo e criador de hipóteses. Para Platão, discípulo de Sócrates, o bem seria absoluto e universal, cuja contemplação seria oferecida a partir da razão. Só ela seria capaz de dar sentido às coisas. Portanto, esse seria o caminho para o indivíduo pensar para o bem, para o ideal, para a justiça (com igualdade de condições educacionais para todos), para a meritocracia (a partir da igualdade de condições iniciais), seguindo nessa meta. O indivíduo estaria vivendo sob suas sombras, crenças e preconceitos, preso à ignorância, desconhecendo a oportunidade de que a sabedoria seria capaz de revelar da verdade.

Sair desse mundinho aprisionado, ou seja, de sua ‘caverna’, o faria compreender as formas do mundo real, possibilitando-o a orientar os outros com os conhecimentos racionais da verdade, e aplicá-lo para a coletividade, iniciando, assim, o processo de ascensão ao conhecimento. E esse estaria em cada um de nós, devendo haver orientações de conduta.

Descartes defendia que a própria dúvida poderia ser um caminho para a verdade fundamental, exteriorizada em sua conhecida citação ‘Penso, logo, existo’. Defensor do racionalismo de Platão, promovia a razão como fundamento do conhecimento proveniente do sujeito, contrapondo ao empirismo defendido por Aristóteles, com afirmações defendidas por Locke, explicitada em sua citação de que ‘não há conhecimento que não tenha passado pelos sentidos’.

Todo conhecimento adviria da experiência, partindo da percepção sensível dos objetos, mas limitando-se a ela, surgindo, assim, um sujeito racional, autônomo e livre.

Por princípio, Kant articulava as duas correntes anteriores em seu projeto crítico, investigando o ‘nosso modo de conhecer’. Para ele, há verdade a ser descoberta e o indivíduo deveria se reconhecer como racional e responsável pelo que faz. O conhecimento se formaria pela contribuição da razão, da experiência ou das intuições sensíveis, investigando a capacidade de pensamento para entender a mente humana. É defensor do imperativo categórico, que tem como base o dever e o cumprimento das regras, mas com pensamento crítico e estratégias. A autonomia do ser humano e o esclarecimento lhes daria liberdade, sabendo, o indivíduo, a partir dessa liberdade, o que quer fazer, o que pode fazer, refletindo se deve fazer. Esse caminho seguiria a ética formal, passando pela racionalização do instinto para viver, eticamente, seus direitos e deveres. Esse esclarecimento promoveria a autonomia, perpassando pelo conceito da maioridade (‘o esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade da qual ele próprio é culpado’), onde a preguiça e a covardia não são mais impedimentos para direcionar-se na vida, tendo, o indivíduo, capacidade e habilidade para a tomada de decisões e coragem para tais ações, sem necessitar, pois, da direção de outrem. Ele teria autonomia para responder pelas suas próprias funções em direção a uma sociedade justa e igualitária, objetivando um mundo melhor. Quando o sujeito entende que sua ação individual corresponde ao dever quando dá liberdade ao exercício de todos, então, seguindo Kant, ela pode ser exercida. A ética de Kant segue esse princípio como universalização da ação. Ainda segundo suas defesas, o uso dessa razão poderia ser privada (quando exercida em um cargo ou função profissional), cumprindo normas e ordens estabelecidas, ou na razão pública, com direitos e deveres de pensar e propor como ser humano, cidadão e profissional. Segundo Kant, é usar a razão privada para cumprir regras e a razão pública para o coletivo, propondo ideias.

Mas, afinal, o que realmente faz e traz sentido à vida?

Para os filósofos da vontade, como Schopenhauer, por exemplo, que contestava as visões kantianas, a ‘verdadeira natureza’, a essência do mundo, seria a vontade cega e irracional, surgida da experiência direta do corpo. O ser humano não seria racional, pois era movido pela sua vontade. Então, essa vontade se manifestaria e atingiria o que quisesse, estando a razão não governando efetivamente os atos do indivíduo, mas apenas fazendo parte de seu processo deliberativo. A razão seria apenas instrumento da vontade, dos instintos, reduzida como um recurso para realizarmos nossas necessidades básicas de segurança e bem-estar. Esse filósofo recusaria a ideia racional e desconstruiria os pilares da modernidade em seu fundamento de finalidade e ordem. Ainda em defesa, o ser humano supõe que é racional, autônomo e livre, mas sua vontade é que rege suas condutas. Por meio dessa visão, não existe livre-arbítrio, pois a razão demonstra as consequências dos desejos. O ser humano é entendido como um ser fundamentalmente emocional, afetivo e instintivo, movido por seus desejos inconscientes. Caberia ao indivíduo, nesta perspectiva, a autogestão de suas emoções, a tarefa de gerir as ansiedades, os sonhos e as frustrações, não tratando o ‘ser humano’ como um ser estritamente racional, que segue ordens e procedimentos. Schopenhauer defendia, como fundamento ético, a compaixão, que adviria de uma visão intuitiva, sendo a nossa existência marcada pelo sofrimento.

Para ele, haveria um significado moral no mundo pela compaixão e ser ético implicaria em ser sensível, solidário e cooperativo, sendo empático com a coletividade.

O indivíduo teria um conhecimento intuitivo à realidade fundamental, baseado na experiência estética, não sendo mais o método científico o único responsável pelo conhecimento superior. A arte estaria, então, sendo vista como a principal fonte renovadora do olhar sobre a vida e o cotidiano.

Outro filósofo da vontade, Nietzsche, trazia à luz da reflexão a suspeita dos valores morais da sociedade, defendendo a vontade como atitude criativa, com sentido e significado existencial. Ele parte do niilismo e da crise de valores, cuja modernidade havia destituída a ideia dos deuses, substituindo-as pela ética, pela ciência, pela justiça e pelo progresso (já defendidos anteriormente por Sócrates e Platão). Esse niilismo evidenciaria uma vida sem sentido, desnorteada, sem esperança, desencantada, ausente de propósito, com redução ao nada. Nessa linha, a transvaloração (dos valores) daria sentido real à vida. O indivíduo promovia, então, a vontade de poder através da positivação alegre, da criatividade da vida em realização, de fazer conquistas com significado existencial, de sair da mecanização e da reprodução sem valores, afastando-se do conceito de uma ‘cultura de massa’. Ele deveria enfrentar o fato de que, sozinho, precisaria assumir escolhas e estar apto para a vida, afirmando seu posicionamento perante ela. Haveria, então, suma importância à superação pelo enfrentamento do sofrimento, provocados em momentos de crise e angústia.

Produzindo afirmativamente seus valores, a virtude do indivíduo estaria atrelada à capacidade de superação pelo enfrentamento do sofrimento, alcançando resiliência na constante reinvenção de si mesmo, demonstrando criação diante da crise.

Até aqui, pude notar a verdadeira função social que a escola tem, buscando aliar a prática à teoria, propondo, diariamente, a experimentação e a ciência à luz da busca pela razão e pelo conhecimento, perpassando pelos valores humanos, pela ética e pelos sentidos, tendo o indivíduo, por meio de sua autonomia e pensamento crítico, a capacidade de enfrentar crises e de se recriar com resiliência.

Hoje, mais do que evidente, a aliança entre todas as áreas do conhecimento se faz extremamente necessária para que a educação seja plena e efetiva e para a vida, promovendo o desenvolvimento de todos que compõem a estrutura escolar e, consequentemente, a social.

E, então, toda essa proposta trouxe uma ‘filosofia pandêmica’ para você?

Viviane Cupello é amante da Educação, das Artes e de pessoas; é professora e pedagoga, especialista em Gestão Escolar e em formação na Gestão de Pessoas. Estudou teatro, sempre foi apaixonada pela escrita, escreve poemas no canal ‘Poetizei Poetizamos’ e tem como um dos propósitos de vida o trabalho social. Atua na Educação há 20 anos, é alfabetizadora, lecionou em turmas a Educação Infantil e Ensino Fundamental I, coordenou o turno Integral e ministrou cursos de Escolarização, Atualização e de Formação para adultos. Fundadora da CAPAS – Ações para Educação, acredita no desenvolvimento humano por meio da educação.