NOVA COLUNISTA: Flávia Ferreira - Sociedade exposta, um novo ambiente de vida na era digital.

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As redes sociais mudaram a forma como nos relacionamos com o mundo e com nós mesmos, colocando como mais importante a forma como somos vistos do que como nos vemos. A busca incessante por likes, seguidores e por uma aprovação neste meio transformou a nossa sociedade em uma ambiente de aparência.

Uma reportagem do El país, produzida em outubro de 2017, já lançava o alerta de que as pessoas estavam modificando a sua essência para parecer algo que fosse aprovado pela maioria, transformando a publicação em algo necessário. Em ‘Hooked: how to build habbit-forming products’ (Penguin, 2014), o professor Nir Eyal explica que os aplicativos de sucesso criam uma ‘rotina persistente’, algo que é vivido diariamente de forma imperceptível. Desta forma, a exposição da vida íntima se tornou norma e o alcance da mesma um dispositivo para a liberação da dopamina, mas também de certa ansiedade à espera de mais.

Tal espera também pode ser nomeada de FoMO (Fear of Missing Out) e afeta milhares de pessoas no mundo todo. Ela representa um sentimento de que deveríamos estar vivendo, sentindo ou tendo algo que não temos, não estamos vivendo ou sentindo. Isto não foi algo desenvolvido pela rede social, mas agravado por ela na medida em que o acesso à informação foi ampliado. Não são raros os casos em que pessoas deixam de viver a própria realidade para consumir a vida de celebridades e influenciadores digitais. As pessoas que sofrem com essa síndrome apresentam aspectos como ansiedade, frustração, baixa autoestima e até depressão.

O fato é que vivemos em uma sociedade exposta, como diria o professor e ensaísta Bernard E. Harcourt, onde as pessoas querem ser espiadas e se transformaram em voyeurs, criando um novo tipo de fama, no qual o único talento é a exposição insistente. Como não lembrar do famoso caso da modelo Shudu, a qual simplesmente não existe na vida real e ganhou fama por ser alguém ‘sem defeitos’? O que ninguém esperava era descobrir que a influenciadora não era real, mas uma criação gerada por computador do fotógrafo britânico Cameron-James Wilson. Nesta linha também temos a ‘it girl fictícia’ Miquela, uma jovem com sardas, lábios carnudos e cabelos escuros, que começou a carreira no Instagram postando fotos com roupas de marcas caras, como Prada e Chanel, e agora já lançou um single, ‘Not mine’, que se tornou um dos mais tocados no serviço de streaming de música Spotify.

O que a fama de dois perfis criados para serem perfeitos fala sobre a nossa sociedade e sobre nós mesmos? Deixo claro que não estou tratando das habilidades artísticas de seus criadores, que são indiscutíveis, e nem das intenções quando as criaram, mas do impacto desses usuários em nossas vidas. Chegamos ao ponto de dar credibilidade à postagem de produtos e serviços por influenciadores, mesmo sabendo que grande parte é anúncio publicitário (direto ou indireto), e de menosprezar a própria vida em detrimento da fama obtida na rede.

Se você acha que estou exagerando, uma pesquisa feita pela Instituição de Saúde Pública do Reino Unido, Royal Society for Public Health, em parceria com Movimento de Saúde Jovem, avaliou o Instagram como a rede social mais prejudicial à mente dos jovens. Os dados divulgados em 2017 mostraram  que cerca de 90% dos jovens (com idade entre 14 e 24 anos) usam as redes sociais. Destes, cerca de 1.500 indivíduos que avaliaram aplicativos populares (YouTube, Instagram, Twitter e Snapchat) apresentaram problemas com autoestima, ansiedade e depressão. O estudo mostrou que o compartilhamento de fotos pelo Instagram impacta negativamente, dentre outras coisas, o sono e a autoimagem do sujeito.

Aqui, não estou demonizando as redes sociais e nem afirmando que elas são ‘o mal do século’, pois também tenho os meus perfis na rede, seja para trabalho ou para expor a minha visão sobre algo que achei interessante, mas é importante fazermos uma analise sobre a nossa postura neste meio. Será que a minha mensagem representa quem eu sou? Estou me modificando por conta dos perfis dos outros? Sinto necessidade de estar neste meio? Qual a minha real relação com a rede social? Ao responder essas perguntas você consegue fazer uma leitura do que realmente esta fazendo neste meio e se ele se equipara a comer e dormir como necessidade essencial.

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Flávia Ferreira é jornalista pós-graduada em Gestão Estratégica da Comunicação. Com mais de 10 anos de atuação profissional, já navegou pelo terceiro setor, o setor público e o privado, sempre trazendo o viés social para o trabalho cotidiano, seja com comunicação corporativa, gestão de marcas ou reportagens de campo.

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