NOVA COLUNISTA: Bettyna Gau Beni - Crônicas sobre a gente.

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Olá! Sou Bettyna, mulher, mãe, esposa, filha, profissional de RH, consultora. Com uma história de vida corporativa de mais de 30 anos, após dois processos de transição de carreira, em 2016, cheguei ao meu momento atual: consultora de RH e desenvolvimento organizacional, observadora ‘das mais diversas gentes’, extremamente curiosa a respeito do comportamento humano.

A coluna ‘Crônicas sobre a gente’ é um projeto no qual pretendo escrever sobre as minhas observações e algumas reflexões que me inquietam. Para mim algo muito audacioso, já que invariavelmente vou fazer algum juízo de valor conforme as minhas crenças e experiências. Mas acredito que valerá a pena provocar reflexões, discussões abertas e saudáveis, conhecer outros pontos de vista.

Vamos, então, às primeiras reflexões, as reflexões de final de ano!

Final de ano e as tartarugas marinhas invisíveis

Inúmeras foram as reflexões de final de ano que acompanhei pelas redes sociais de amigos e colegas.

Mesmo pensando que eu mesma deveria publicar alguma reflexão ou aprendizado, não encontrava nada a dizer. Então, simplesmente deixei o tempo passar e, logo após o Natal, quando viajei com a minha família para uma praia do litoral norte de São Paulo – que tenho frequentado nos últimos finais de ano, ao me sentar na areia e observar as pessoas, finalmente me veio um insight. Primeiro, deixei a gratidão tomar conta ao me lembrar como sou privilegiada por poder desfrutar de momentos junto à natureza com aqueles que amo. Uma linda praia, um mar azul-esverdeado, três ilhas a poucos metros de distância, onde é possível se chegar remando ou nadando, e onde é possível também pescar ou simplesmente tomar Sol. Tudo de bom, não é mesmo?

Sim! Tudo de bom p’ra quem sabe e quer apreciar a natureza! Só que o insight veio da percepção de que a minha família e eu não somos a maioria. Infelizmente, mesmo compartilhando das mesmas possibilidades e oportunidades que todos os que ali estavam, somente nós éramos capazes de enxergar as tartarugas marinhas nadando próximo às pedras, de forma tão graciosa e harmoniosa que pareciam se exibir p’ra gente. Tartarugas marinhas invisíveis perante os seres ensimesmados, mais preocupados com as selfies e as postagens nas redes sociais do que com o momento presente.

Bom, todos conhecem, por experiência própria ou por acompanhar nos noticiários de final de ano, a situação das praias na época de réveillon: um verdadeiro mar de gente. Pois é, imaginem esse mar de gente lotando pontos específicos da praia, com aquelas músicas altíssimas, sons se misturando sem qualquer harmonia (e sem a possibilidade de ser algo agradável!), com adultos e até adolescentes usando drogas (lícitas e ilícitas), em meio a crianças brincando na beira d’água, muitas vezes sem qualquer monitoramento, com toda a sorte de lixo que se pode jogar na areia e na água. Imaginem outras grandes porções de praia quase desertas, tudo limpinho, sem qualquer barulho, um verdadeiro convite a um profundo contato com a natureza. E imaginem mais e mais pessoas chegando ao longo do dia e se acomodando justamente nos locais mais lotados e sujos.

Por diversas vezes me peguei pensando sobre as razões que podem levar as pessoas a se acomodar dessa forma, quase que empoleiradas, se submetendo e submetendo seus filhos a condições de falta de higiene e falta de conforto, enquanto poderiam ficar a 200 ou 300 metros de distância, em um local mais vazio e limpo, sob o mesmo Sol, com o mesmo mar e a mesma vista. Pensei que isso poderia ser por causa dos bares, banheiros e chuveiros disponíveis, pela proximidade do estacionamento. Mas as minhas observações não me levaram a qualquer conclusão. Enquanto isso eu continuava a me encantar as tartarugas marinhas.

Imaginei, então, que eu poderia estar sendo preconceituosa ou algo parecido. Por que eu deveria achar que o que é bom para mim e para a minha família deve ser bom para todos? Sim, é verdade. Eu não posso (ou não deveria) pensar desta forma. Mas ainda assim, a questão da higiene e o não cuidado com as crianças, que não têm consciência do que acontece ali, continuaram me incomodando.

E aí, lendo ‘A cura de Schopenhauer’, de Irvin D. Yalom, encontrei o seguinte trecho, na fala de um dos personagens; um terapeuta isolado do mundo, sem amigos porque é tido como uma companhia desagradável, durante uma sessão de terapia: ‘… E a pessoa sensata não vai querer passar a vida querendo ser popular. Engano. A popularidade não mostra o que é verdadeiro ou bom, pelo contrário, nivela por baixo. Melhor buscar dentro de si mesmo os valores e metas…’.

Será que uma pessoa que faz esse tipo de opção pode ter medo de ser impopular e por isso se sujeita a uma condição inferior, ainda que não a considere a melhor para si, ainda que isso a nivele por baixo, somente para ser aceita ou se sentir parte? Ou será que as pessoas não percebem mesmo nem o risco à sua própria saúde e a de suas crianças?

Acredito que não exista uma resposta única e correta, mas em um mundo no qual clamamos por seres humanos mais humanizados, realizados e felizes, eu realmente torço para que as pessoas não escolham viver, ainda que por somente alguns dias ou horas, aceitando o tal do nivelamento por baixo. Torço para que as tartarugas marinhas possam se tornar visíveis para todos.

Bettyna Gau Beni é empreendedora e consultora em desenvolvimento humano e organizacional pela Evoluigi (www.evoluigi.com.br), com especializações em gestão de negócios, comportamento humano, coaching e gestão da mudança.