NOVA COLUNA: (Edu)comunicação para o desenvolvimento. Por Cristiane Parente.

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A lição do Uruguai

Em meio a uma pandemia, com um governo de coalizão formado por cinco partidos, empossado ao meio-dia de 2 de março de 2020, após ganhar uma eleição com pouco mais de 50% da população, era de se esperar que o Coronavírus tivesse um ambiente propício para se espalhar no Uruguai, certo? Talvez! Mas apesar desse contexto, a comunicação do governo uruguaio tem dado uma lição no que se refere à prevenção, controle e mitigação de efeitos da pandemia, assim como a população uruguaia nos mostra – pelo menos até agora – o que é uma cultura cívica e nos dá uma aula de cidadania, mesmo estando cindida ao meio em termos políticos.

A partir de uma conversa da responsável pela comunicação do Ministério da Saúde Pública do Uruguai, Patrícia Schroeder, com pesquisadores de comunicação da Universidade do Minho, liderados pela professora Teresa Ruão, destacamos alguns pontos que consideramos importantes para a reflexão sobre uma comunicação de crise eficiente.

Começamos por ressaltar que, em menos de 24 horas, o governo teve que lançar seu primeiro comunicado, tendo em vista que no dia 3 de março, um dia após a posse, houve um caso confirmado na vizinha Argentina. Nesse momento, houve uma reflexão conjunta de que esse problema não deveria ser visto como do presidente ou da área da Saúde, mas de todo o governo, de todos os ministérios, para mostrar à população um governo unido e não a junção de cinco partidos.

Em um contexto de infodemia – nome dado pela OMS ao momento em que vivemos, com abundância de informação e desinformação, dificultando que as pessoas encontrem informação de qualidade e relevância para poderem tomar suas decisões e agirem – a voz do governo tinha que ser ouvida e compreendida de forma clara e com credibilidade, para conseguir mobilizar a população, especialmente porque todos estavam falando da pandemia, em todos os lugares e recebendo informações por todos os meios e sobre diversos aspectos (econômicos, de saúde, educação, comportamento etc.). Para isso, o governo resolveu agir a partir de três fatores.

O primeiro era ter como base a transparência ao falar da situação que, em consequência, traria a confiança; o segundo seria pensar como comunicar de forma clara o conteúdo que precisava passar para a população, dosando segurança e também mostrando os riscos que a pandemia traz. Por fim, ao fazer essa comunicação, era preciso que ela fosse empática e dialógica para tocar as pessoas.

Uma consideração a ser feita foi o respeito da equipe de comunicação às orientações da OMS quanto aos princípios estratégicos a serem seguidos: a comunicação deve ser compreensível, factível, credível, acessível, relevante e no timing correto. E, além disso, o fato de que as medidas tomadas pelo governo são baseadas nas orientações de um grupo de profissionais formado por médicos de diferentes especialidades, farmacêuticos e até estatísticos e matemáticos entre outros que, juntos, avaliam as ações, os riscos de proliferação do vírus, seus impactos etc.

Outro ponto importante de trazer para este espaço foi a escolha dos meios para a comunicação com a população. E, nesse ponto, a escolha foi por uma comunicação transmídia. Não sem antes algumas lições. As informações para a população começaram a ser postadas no Twitter, por sua característica de agilidade e instantaneidade. Mas por mais que se postassem tweets, a população continuava com a sensação de não ter informação. A partir desse fato, a equipe de comunicação passou a usar todas as redes de TV e Rádio, além das redes sociais – inclusive Instagram e YouTube – e seus próprios canais, gerando conteúdo transmídia que, entre outras coisas, fazia uso de storytelling com produção audiovisual.

O trabalho de credibilidade voltado à população aconteceu também com os relatórios produzidos e apresentados diariamente, em todas as redes, às 19 horas, a partir de uma coletiva com a imprensa na qual eram divulgados números e ações que estavam sendo tomadas além de, em alguns desses encontros, o governo responder a perguntas. Leia-se como ‘governo’ diferentes ministros que estiveram nessas coletivas e o próprio presidente, que também fala sobre o tema, o que reforça a confiança da população em um governo que fala a mesma língua e estimula que ela faça a sua parte. Uma jogada de mestre da equipe de comunicação.

Além disso, a população tem acesso a número de WhatsApp para tirar dúvidas, aplicações para celular, site com números atualizados com informações importantes e unidades móveis de saúde, um dos orgulhos do Uruguai por ter sido um dos primeiros países na América do Sul a implementar essa política pública. Estão sendo trabalhadas ainda a comunicação interna, campanhas de sensibilização, reportagens em distintos níveis hierárquicos, comunicados, entrevistas e conteúdos próprios para canais do governo, além da gestão da imprensa, com a produção de boletins, coordenação de entrevistas, monitoramento da opinião pública e reuniões.

O novo governo assumiu no dia 2 de março, no dia 3 de março recebeu a notificação do primeiro caso na região e, com mais dez dias, a notícia de casos no país. A comunicação precisou agir rápido. Como afirma Patrícia Schoreder, a sensação foi juntar uma equipe de futebol com bons jogadores, mas sem treinamento e entrosamento, e colocar como primeira partida a final da Copa do Mundo. Ainda não sabemos o resultado final dessa partida mas, por enquanto, pelo que temos visto, o Uruguai está ganhando o jogo, e de goleada! Em 1o. de Julho o país, que tem cerca de 3,5 milhões de habitantes, tinha 943 casos confirmados, 825 recuperados e 28 mortes.

Cristiane Parente é jornalista com trabalhos em Impresso, TV e redes sociais. É consultora em Projetos de Comunicação, Educação e literacia midiática/educação para a mídia/educomunicação. É membro do Comitê Internacional MIL Clicks em Português, da Unesco, Governo da Suécia e ZeitGeist. Doutora em Comunicação e investigadora do Centro de Estudos em Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho (Braga/Portugal); Mestre em Educação, Tecnologias e Comunicação pela Universidade de Brasília (UNB); Mestre em Comunicação e Educação pela Universidade Autônoma de Barcelona; Especialização em Teorias da Comunicação e da Imagem UFC/UFRJ.