NO CORAÇÃO DAS COISAS - O pulso do mundo. Por Mariana Machado de Freitas.

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Não só o humano coração possui um ritmo, mas tudo no mundo pulsa na dualidade de duas forças sem as quais não existe mundo: a sístole e a diástole; a ação e o repouso; a contração e a expansão; a aquisição e a entrega; a inspiração e a expiração, o yang e o yin, a tensão e o relaxamento; o masculino e o feminino, o dia e a noite…
Quando é hora de um e quando é hora de outro? É um contínuo mistério que tentamos desvendar na trilha da vida. Por isso, toda receita possui a sua contrarreceita e todo conselho carrega, por sombra ou espelhamento, o conselho oposto. Que hora é agora?
A massa do mundo está sempre sendo batida. Ora muito dura: ponha mais água! Ora muito mole: ponha farinha!  Ora muito à esquerda: vire à direita! Ora muito à direita: vire à esquerda! Somos os grãos de sal da massa sendo batidos no conjunto. E quando, porventura, enchemo-la de leveduras patógenas, é retirada a parte estragada e tudo reinicia com mais farinha e água!
O mundo era mundo antes de nós. Será mundo ainda depois. O que fizemos com o nosso tempo? Será que o que existe de melhor para o homem fazer com seu tempo é se alegrar e fazer bem na sua vida? Sobre isso, encontro uma pérola em Eclesiastes (3:1-8; 3:12; e 3:15-17):
‘Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.
Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
Tempo de matar,e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;
Tempo de chorar,e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
Tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de afastar-se de abraçar;
Tempo de buscar,e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora;
Tempo de rasgar,e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.
(…)
Já tenho entendido que não há coisa melhor para eles do que alegrar-se e fazer bem na sua vida;
(…)
O que é, já foi;e o que há de ser, também já foi; e Deus pede conta do que passou.
Vi mais debaixo do sol que no lugar do juízo havia impiedade, e no lugar da justiça havia iniquidade.
Eu disse no meu coração: Deus julgará o justo e o ímpio; porque há um tempo para todo o propósito e para toda a obra.’
Simbolicamente, o mundo também possui uma troca constante entre fluído venoso e fluído arterial.
Estar no mundo é sempre uma tentativa de caminhar sobre duas pernas. Seria mais fácil se os caminhos não fossem  formados de curvas em aclive e declive. Do jeito como são, hora forçamos mais uma perna do que outra. Mas a dualidade não é a única realidade possível se temos uma alma. O eterno jogo de duas forças opostas e complementares está assentado na realidade material da existência, que é verdadeira, mas limitada pelas suas próprias leis naturais.
No entanto, experimentamos lapsos de transcendência da dualidade em momento contemplativos, meditativos, místicos, como os momentos de prece ou de arrebatamento estético. Mas são sempre momentos. No restante do tempo, somos dançarinos um pouco trôpegos no uso das duas pernas.
A respeito desses instantes de percepção de algo que vai além do ordinário e que, muito embora resida no ordinário, é elevado à categoria de extraordinário exclusivamente pelo grau de acuidade do olhar que lançamos, finalizo com um poema de Clarice Lispector, que nos ajuda a ver, ler, perceber os intervalos entre duas coisas manifestas:
‘Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
-nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.’
(Dá-me a tua mão, Clarice Lispector)
Boa semana! Até o próximo domingo!
Imagem: o orbe (detalhe) da pintura ‘Salvator Mundi’, de Leonardo da Vinci.
Mariana Machado de Freitas é gaúcha, Mestre em Artes Visuais, poetisa, escritora e buscadora da essência e do coração das coisas.