MUNDO AFORA - A receptividade do povo brasileiro é um mito? Por Gabriela Moliver.

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Existe um grande número de estrangeiros vindo para o Brasil em busca de uma vida melhor. Países como Síria – que enfrenta uma guerra civil desde 2011 -, Venezuela e a sua crise humanitária, e o Haiti, são claros exemplos do aumento do número de refugiados no mundo. O termo ‘refugiado’ ainda é desconhecido pela maioria da população brasileira que, em tese, sabe apenas que algumas pessoas estão fugindo de guerras.

Neste sentido, por meio de meu olhar sobre estrangeiros nas cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, instiguei a mim mesma as reflexões sobre os motivos pelos quais milhares de pessoas deixam os seus países para tentarem uma oportunidade no Brasil –  não apenas em busca de trabalho, mas muito além disso.

Por meio de um trabalho pessoal, pude me inserir melhor dentro do contexto do refúgio no Brasil e, neste sentido,  criei uma webserie sobre o assunto.

‘De Portas Abertas: a receptividade do povo brasileiro é um mito?’ constrói sua narrativa a partir do depoimento de três personagens na cidade do Rio de Janeiro (Abdullah Aljadaan, Marie Carle Valera e Mickenson Jean Baptiste), a respeito do que eles pensam sobre o Brasil; como eram as suas vidas em seus países de origem, e como alguns brasileiros vêem essas pessoas que aqui chegam. São fontes-personagens que retratam suas vivências em meio a guerras, perdas de amigos, fome, falta de emprego, governo totalitário, miséria, catástrofes naturais, etc; e como o Brasil, e a lei de proteção ao refugiado os tem ajudado a permanecer aqui. Esses personagens também aparecem no vídeo em atividades do cotidiano e relatam o que fazem para se adaptar a um país completamente diferente de suas culturas e costumes.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), moldado sobre o prisma da atual crise humanitária referente aos conflitos armados e perseguições em suas diversas vertentes e a fome, fez um levantamento sobre o número de refugiados ou deslocados internos que buscam refúgio dentro e fora das fronteiras internacionais de seus locais de origem. Em 2016 – 65,5 milhões de pessoas passaram por deslocamento. Houve um aumento de 300 mil em comparação com o ano de 2015. 10 milhões de pessoas foram forçadas a deixar suas casas, a metade delas, crianças. No Brasil, o número de pessoas buscando refúgio aumentou 12% em 2016, com 9.552 refugiados de mais de 80 nacionalidades. O relatório feito pelo Comitê Nacional para Refugiados (Conare) coloca a Síria como o país que mais busca refúgio (326 pessoas), e a Venezuela com o maior número de solicitação de refúgio (3.375 pessoas).

Em suma, tentei compreender a dimensão da receptividade do povo brasileiro partindo da premissa da boa acolhida a diversos povos em nossa nação. Pretendi evocar dados históricos, responsáveis por essa imagem, em comparação à chegada dos estrangeiros na atualidade. Seria possível identificar, entre o povo brasileiro, gestos de discriminação, xenofobia e intolerância tal qual se vê em inúmeros países? Estarão seguros em solo brasileiro os milhares de homens, mulheres e crianças que aqui chegam em busca de esperança?

No primeiro semestre de 2014, tive contato com pessoas de diferentes nacionalidades, que me fizeram questionar as posições de cada estrangeiro no Brasil. Um pouco antes das Olimpíadas começarem no Rio de Janeiro, trabalhei como intérprete em um hotel na Costa Verde para auxiliar na comunicação entre os atletas que iriam competir nos jogos e os funcionários do estabelecimento. Alguns de seus empregados, como o James, por exemplo, é haitiano e veio para o Brasil em busca de uma vida melhor.

Durante nossas conversas pude perceber como era a sua vida no Rio. E, em muitos relatos, identifiquei que ele sofria racismo e xenofobia por parte da comunidade e dos próprios empregados do hotel. A partir daí, comecei a me informar mais sobre os refugiados no Brasil – o que já partia do meu interesse muito antes dos grandes eventos acontecerem no país – e cheguei à conclusão de querer trabalhar com essa narrativa, em um suporte ainda pouco difundido e discutido nos meios de comunicação tradicionais.

Em razão disso, resolvi criar um cenário de diálogos e pesquisas aos quais eu pudesse fundamentar a visão deturpada de receptividade do povo brasileiro em relação aos estrangeiros e me deparei com um cenário bem típico – os brasileiros realmente não são os mesmos em todo o vasto território que possui.

O atual cenário aqui trata-se da crise humanitária e violação dos direitos humanos envolvendo os refugiados e deslocados externos. O Brasil cresceu economicamente nas últimas décadas. Esse crescimento trouxe visibilidade para o país, que sediou grandes eventos como Jogos Pan-Americanos (2007), Rio+20 (2012), Jornada Mundial da Juventude (2013), Copa do Mundo (2014) e Olimpíadas (2016).  No ano passado, a rede norte-americana de televisão CNN elegeu o povo brasileiro como o mais ‘legal’ do mundo. A matéria considera a simpatia dos brasileiros, que está sempre de braços abertos para receber seus visitantes.  Suspeita-se que essa noção dos brasileiros como um povo hospitaleiro tenha se tornado um mito passível de contradições na atualidade. Será?

Continua…

Gabriela Moliver é jornalista, documentarista e analista de conteúdo.