MONÓLOGOS FILOSÓFICOS - Quando os alunos voltam.

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Recebi esses dias o convite de um ex-aluno numa rede social. Aceitei. Era o Gabriel.Tinha sido meu aluno em 2016 numa turma de 1o. ano do ensino médio. Um garoto inquieto nas ideias, questionador pacas, mas daquele tipo que gera um certo constrangimento nas falas que apresenta. Ora porque suas questões desviam muito da aula, ora porque têm um tom de simplesmente desqualificar minha fala e nada além disso.

Pois bem, dias depois de aceito veio uma mensagem completamente inesperada que dizia assim:

‘Oi professora, tudo bem? Eu gostaria de pedir desculpas pela minha conduta em 2016. Hoje eu percebo que a minha petulância nas suas aulas possa ter atrapalhado bastante o curso delas. Como muitas coisas na vida, uma boa professora é algo que só se aprende a valorizar quando se perde. As suas aulas me ensinaram muito (inclusive coisas além da matéria), de forma que agora eu gosto BASTANTE de Filosofia. Muito obrigado pelas suas aulas’.

Caramba! Tanto tempo depois e ele se deu ao trabalho de me escrever sobre suas impressões!

Respondi dizendo que aquela mensagem era muito bacana e que não há nada mais nobre em um ser humano do que a capacidade de revisitar suas atitudes e refletir sobre elas. Disse também que, por causa dele eu parei para pensar em coisas que não havia me questionado até então; que ele era chato, mas foi importante na minha vida profissional. No fim, se aquele menino sentiu vontade de falar sobre seu comportamento do passado, eu aproveitei para esclarecê-lo sobre como me sentia também. Afinal, tudo que vai, volta.

Para encerrar essa história não vou dizer nada de novo ao afirmar que a vida é sempre um aprender, um revisitar, um surpreender e um agradecer. Entretanto, preciso acrescentar duas coisas: vontade para tanto e o saber usar a preciosa capacidade humana de comunicação. Acho que nós, eu e o Gabriel, entendemos isso e de alguma forma acabamos crescendo juntos.

Quem sou: Roberta Melo, graduada, especialista e mestre em Filosofia; professora com quase 15 anos de carreira; autora do livro ‘Ressentir ou Afirmar? Perspectivas nietzscheanas sobre a dor’, editora Appris, 2018; autora de verbetes de Filosofia na Enciclopédia virtual ‘knoow.net’; apresentadora de vídeos sobre Filosofia no canal ‘Sopro de Atena’. (https://www.youtube.com/soprodeatena).