MONÓLOGOS FILOSÓFICOS - É impossível ser feliz sozinho: uma aula sobre a felicidade.

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Estamos aqui no Rio de Janeiro realizando encontros preparatórios para a Olimpíada Estadual de Filosofia – 2019. Esse evento está previsto para outubro e os encontros pré-olímpicos visam orientar os alunos ao estudo do tema escolhido – felicidade – para o ano em execução. Através da análise de textos filosóficos, filmes, poesias e todo material pertinente, os alunos são preparados para levar ao evento uma ‘bagagem’ repleta de conteúdo. Nossos encontros por aqui serão mensais e tenho um grupo inicial de 24 interessados.

Vale ressaltar que a Olimpíada de Filosofia acontece em alguns estados brasileiros e possui um formato bem diferente das clássicas Olimpíadas disciplinares, mas falo sobre isso em outro artigo. Por hoje vou apresentar a prática pedagógica realizada no meu primeiro encontro com os alunos aqui da escola em que eu trabalho. Portanto, não é uma aula, mas pode se tornar uma, e com grande aproveitamento!

1a. prática:

Antes de realizarmos nosso encontro pedi aos alunos, antecipadamente, que assistissem a um pequeno vídeo que vou chamar de ‘O que você pratica?’. Recebi pelo WhatsApp e descobri depois que o menino que aparece falando chama-se Ali Sherazi e que o texto é de Prem Rawat. Segue a transcrição da fala de Ali:

‘Minha pergunta para você hoje é:
– O que você pratica todo dia?
Pois você se torna bom naquilo que pratica.
– O que você pratica?
Você pratica alegria na sua vida?
Você pratica paz na sua vida?
Você pratica felicidade na sua vida?
Ou você pratica muita reclamação?
Porque se você reclama, você ficará muito bom nisso.
E ficará tão bom nisso, que achará defeito em tudo.
Mesmo quando não há defeitos que um leigo não consegue ver.
Você sendo um especialista, irá ver.
– O que você pratica?
Você pratica raiva?
Porque se você pratica a raiva, você ficará muito bom nisso.
E ficará tão bom nisso, que o acontecimento mais trivial o deixará com raiva.
Coisas triviais, como se sentar no avião e ver que o assento da frente aparenta ser melhor que o seu, e isso parece muito injusto por parte da companhia aérea.
– O que você pratica?
Você pratica preocupação?
Porque se você pratica a preocupação, você ficará muito bom nisso.
E ficará tão bom nisso, que TUDO o preocupará.
Inclusive problemas que você não possui.
Então eu proponho:
– Se tudo é uma questão de praticar, eu proponho que pratique a felicidade’.

(Para quem gostaria de ver o vídeo, ele pode ser encontrado neste endereço – https://www.youtube.com/watch?v=ZLz7BUYR4oQ

Pedi aos alunos que fizessem, já no início do encontro, uma breve reflexão sobre aquela fala tão simples, mas tão profunda. Essa reflexão foi o pontapé inicial para o nosso primeiro encontro.

Além disso, aproveitei a última frase dita por Ali e propus a eles que, ao final de sua reflexão, nos trouxessem uma forma pessoal de praticar felicidade.

Ouvi coisas diversas, mas curiosamente (não sei se era porque estávamos num grupo de Filosofia… rs) todos apresentaram práticas que não envolviam qualquer consumo de bens materiais. Havia felicidades como meditação, conversar com a avó (pessoa de grande sabedoria) etc. Eu também participei da atividade e contribui com a minha felicidade – passar um tempo olhando o céu e pensando na vida.

2a. prática:

Já estava na programação discutir nesta prática o primeiro capítulo do livro ‘Sociedade do cansaço’, mas aproveitei a deixa de um aluno cuja afirmação considerava que o outro nunca pode contribuir para ‘melhorar’ a nossa felicidade. O autor, Byung-Chul Han, faz uma relação entre a construção da nossa defesa imunológica e as relações sociais. Segundo ele, assim como o indivíduo ganha imunidade ao entrar em contato com pequenas porções de corpos estranhos ao seu, socialmente também crescemos, aprendemos e nos fortalecemos quando entramos em contato com o diferente. É o ‘estranho’ que nos ajuda a reconhecer e a formar quem somos. Portanto, negar esse tipo de encontro e considerar que o diferente de nós não é favorável para o nosso crescimento moral e social é um erro.

Ressaltei o papel da diversidade nos espaços humanos; a importância de ouvir quem pensa diferente da gente e que o outro é parte fundamental de quem nos tornamos. Para ilustrar isso, apresentei um texto do André Camargo, chamado ‘O que é você?’:

“Você não é a sua conta bancária, nem a marca da calça que você usa. Essa é fácil. Nascemos peladinhos e, é claro, sem um tostão no bolso. Muita água tem de passar debaixo da ponte até conquistarmos nosso primeiro cartão de crédito, uma Ferrari e o último PlayStation. Ou até nos darmos conta de que não vai ter nada disso e a vida é isso mesmo. Depois, as coisas vão acontecendo e tal, e uma hora a gente morre.

Outro dia assisti à exumação dos restos mortais de dois familiares. A bela gravata e o terno que escolhemos para o velório não passavam de trapos apodrecidos. Rasgavam fácil. Os ossos escuros e avermelhados, cobertos de terra. Foram todos para uma urna de plástico. Quer dizer, cada conjunto de ossos foi para uma urna diferente.

Não, você não é os seus ossos, nem a carne que a terra come. Talvez você pense que é esse que você vê no espelho. Mas o que é que você vê? Só você sabe.

Se você fosse as suas ideias, crenças e valores, seus sentimentos e experiências passadas, assim como seus impulsos e expectativas para o futuro, eles teriam de permanecer o que sempre foram, e continuar assim – porque esse, enfim, seria você. Mas eles mudam o tempo todo… Não dá pra dizer que você é alguma coisa que cada hora está de um jeito. A visão das coisas do velho não é igual à da criança.

Ou a sua mente – você não pode ser algo que não dá pra ver, apalpar, medir, cheirar, morder, nada. Onde fica a mente? No cérebro? Em que parte do cérebro? Nunca vi uma mente.
E o seu corpo… A maior parte das pessoas se identifica bastante com o próprio corpo. Quando querem saber quem são, geralmente terminam às voltas com uma imagem mental do próprio corpo.

Por que será que a gente diz ‘meu’ corpo? É como se o corpo fosse igual a um carro – da mesma forma que o carro leva a minha pessoa para passear, meu corpo leva minha mente para passear… desde que não tenha que andar muito. Mas se o corpo é ‘meu’, não é ‘eu’, certo? Algo que eu tenho não pode ser aquilo que eu sou.

A gente também diz ‘meu’ rosto. Acho que a coisa mais ‘eu’ que dá pra ver é o meu rosto. Ainda assim – curioso – eu sou a pessoa que menos intimidade tem com ele. Porque eu não passo o dia na frente do espelho. As pessoas que eu encontro, então, o tempo todo, têm uma visão melhor de ‘mim’ do que eu mesmo. Meus familiares, colegas e amigos conhecem melhor do que eu mesmo minha fisionomia, minhas expressões faciais costumeiras, meus trejeitos, minhas caretas. Acho que meu rosto é mais deles do que meu.

Agora o cérebro. Esse é legal, porque podemos até viver sem um braço, ou os dois. Sem as pernas – mas não sem o cérebro. Ah, e o coração e os pulmões. Os rins… Mas também não podemos viver só com os órgãos essenciais. Talvez sejamos o conjunto. Mas o conjunto do quê – dos órgãos essenciais?

Eu penso nas minhas mãos, meus braços, minhas pernas… Detestaria perder alguma dessas coisas – eu as considero muito ‘minhas’, gosto delas e prefiro que continuem assim. Mas não são indispensáveis – posso virar um toquinho e continuar sendo eu.

Faz pouco tempo, fui conhecer um hospital que atende pacientes de câncer pelo SUS. No departamento de cabeça e pescoço, é muito comum eles tratarem as pessoas removendo, por meio de cirurgia, toda a região onde se instalou o tumor. Isso significa que a gente se depara, pelos corredores, com pessoas sem nariz, sem olho, sem mandíbula, sem parte do crânio, sem metade do rosto. Filme de terror.

Lembro de um senhor que vi sentado na sala de espera. Não entendi como aquele ser podia continuar vivo – parecia saído daquele bar de ‘Guerra nas Estrelas’, ou talvez algum alienígena de ‘Men in black’. O que restava da cabeça dele era algo talvez não muito maior do que uma pera. Mas ele estava lá.

Você pode ter um braço e uma perna amputados – pode ter seu rosto desfigurado e ainda assim sobreviver. Pode até ser feliz. Mas não pode parar de respirar. O dia em que você não conseguir realizar a próxima inspiração, já era. O que significa que você precisa da atmosfera funcionando direitinho para poder seguir adiante. O que por sua vez significa que a atmosfera faz mais parte de você do que seu braço, suas pernas e seu rosto. Sem ar, morreu.

Da mesma forma, você precisa do Sol brilhando. Veja o que aconteceu com os dinossauros – sem a luz, o calor e a energia do sol, vamos todos para o brejo. E a água também, evidentemente. Se não temos água potável, perecemos ainda mais rápido do que na ausência de comida. O Sol e a água fazem parte de você, eles na verdade são partes indispensáveis, porque sem eles você não existe. Como você poderia ser você mesmo em uma dimensão qualquer onde não houvesse o Sol nem água?

O nosso corpo é composto de algo como 75 por cento de água. E me contaram, outro dia, que existem tantos microrganismos estrangeiros habitando o interior do nosso corpo que há em nós mais células desses serzinhos não-eu do que células verdadeiramente humanas. O que eu acho difícil de acreditar, mas vá lá.

As plantas e os animais também precisam do ar, do Sol e da água – e da terra, naturalmente. Assim como nós dependemos da terra, das plantas e dos animais para nos alimentar. A gente já vem com essa doença de fábrica – e temos de nos manter constantemente alimentados para não sentir os sintomas: fome, fadiga, fraqueza, estresse, irritação, desespero, dores musculares, confusão mental e assim por diante. Vai ficando cada vez pior – até a próxima dose. E estamos curados por algumas horas.

Podemos viver sem um rim, sermos cegos, surdos e mudos, ainda assim, se plantas e animais desaparecerem, nós desaparecemos junto. As plantas e animais, em equilíbrio ecológico, são uma parte mais ‘nossa’ do que os nossos sentidos físicos e órgãos internos. Não sobrevivemos muito tempo sem comida.

Assim também com os seres microscópicos – do seu invisível equilíbrio depende a nossa existência. E os seres macroscópicos: seu chefe, sua sogra, seu vizinho. Como somos seres sociais, precisamos de um contexto cultural humano para não enlouquecer.

Você assistiu àquele filme, ‘Náufrago’, com o Tom Hanks (que eles criaram só para fazer propaganda da FedEx)? Lembra do Wilson? E o nativo Sexta-feira, que Robinson Crusoé encontrou na ilha? No mais, nenhum ser humano pode chegar a ser humano se não na presença de ao menos um outro ser humano que lhe troque as fraldas e o ensine a se comunicar. Já ouviu falar no Kaspar Hauser?

Sem o suporte afetivo de uma rede de relações sociais – os colegas de trabalho, a atividade que gera benefícios à comunidade, os familiares e amigos, as celebridades da hora, ou mesmo os desconhecidos que perambulam por aí – sem essa turma toda, tendemos a nos deprimir.

Precisamos de rostos humanos que nos devolvam nosso olhar. Para amar, para odiar, para ignorar, imitar, discordar, xingar. Pelo menos de vez em quando. Caso contrário, a vida vai se esvaziando de sentido e a energia vital vai murchando, até definhar completamente. Deste ponto de vista, o outro talvez seja mais você do que você mesmo.

Na verdade, dependemos da atmosfera, dos oceanos, do sol, das pessoas e do planeta Terra como um todo. Não fosse a força que nos mantém colados – a gravidade – sairíamos flutuando a esmo pelo espaço sideral, como bolhas de sabão. O que não teria como dar certo.

Você é o seu coração, sua mente, seus pulmões, o sol, a lua, o vento, as florestas, os animais, bactérias e vírus, o ar, a poluição das máquinas, computadores, internet, pernilongos, sapos, baleias, livros, Coca-Cola. Quando você fechar os olhos pela última vez, tudo isso desaparecerá com você. Para sempre.

Afinal, isso é o que você é: tudo o que já foi e será pensado, tudo o que já foi e será imaginado, sentido e vivenciado, do começo ao final dos tempos, em perpétuo movimento. Se não isso, o que é você?”.

3a. prática:

(Uma informação importante para esta prática: pedi que todos tirassem seus sapatos no início do nosso encontro. É possível também pedir a eles que tragam um par de sapatos sobressalentes para a atividade).

Após a leitura compartilhada do texto ‘O que é você?’, não deixei que ninguém fizesse qualquer comentário. Apenas pedi para que calçassem um par de sapatos que não fosse os seus. Teve gente que escolheu por identificação com o sapato, mas teve gente que calçou sapatos por falta de opção, o que gerou muitas risadas. Um dos meninos colocou um tênis que só cabia os seus dedos do pé. Outro calçou um que estava úmido por causa da chuva e ficou um pouco incomodado com isso, mas tudo valeu para o que aconteceria adiante.

Ao verbalizar seu incomodo com o sapato molhado, aproveitei a oportunidade para dizer que andar com os sapatos dos outros nem sempre é fácil. Requer um certo esforço, mas que também pode ser bom expressar esse incomodo. Sabendo dialogar podemos entender o que levou um sapato a ficar suado e nojento e descobrir que, na verdade, ele só estava um pouco molhado da chuva. Só o diálogo vai permitir a descoberta disso.

Conversamos bastante sobre o texto do André Camargo – ainda com os sapatos uns dos outros!

(Pedi para que se mantivessem assim até o fim do encontro).

4a. prática:

Com a leveza que uma boa música pode nos trazer, iniciei este momento ao som de ‘Wave’, de Tom Jobim. Era essa a música que dava nome ao nosso encontro. Para quem não lembra da letra, segue:

‘Vou te contar, os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender
Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho
O resto é mar, e tudo que eu não sei contar
São coisas lindas que eu tenho pra te dar
Vem de mansinho a brisa e me diz
É impossível ser feliz sozinho
Da primeira vez era a cidade
Da segunda o cais e a eternidade
Agora eu já sei, da onda que se ergueu no mar
E das estrelas que esquecemos de contar
O amor se deixa surpreender
Enquanto a noite vem nos envolver’.

A essa altura, não precisávamos dizer mais nada, apenas ouvir a música e refletir sobre o fato de que só é impossível ser feliz sozinho por sermos seres que se constroem a partir de inúmeros encontros e relações com o mundo e que um par românico para dormir de ‘conchinha’ nem é tão relevante assim.

5a. prática:

Essa foi a última prática e seria ela que nós levaríamos para casa. Pedi para que identificassem os donos dos sapatos, porque teriam que realizar a prática de ‘felicidade’ apresentada por eles no início do encontro. A ideia era que exercitassem a felicidade alheia por uma semana. Após essa experiência semanal, deveríamos escrever um relato para os donos das ‘felicidades’, de maneira que ficasse claro, para nós e para eles, como foi a experiência e como nos sentimos. Eu fiquei com a seguinte ‘felicidade’: valorizar as pequenas coisas; realizar ações paras as pessoas; perceber que há situações piores que a minha na vida.

Resolvi enviar diariamente para a dona o que eu vinha fazendo com a felicidade dela. O fato é que percebi rapidinho o quanto aquela ideia meio estranha estava sendo terapêutica. Ao final da semana, eu disse a ela: – Muito obrigada por essa experiência. Lembrar do que me deixa feliz para poder te escrever, me deixa feliz de novo. São duas alegrias: viver e lembrar.

Em nosso próximo encontro faremos uma análise desse laboratório, mas já adianto que aprendi mais formas de exercitar a felicidade em minha vida quando olhei para a felicidade do outro com carinho e respeito.

Quem sou: Roberta Melo, graduada, especialista e mestre em Filosofia; professora com quase 15 anos de carreira; autora do livro ‘Ressentir ou Afirmar? Perspectivas nietzscheanas sobre a dor’, editora Appris, 2018; autora de verbetes de Filosofia na Enciclopédia virtual ‘knoow.net’; apresentadora de vídeos sobre Filosofia no canal ‘Sopro de Atena’ (https://www.youtube.com/soprodeatena).

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