MÍDIA, SUBSTANTIVO FEMININO - Greta Thunberg e livre debate, as últimas vítimas do sexismo na comunicação.

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A jovem ativista sueca Greta Thunberg roubou a cena na última Cúpula do Clima na Organização das Nações Unidas (ONU). Em um discurso apaixonado contra a mudança climática, ela pressionou os políticos presentes a tomar medidas concretas para barrar o fenômeno.

A atitude da jovem, de apenas 16 anos, conquistou manchetes no mundo inteiro. No Brasil, algumas ganharam notoriedade por seu machismo. Gustavo Negreiros, um radialista do Rio Grande do Norte, chegou a afirmar que o problema da jovem era falta de sexo. Mais uma vez: a ativista tem apenas 16 anos. A reação ao comentário foi tamanha que, pese à sua retratação, ele foi demitido da emissora onde atuava.

Até mesmo lideranças consideradas progressistas não hesitaram ao afirmar que havia algo de errado com Greta. Eduardo Jorge, que já concorreu à presidência da República e tem a preservação da natureza como uma de suas principais bandeiras, pediu à jovem sueca ‘mais compaixão para o drama do planeta Terra e menos ressentimento’. Isso mostra que, independentemente do espectro político do porta-voz, a esfera pública – que, por sinal, pauta o jornalismo – ainda não recebe bem o fato de mulheres terem destaque.

Além disso, ambos os comentários revelam que, ao contrário do que muitos afirmam, a concepção de o que é a mulher ideal pouco mudou: para a sociedade, ela ainda deve obediência e discrição. Qualquer padrão que fuja a esse é alvo de ataques. Isso piora caso a mulher em questão seja incisiva e não relute ao se posicionar com veemência. Esse é o problema com o discurso de Eduardo Jorge: para ele, Greta deveria ser mais mansa, por mais que os fatos que ela denuncia sejam inquestionavelmente reais, graves e revoltantes. Um homem que colocasse os pingos nos ‘is’ jamais seria avaliado dessa maneira.

No caso de Gustavo Negreiros, há o agravante de que seu discurso traz à tona a cultura do estupro, usando o poder simbólico da imprensa para disseminá-la. Neste contexto, qualquer mulher que não se porte da maneira como a sociedade espera merece ser violada. Há, ainda, a concepção de que toda e qualquer mulher busca um homem, e que, enquanto tal objetivo não for atingido, ela não será nada mais do que um indivíduo histérico e desesperado por atenção.

Ao mesmo tempo, o papel dos jornalistas deveria ser apontar tais falhas, combatendo a discriminação e respeitando o que dita o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. Isto, porém, não acontece: seja por questões políticas ou mesmo pela falta de mão-de-obra em um contexto de redações cada vez mais enxutas, os meios se atêm cada vez mais ao estritamente factual.

Além disso, é muito importante ressaltar que os meios podem – e devem – criticar a posição de Greta, caso não concordem com ela: qualquer tentativa de proibi-los seria cercear o debate livre e democrático. Porém, é essencial que as críticas se atenham ao conteúdo de seu discurso. Mencionar sua suposta agressividade, por exemplo, nada adiciona ao livre debate ou à democracia: trata-se de uma ofensa gratuita e machista. Assim, mudar tal postura é essencial para que o jornalismo cumpra sua função, dando subsídios à população para que ela forme sua opinião sobre os temas que circulam na esfera pública, criando um debate pragmático e que ajude a resolver questões sociais urgentes, como a agenda climática.

Taís Arruda tem dupla diplomação em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e Universitat de Vic (UVic) e desenvolveu pesquisas na área de gênero durante a graduação. Atualmente, é assessora de comunicação e imprensa.

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