LITERATURA E SUSTENTABILIDADE - Parque do Descobrimento. Por Joema Carvalho.

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A estrada fluía. Terreno escorregadio de latossolo amarelo – jazia sob o verde degradado por pastos e culturas agrícolas, encoberto por um céu azul entre o lusco-fusco e as primeiras estrelas. O carro rodopiou no terreno íngreme. Paramos à beira de um precipício, ao grito de “Ai, meu Deus” de quem estava no volante.

Alguns trechos, cortados por banhados, formações pioneiras sobre solos incipientes, assoreadas por pisoteio de gado e erosão. Parávamos, às vezes, para verificar a profundidade da água e nos certificar de que o carro teria como passar, mesmo não havendo outro caminho que não aquele, que percorríamos sem noção de tempo e conexão com o mundo.

O carro derrapava a todo momento. O latossolo amarelo nos perseguia, trazendo certa angústia, que se sobressaía às outras emoções e dominava a paisagem noturna.

Por vezes, desviava o foco e avistava os cultivos de subsistência dos assentamentos dos sem-terra, tribos indígenas ou quilombolas – um picadeiro ainda não encoberto, no entorno do Parque do Descobrimento. Persiste na região, formando um corredor de biodiversidade em todo o litoral brasileiro, do extremo norte ao sul. Manto verde contínuo. Conta um pouco do que sabemos através dos registros de Spix, Martius e Hulboldt sobre a natureza do Novo Mundo. Encontra-se ali árvores com grandes diâmetros, difíceis de serem vistas. Local de origem do pau-brasil, madeira de lei e símbolo exploratório de desenvolvimento. A degradação se faz pelas bordas, na política da boa vizinhança, no ruído de motosserras misturado ao barulho da fauna, da flora e do vento nas folhas.

Eu só queria percorrer tudo aquilo, tocar as montanhas invioláveis do País – rochas escorregadias, que não permitem grampos, garras ou que alguém as escale. Íntegras.

Joema Carvalho é engenheira florestal, doutora, perita, sócia-diretora da Elo Soluções Sustentáveis, colunista do Observatório de Comunicação Institucional e do Facetubes.