HUMANIDADE EM PAUTA - Por que a guerra? O que nos ensina a carta de Freud a Einstein. Por Laize Barros.

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“Quem planta tâmaras não come tâmaras”.
(ditado popular árabe)

O ano era 1932. Pós 1a. Guerra Mundial e à beira da 2a. Grande Guerra.

Albert Einstein, o famoso físico, participava da Liga das Nações, sediada em Paris, instituição que foi a precursora da Organização da Nações Unidas (ONU), criada em 1945.

Nesta época, entre guerras mundiais, Einstein, ativista pela paz, propõe que grandes figuras do cenário mundial troquem cartas para discutir possíveis soluções para os conflitos mundiais. Oportuno conhecer a iniciativa dos ilustres cientistas para refletirmos sobre nosso cenário atual.

O ano é 2022. Século XXI.

Por que a guerra? A pergunta de Einstein a Freud se torna atual e contemporânea no triste fevereiro de 2022, com a invasão da Ucrânia pela Rússia, sua terra irmã. Muitos de nós imaginávamos que havíamos superado conflitos bélicos e que o diálogo estava estabelecido como ferramenta de superação de diferenças quaisquer. Ledo engano!

O analista político norte-americano e jornalista que vive em Moscou, Andrew Korybko, nos alerta para uma nova estratégia geopolítica de incitação ao conflito bélico por meio do que nomeia de um “caos administrado”. Korybko escreveu o livro “Guerras híbridas: das revoluções coloridas aos golpes”.

“Guerra híbrida é a combinação de revoluções coloridas e guerras não convencionais para substituir governos. Partindo do estudo de caso da Síria e da Ucrânia, o autor constrói um novo conceito, cujo modo de operação pode ser facilmente identificado em outros conflitos no Oriente Médio e na América Latina. A guerra híbrida é o novo modelo de intervenção do século XXI”.

No ano de 1932, Einstein escolheu Freud como seu interlocutor pela importância e o caráter de suas pesquisas e descobertas acerca do inconsciente. O físico indagou ao psicanalista o que poderia ser feito para livrar a humanidade da maldição da guerra. Questionou ao psicanalista quais seriam as razões da “mente humana” para as guerras e ainda se a ciência seria capaz de impor limites e propor caminhos para a paz. Freud responde que suas contribuições certamente não serão as de um estadista, nem terão caráter prático, mas serão as possíveis reflexões de um estudioso da Psicologia. Em sua resposta a Einstein, Freud não se mostrou otimista quanto à capacidade de o futuro nos livrar de novos conflitos bélicos. Constatamos hoje que, infelizmente, o pai da Psicanálise estava certo em sua profecia.

A carta de Freud a Einstein enfatiza o poder da civilização para diminuir o poder do indivíduo. Podemos dizer que a maioria dos conceitos freudianos usados na carta do psicanalista vienense foram retirados de seus últimos estudos em “O mal estar na civilização” e “O futuro de uma ilusão”. Esses estudos freudianos tratam da relação entre o homem e a cultura e são considerados estudos sociológicos.

Frisarei aqui, em especial, duas ideias que pertencem aos estudos sociológicos de Freud. A mais preciosa diz respeito ao fato de a civilização nascer às custas do sofrimento individual. Trata-se do mundo social se sobrepondo aos apelos do indivíduo. Este preceito pode soar estranho aos nossos ouvidos tão repletos de mensagens contrárias…

A importância do coletivo nos remete ao fato de ser o mundo um espaço de todos e para todos e que para a conquista desta COMvivência foram criadas regras e leis universais que fundaram a civilização e nos afastaram da barbárie, ou do “salve-se quem puder”.

“A civilização, portanto, tem de ser defendida contra o indivíduo, e seus regulamentos, instituições e ordens dirigem-se a esta tarefa”. (Freud, 1930).

Fundadas em tais razões nascem as organizações pacifistas que cuidam da paz mundial. Podemos dizer que nasce a Moral e a Ética que nos dizem que “nem tudo que podemos, devemos fazer”.

Enfim, o mundo moderno é fundado a partir de valores coletivos que ditam que as gerações devem avançar paulatinamente na construção de Direitos Humanos que tornem a vida mais digna e igualitária para todos.

A segunda ideia, interligada a esta, se refere ao desenvolvimento psicológico, cerne da teoria psicanalítica.

Para a Psicanálise, o desenvolvimento psicológico implica na passagem de um narcisismo primário a um narcisismo secundário. Da centração no Eu para a descentração e a “entrada no mundo social”.

Do ponto de vista sociológico, poderíamos comparar a passagem da socialização primária para a socialização secundária. A vida em sociedade exige abandonar um tanto de nós mesmos em favor da vida em comum com o objetivo de o espaço coletivo ser o mais inclusivo possível. Ou, em outras palavras, crescer psicologicamente é reconhecer a existência de outros, da cultura e do meio social.

E ao que nós assistimos quando acontece uma guerra?

A guerra quebra laços emocionais que nos humanizam e nos aproximam apesar da diversidade e das diferenças culturais.

Do ponto de vista psicológico, para que haja guerra é preciso que as identificações que criam laços emocionais entre os seres humanos sejam neutralizadas e que se abra espaço para o estranhamento do Outro como um igual.

Eu “desumanizo” o meu inimigo para me sentir autorizado a matá-lo.

A guerra nos desumaniza e resulta em um afastamento profundo que, por muito tempo, impedirá qualquer renovação destes laços.

Lembremos das feridas abertas com a bomba atômica em Hiroshima, a guerra no Vietnã, o Holocausto. Tais atrocidades impediram boas relações entre países por décadas e ainda hoje trazem resquícios, lembranças que nos assombrarão para sempre.

É preciso perceber o quanto nós participamos desta lógica perversa por meio de atitudes que estão ligadas a disposições psíquicas profundas como o preconceito e a frieza.

O preconceito torna o outro um alvo de nossa intolerância, de nossa incompreensão, torna-o menos humano e um desconhecido. O preconceito corta os laços emocionais que unem os seres humanos que têm diferenças raciais, sexuais, étnicas e sociais.

A frieza nos distancia e retira nossa responsabilidade frente à dor do outro. A frieza corta os laços emocionais que unem os seres humanos em situações de vida diferentes.

A mídia e as redes sociais nos mostram todos os dias que a cultura do narcisismo e do consumismo são a regra do jogo.

Ter para ser aceito é o preço a ser pago!

A lógica do consumismo afasta o ser humano da busca pela satisfação em valores compartilhados e prega a satisfação em valores individuais. Ganha o individualismo e perde o espaço coletivo. Em outras palavras, perde a civilização.

No vale-tudo do individualismo a violência ganha força, pois o outro não é meu fraterno, e sim meu inimigo, eu quero ser o melhor. Sentimentos como compaixão, consideração, culpa e responsabilidade desaparecem do vocabulário (vide Jurandir Freire Costa, 1995) e cria-se uma barreira emocional.

E a saída?

A saída está em fortalecer os espaços coletivos e as instituições responsáveis pela Cultura de Paz e Direitos Humanos, e ainda nos mantermos mais atentos e vigilantes em relação às nossas atitudes e lutar contra os preconceitos e a frieza que nos impedem de enxergar o outro em sua inteireza.

Quase cem anos depois, eu pergunto quem seria escolhida ou escolhido para escrever cartas para a promoção da paz?

Eu sou Laize de Barros, ajudo pessoas a alinhar Vida e Carreira com mentorias e cursos. Psicóloga e Mestre em Psicologia e Educação (USP), colunista da Comunidade Marketing da Gentileza e do Observatório da Comunicação Institucional. Escritora das minhas histórias e das que espio nas janelas da vida. @laizedebarros IN IG