Foi por acaso? Por Juliana Fernandes Gontijo.

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– Freia logo ou vai bater! – Gritou Eduardo com a cabeça fora do carro.
– O freio não pega! – Esbraveja a mulher no outro veículo.

Ouve-se um estrondo no meio da avenida Atlântica, no Rio. A mulher amassa a frente de seu carro e a traseira do carro de Eduardo. Ele ficou indignado e ela, desesperada.

– Moço, o freio não pegou, não sei o que houve. Pelo amor de Deus, não faça B.O., dizia em prantos. – Eu venho de um enterro; meu pai morreu ontem. Perdão. Imagina que peguei meu carro novo na concessionária na semana passada.

– Ei, moça, seu nome! Calma, vai ficar tudo bem. E eu retirei o meu há três dias. Eu “ganhei” de você. Mandamos os carros para o seguro, você tem? Graças a Deus que estamos vivos. O semblante dele já era mais brando.

– Tenho seguro. Eu me chamo Fernanda. Meu pai, Geraldo, teve um infarto fulminante! Quando a pessoa está doente é uma coisa, se cai no banheiro de casa, é outra. Meu Deus! O que aconteceu com o freio do meu carro 0 km?

Acionaram o seguro; o reboque chegou. Trocaram números de telefone. Fernanda chamou um primo para levá-la em casa, pois estava muito abalada. Eduardo pegou um táxi.

O carro dela teve problemas no motor; o dele foi no acionamento do porta-malas. Durante o período do conserto, mais de 20 dias, ele ligava para ela a fim de saber se estava tudo bem. O homem pressentia algo diferente no ar, como se eles já se conhecessem de longa data.

Quando ele voltou ao Rio para pegar o carro, por obra do acaso, encontrou Fernanda em um shopping.

Passaram-se oito meses…

Eduardo tirou férias no escritório e resolveu fazer uma viagem ao Paraná – daquelas programadas de última hora. Escolheu o Parque Nacional do Iguaçu. Durante o passeio, distraiu-se com uma ave diferente e trombou com uma mulher. Mais uma vez, Fernanda. Após a surpresa, passaram o dia todo juntos. Outra coincidência: os dois faziam aniversário no mesmo dia. Ele contou que foi adotado dias depois que nasceu no Rio e a família se mudou para São Paulo. Fernanda também nasceu na capital carioca. Sua mãe teve eclampsia e não resistiu ao parto. Ela ficou sozinha após o falecimento do pai.

– Só falta você me dizer, moça, que nasceu em 1988!

Sim era verdade. Fernanda não se abria muito sobre a vida, mas ele a “fazia” falar.

Ela o achava uma boa companhia, sentia que poderia confiar nele, mas não a ponto de um relacionamento. Aquilo não “batia” bem. Eduardo era divorciado, mas não tinha filhos. Fernanda, no auge dos 35 anos, preferia não se envolver emocionalmente mais.

Ele continuava suas “investidas”. Ao retornar para São Paulo, iria “vasculhar” a vida da cirurgiã-dentista pela internet. Se valesse mesmo a pena, estava disposto a se mudar para seu flat no Rio.

Como Eduardo era um advogado cível bem conceituado, ele conversou com alguns amigos donos de cartórios no Rio e conseguiu cópia da certidão de nascimento de Fernanda. Ele estava realmente apaixonado por ela.

Inacreditavelmente, descobriu que os dois nasceram na mesma maternidade onde seu amigo, Carlos, era diretor. Pediu a ele para verificar, no “arquivo morto”, toda a documentação da mãe de Fernanda, Esmeralda de Assis.

Ela teve uma eclampsia, foi preciso um parto prematuro dos gêmeos. Sofreu uma parada cardiorrespiratória e não resistiu. “Muito estranho, Fernanda nunca falou sobre um irmão gêmeo”.

Eduardo resolveu se mudar para o Rio. Em seguida, marcou outro encontro com a dentista para tentar entender aquela situação. Com muito jeito, conseguiu tirar “da boca” da amiga que seu o irmão faleceu minutos após o parto.

O advogado voltou ao hospital, mas havia conflito de informações. Maria José, a mãe que teve um bebê no mesmo dia e horário que Esmeralda, perdeu o filho já destinado à adoção. Ou seja, havia uma provável troca de bebês. O advogado permaneceu por dois meses “investigando”, com duas funcionárias do hospital, o que poderia ter havido no dia 17 de abril de 1988.

Cada vez mais apaixonado, levava flores nos encontros. Fernanda agradecia, simpática, sempre à distância. Após três meses, marcou outro jantar. Chamou até um chef para preparar tudo no seu flat, mas recebeu uma ligação do hospital…

Ao chegar à sala de Carlos, notou algo estranho. Mesmo assim, preferiu falar primeiro:

– Meu amigo, hoje eu decidi me declarar. Tenho certeza de que fomos feitos um para…

– Precisamos mudar o rumo dessa conversa. – Cortou o médico. Tudo indica que vocês não foram feitos um para o outro, pelo simples motivo: vocês são irmãos. – Falou sem pestanejar, mas com certa tristeza.

– Como é que é? Tem algo errado nisso aí, eu fui adotado. – E caiu sentado na cadeira.

– Sim, mas vocês nasceram no mesmo dia e sua mãe biológica não é Maria José. Foi o filho dela, Renato, que morreu no parto por falta de oxigenação no cérebro. Como ela era de uma família muito influente e já havia prometido a criança para adoção, o hospital decidiu fazer a troca. Um erro grave! Admito! Sugiro que façam DNA para comprovar.

– Eu não acredito! – Eduardo chorava igual a uma criança. Não sabia se de tristeza ou felicidade.

– É verdade, meu amigo. Leia os depoimentos e relatórios, mas o crime já prescreveu; o ex-diretor e a enfermeira que fez a troca já morreram. Não adianta “revirar” isso… Ou vai querer processar o hospital?

– Não! Isso não me importa agora. E pensar que estive perto da minha irmã por quase um ano sem saber e ainda me apaixonei por ela. – Ligou para Fernanda:

– Precisamos cancelar nosso encontro, porque não estou bem…

– OK. – Respondeu a mulher com indiferença. A gente se encontra depois…

Ele precisava repensar a situação embaraçosa em que se metera depois de uma batida de carro na Atlântica. Disse com voz bastante trêmula à amiga:

– Você pode fazer um DNA comigo, por favor? Eu só preciso tirar uma dúvida. Nós nascemos no mesmo hospital, acredita?

– Sério? Coincidência, hein?

– Pode ser hoje? Eu te busco daqui a pouco no consultório.

Ela respondeu que sim. Tinha uma folga de horário. Estava tranquila, pois, daquela vez, Eduardo não “investiu”.

O resultado saiu 25 dias depois e aconteceu o que ele já imaginava.

– Mais tarde, você vem jantar em minha casa. Hoje eu sei que você pode, moça. É feriado. Não há desculpa. – Disse o advogado por mensagem. – À noite, a gente se encontra.

Fernanda respondeu “OK”. – Já estava cansada de tantas investidas. E pensava em dar um fim naquela situação. Quando aquele homem queria uma coisa, parecia seu pai, não dava sossego.

Ao chegarem à casa dele, Eduardo pediu que ela acendesse as luzes e qual foi a surpresa de Fernanda? A TV ligou e, na tela, estava escrito: “Bem-vinda à minha vida, MINHA irmã, Fernanda. Nosso exame de DNA deu positivo.

Assistiram juntos a um vídeo com as fotos dos carros batidos, de Foz do Iguaçu, as cópias das certidões de nascimento de ambos, a foto da mãe, grávida ao lado do pai e tantos outros encontros que tiveram em um ano. E por fim, uma frase que dizia: “Desculpe-me por eu ter me apaixonado por você. Eu jamais poderia imaginar tamanha coincidência. Aquela batida não foi por acaso! Mas continuo te amando agora com um jeito diferente, minha adorável irmã”. Os olhos de Fernanda encheram de lágrimas.

– Estou triste e alegre. Posso te chamar de Nanda? Eu me apaixonei por você, mas precisei tirar isso da minha cabeça, foi difícil. Somos irmãos. Foi um crime o que fizeram conosco. Nós teremos muito tempo e eu te contarei como descobri tudo! Sinto muito por nossa mãe e por eu não conhecer nosso pai.

Os dois se abraçaram, chorando muito, por longos minutos.

– Talvez fosse pela minha intuição feminina que eu não gostava das suas investidas, meu irmão. Que sejamos muito felizes, mesmo sem nossos pais conosco. Eles olham por nós. Eu e você viveremos felizes para sempre!

Imagem: PublicDomainPictures por Pixabay.

Juliana Fernandes Gontijo é jornalista por formação e atriz. Apaixonada pela língua portuguesa e cultura de maneira geral, tem bastante preocupação com sustentabilidade e o destino do lixo produzido no planeta.