- Esse banho eu não tomo não! Por Juliana Fernandes Gontijo.

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Foi nas férias chuvosas em Minas Gerais que Flávia, o marido, Paul, e o filho, Charlie, tiveram uma experiência totalmente inusitada. Eles saíram dos Estados Unidos para fugir da neve norte-americana e, aqui, acabou que “pegaram um Brasil”, desta vez, bem molhado.

Mas “as águas de verão” neste ano de 2022 têm sido além da conta. Em um dos passeios que a família fez para um sítio no interior do estado, quando retornavam para Belo Horizonte, eles, outras seis pessoas (todos da família de Flávia) e o “cãozinho” grande, Aladin, ficaram “ilhados” num pequeno distrito no interior de Minas. Tentaram fazer um desvio por causa de uma grande inundação na estrada, mas outra encosta caiu e, logo não havia como chegar a Belo Horizonte naquele domingo chuvoso.

Um dos três carros do “comboio” atolou numa parte de uma estrada de terra. Foram pelo menos duas horas para tirar o veículo do barro. Até Aladin, da raça Golden, queria ajudar. Tomaram bastante chuva e também se “borraram” de lama.

Por uma feliz coincidência do destino, Flávia tinha um amigo nessa cidade onde a família e Aladin ficaram “ilhados”. Feliciano alugou a casa para a turma toda. Era preferível ficar ali a ter que dormir dentro dos carros como muitas pessoas fizeram nas estradas de Minas naquele fim de semana. Na região, os únicos locais disponíveis para dormir eram o posto de combustível e o dos bombeiros. Nesse, era perigoso, pois outra encosta caíra ao lado da estrada. Era o aluguel da casa ou “nada”!

No pequeno mercado da cidade, a comida já estava escassa. Flávia e os parentes compraram alguns pacotes de macarrão, enlatados, água mineral, sucos, refrigerantes, pães e a carne que sobrou no açougue, mais umas latinhas de cerveja.

– Compra aí pratos, copos e talheres de plástico. O tanto que puder, depois mandamos para a reciclagem. Vai que falta água? Escutei um papo no rádio e…

– Vai faltar nada não, Cassiano! Feliciano disse que a caixa de mil litros tá cheia, e a cidade tem água. Não temos que preocupar. – Rebateu Flávia já no caixa.

Quando chegaram à casa de Feliciano, encontraram o imóvel bastante sujo. Há um ano a casa estava sem moradores. Mas era o que tinha para se instalarem. Uma residência bem mobiliada, mas como dormir naquela sujeira? Todos, porém, agradeceram a Deus por um teto no meio de tanta tristeza com as chuvas em Minas e na Bahia no início de 2022.

Foi preciso lavar a casa toda: chão, banheiros, quartos, sala, cozinha. Dividiram as tarefas e não demoraram muito para terminar o serviço. A união fez a força. Lavaram também tudo o que chegou do mercado. Em tempos de Covid-19, todo o cuidado é pouco.

Casa limpa, mas a galera toda suja de barro. Era partir para o banho! Para não haver “brigas” fizeram um sorteio! Típico da família dos “Pereira”.

Flávia e um dos cunhados, Alex, pegaram as duas primeiras vagas. A casa tinha dois banheiros. O combinado de, no máximo 10 minutos de banho, pois era muita gente suja.

– Quem não cumprir o prazo, vamos desligar o disjuntor. – Gritou, soltando uma risada, o pai de Cassiano. – E não adianta discutir, hein?

Alguns minutos depois…

– Aqui não desce água! – Gritou Flávia do banheiro do quarto. – Meu corpo está cheio de sabão!

– Diacho! Aqui também, não! Minha cabeça está cheia de xampu! Meu pai do céu! – Esbravejou Alex no outro banheiro.

– Abra até o final que deve sair! – Soltou alguém lá da varanda. – O jeito é subir no telhado e ver a caixa…

Ricardo, outro cunhado de Flávia e pai de Cassiano, foi ao telhado. – Voltou cabisbaixo:

– A água da rua acabou também. E pior, a caixa está com um buraco na parede mais ou menos na metade da altura. Logo não ela não enchia por completo. Estamos “no seco” com essa chuva toda.

– O quê? – Gritaram todos em coro.

Aladin parecia também entender a situação e começou a ficar nervoso. Corria e latia de um lado para o outro.

– A minha cabeça está cheia de sabão. Parece que estou com sarna de tanto coçar! E a água da rua? – Perguntou, desesperado, Alex da porta do banheiro.

– Não tem água na rua. – Falou Ricardo. – Você foi lavar a varanda… Precisava disso? Aí, ficamos sem água!

– Chama o Feliciano, gente! – Disse Flávia já saindo do banheiro cheia de espuma no rosto e nas pernas, mas enrolada no roupão de banho. – Charlie, esquenta água mineral que vamos tomar “banho tcheco”.

– Eu? Não vou tomar banho Tiécu… não! Esse banho eu não tomo não! – Disse Charlie, um rapazinho adolescente, com aquele sotaque americano.

Todos caíram na gargalhada e Flávia continuou dura com o filho:

– Esquente a água e traga no banheiro! É para jogar “aos pouquinhos”… Charlie fez o que a mãe pediu e quando chegou ao banheiro, simplesmente jogou “aos pouquinhos” metade da água do balde dentro do box. Ao perceber o que filho fazia, gritou:

– Não! A água é p’ra jogar no corpo e lavar “as partes”… Pelo amor de Deus, era o pouco que tinha p’ra eu tomar meu banho, filho!

O menino saiu sem graça do banheiro, mais vermelho que um pimentão.

– Eu não sabia o que é banho Tiécu… Como vou saber? Esqueceram que não sou “brasilêro”?

Todos caíram na gargalhada, mas Flávia e Alex ainda estavam um pouco no desespero, porque o sabão e xampu já coçavam o corpo todo… Os dois dividiram o meio balde de água. Não havia muito que fazer.

A turma toda com fome e a ração de Aladin estava acabando. O cãozinho, de bege, estava marrom de sujeira. O jeito seria lavar somente os pés e dormir sujos mesmo. Ou ficariam sem comida. Já passava das 23 horas. Apenas Alex e Flávia de “banho tcheco”, o restante da família, bem sujinha.

Era uma falação sem tamanho. Todos querendo dar uma opinião até que Fernanda, esposa de Alex gritou:

– Chega! Eu vou matar quem está me matando!

Silêncio geral.

– What? – Perguntou o Paul.

– É a fome! Ela que tá me matando. Durmo breiada de lama, mas de barriga vazia, nunca!

– Num é que é verdade? – Gargalhou Ricardo.

– Viram só? Se eu não tivesse a brilhante ideia de comprar os talheres, como iríamos fazer? – Sem água p’ra tomar banho e para lavar vasilha… Desabafou Cassiano.

– Eita boca maldita, menino. Não custava um dólar ficar calado. – Flávia deu um peteleco na orelha do sobrinho.

– Vocês vão comer ou não? Eu vou fazer uma gororoba p’ra mim. Fico sem banho e daí? Um dia só!.. – A fome ali falou mais alto. A turma havia almoçado às 13 horas e já passava das 23, todos sem ao menos um lanche.

Fizeram uma baita macarronada à bolonhesa. Terminaram a janta depois das duas da madrugada. Combinaram que a água mineral iria lavar somente os pés, nem para o banho tcheco tinha mais. As três irmãs se lembram do tempo em que moravam na roça, com falta de luz e água, o banho às vezes era de “tcheco” mesmo.

Os dois pacotes de lenço umedecido que Flávia sempre leva nas viagens, ajudaram “nas partes”… Mas ainda faltou lencinho para tanta lama nos pés, nem todos lavados com a água mineral…

Quem quisesse líquido, ia beber refrigerante, suco ou cerveja.

E a turma foi se deitar, cada um do jeito que pôde. Espalharam-se pelos colchonetes no quarto e na sala. As irmãs Flávia, Alice e Fernanda disputaram a cama de casal na porrinha, um joguinho da época de infância. Venceu Alice, mãe de Cassiano.

Rezaram um “Pai Nosso”, agradecendo novamente a Deus por terem um teto para dormir e por todos os que perderam a vida nas enchentes, bem como os desabrigados das chuvas…

A segunda-feira seria mais um dia de espera. Quem sabe poderiam retornar em paz cada um para sua casa? Certamente, Flávia, Paul e Charlie terão muita estória para contar aos amigos americanos. Foram as férias mais inusitadas de suas vidas ainda mais nesses tempos de pandemia da Covid-19.

Juliana Fernandes Gontijo é jornalista por formação e atriz. Apaixonada pela língua portuguesa e cultura de maneira geral, tem bastante preocupação com sustentabilidade e o destino do lixo produzido no planeta.