ESPAÇO INTERNO - Cuidado! Sua rede social corporativa pode ser seu pior inimigo.

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Uma grande amiga (que não identificarei por questões éticas), gerente de comunicação de uma empresa no segmento de engenharia (que não nomearei por motivos óbvios), me ligou esses dias pois estava super-angustiada. Queria conversar comigo a respeito de uma situação que enfrentava no trabalho e não sabia como resolver.

O que aconteceu é que ela passou meses lutando para implementar uma rede social corporativa, pois acreditava que iria resolver pelo menos 90% das questões de comunicação interna que afetavam muitos processos e que muitas vezes poderiam ser solucionados de maneira mais rápida se houvesse um canal eficiente que sanasse essa dor.

Depois de muitas reuniões com sua diretoria, noites adentro finalizando apresentações para justificar a implementação do projeto – e o consequente investimento no mesmo -, e muita ansiedade, ela percebeu que a plataforma agora estava se tornando um pesadelo. O motivo? Muitos colaboradores estavam fazendo da rede, interna, um canal para lamentações e lavagem de roupa suja, ou seja, não entenderam o propósito da ferramenta como um canal único de concentração de demandas mais simples. E isso já estava ficando fora de controle.

Só para se ter uma ideia, ela relatou que postou no mural geral (o que conhecemos como feed) que estava buscando alguém com uma história de virada de estilo de vida após viver algo terrível em sua vida. Ela queria transformar a história em gancho para falar do descobrimento de força interior e de quantas possibilidades temos com as adversidades, e como elas nos ensinam mais quando estamos dispostos a aprender. A partir disso, usaria a temática para falar ‘do setembro amarelo’ e da importância de se conversar com alguém quando nos sentimos angustiados, com problemas, achando que não vamos suportar. Pois bem, um funcionário se prontificou a contar sua história pessoal de quando resolveu contar para a família (pais e irmãos), que era gay e que já namorava (escondido) uma pessoa há quase dois anos, com medo da reação deles.

Mas, qual a questão aí? Quantas pessoas passam por isso? A questão é que o tal funcionário namorava o irmão de uma das secretárias da presidência e a menina, por vergonha, nunca havia falado para ninguém sobre o assunto. Na verdade, ela mal falava com ele dentro da empresa, não fazia fotos e muito menos usava as redes sociais junto ao casal. Mas, como souberam que eles tinham essa ligação? O funcionário, que não tinha mais medo de se expor, pois sua família havia recebido a notícia com muita compreensão e empatia, resolveu publicar – na rede da empresa -, a foto do parceiro. E aí, começou o problema. A menina, que nunca havia se pronunciado, usou a mesma rede para desabafar e contar o quanto ela se sentia frustrada em saber que seu único irmão jamais daria aos pais dela um neto de uma relação heterossexual, e que, mesmo sabendo que o ‘cunhado’ era uma pessoa bacana, isso não mudava a decepção sobre a ruína do sonho de um casal que não veria seu filho homem ter seu próprio filho com uma mulher.

A partir daí, a rede foi invadida por mensagens dos outros funcionários, posicionando-se ora a favor da menina, ora contra. E a minha amada amiga, coitada, sendo massacrada pela diretoria, pois foi a idealizadora do projeto inovador naquela empresa…

Esta é uma situação que muitas empresas enfrentam hoje – receio em implementar as redes sociais corporativas por entenderem que muitas pessoas podem perder o limite ali dentro. E isso é mais comum do que imaginamos. Recebemos as redes sociais como uma espécie de carta de alforria para nossos pensamentos e posicionamentos em relação a qualquer assunto. Todo mundo hoje tem voz quando acessa uma rede através de seu smartphone, tablet ou laptop. Atrás da telinha ganhamos força interior e coragem para despejar nossas ideias sobre tudo o que vemos no mundo. Queremos falar, mas não pensamos, muitas vezes, nas consequências. É como ganhar na loteria e gastar o dinheiro de maneira descontrolada, achando que nunca vai acabar. A má notícia é que o dinheiro acaba, sim, e você volta à sua antiga realidade de dívidas por ser exclusivamente o criador daquela situação. Assim é nas redes sociais: lançamos nossos posts e comentários e, quando algo negativo sobre eles se desdobra, podemos colocar em risco imagem e reputação que levam uma vida inteira sendo construídas e chanceladas pelas pessoas ao nosso redor. O que fazer a partir de então?

Voltando à minha amiga; a primeira coisa que perguntei a ela, foi ‘vocês não criaram um manual de ética para uso das redes?’. Acredite. Ela e a equipe ficaram tão imersos na parte operacional do projeto, nas funcionalidades, layout, estratégias de divulgação, que não pensaram no item mais importante, em minha opinião. Na verdade, acredito, e disse isso a ela, que o manual deveria ser escrito antes mesmo de apresentarem a ideia inicial, ou seja, a rede em si. Como é possível dar uma ferramenta desse tamanho para mais de mil e duzentas pessoas e não educá-las no modo correto de usar? Não é censura, não é tirania, é uma conduta fundamental nos dias de hoje.

Infelizmente, ainda usamos as redes sociais de maneira imatura e isso, claro, será levado para qualquer lugar onde formos, inclusive o nosso ambiente de trabalho. Dessa forma, educar as pessoas sobre o uso de uma plataforma corporativa é, antes de tudo, um serviço relevante. Ganha a empresa e, principalmente, ganham os funcionários – quando usam a tecnologia para assuntos estritamente profissionais.

A nova revolução tecnológica é, na minha visão, um dos momentos mais sensacionais que a raça humana está vivendo. Nunca estivemos tão envolvidos e tão rodeados de possibilidades capazes de nos levar a lugares e situações inimagináveis até há pouco tempo. Um click, um comando de voz, uma simples biometria, e temos o mundo ao nosso alcance. Isso é incrível, e estamos apenas começando. Somos ainda imaturos dentro desse universo e, assim como qualquer criança, temos muito o que caminhar, cair e recomeçar, até ajustarmos o tom. Assim é o processo de rede social corporativa. Um caminho de grandes avanços em nome de uma comunicação mais ágil e linear. Mas para exercer essa liberdade de expressão no campo virtual é preciso tratar, antes, de reputação, posicionamento e bom senso.

Isabel Ferraro é jornalista com expertise em comunicação empresarial, conteúdo on e off-line, e gerenciamento de marca pessoal em redes sociais. Sócia-diretora da Essenzia Comunicação, empreendedora e mãe do João Pedro e do Gui.

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