Corro do perigo que escorre de mim. Por Renata Quiroga.

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Água-Viva é um animal invertebrado, habitante de quase todos os oceanos do planeta. Envolvido em bastante polêmica, o tema suicídio possui alta complexidade convocando pesquisadores para ampla reflexão sobre diversas perspectivas que expliquem a prática suicida.

Quando o ato de viver torna-se mais sacrificante que o de morrer? Como identificar um comportamento iminentemente suicida em alguém próximo a mim? Como ajudar uma pessoa com potencial de autodestruição? As frequentes perguntas que permeiam a questão do suicídio podem ficar desacompanhadas de respostas em função da força que o tabu possui em silenciá-las.

Por não haver um único fator responsável pelo suicídio, troca-se o termo causa por culminância, ou seja, a soma dos fatores familiares, sociais e psicológicos pode gerar o resultado de eliminação da vida. Entre os aspectos citados, destaca-se a influência da pressão social sobre o indivíduo, a necessidade de inclusão em diversos grupos em que vive e suas possíveis frustrações.

Diante de tanta diversidade de comportamentos, as regras sociais passam a exercer papel fundamental na constituição pessoal, de forma que a permanência desse indivíduo em seu ambiente comunitário passa a ser confundida com a conservação de sua própria vida. O suicídio também é um ato de linguagem que se destina a comunicar algo sobre a própria morte àqueles com quem convivemos nas redes sociais de relacionamento.

De acordo com números oficiais fornecidos pela Organização Mundial de Saúde, o Brasil encontra-se em 8o. lugar no ranking de países com maior número de eventos suicidas. A estatística mostra taxas superiores aos falecimentos por AIDS e diversos tipos de câncer. Ainda segundo a OMS, 9 entre 10 casos de morte suicida poderiam ser evitados, o que faz abrir uma janela por onde a solidariedade pode entrar de forma eficaz nesse cenário.

Entre tantas outras formas de esforço de prevenção do suicídio, o Centro de Valorização da Vida, em parceria com o Conselho Federal de Medicina e a Associação Brasileira de Psiquiatria, iniciou, em 2015, as primeiras atividades da campanha Setembro Amarelo no Brasil. O objetivo da ação – que utiliza o site www.setembroamarelo.org.br – é levar à população a conscientização da importância da prevenção do suicídio e suas formas de atuação, frente à realidade dos altos índices de ocorrência no Brasil e no mundo.

Imaginar que alguém próximo a você possa ser candidato ao suicídio é uma vivência extremamente difícil, acompanhada de intensa dor psíquica. Perceber que algo diferente está se processando dentro de seu próprio círculo de convivência exige a cautela e a disponibilidade que poucas vezes temos. A aceleração do ritmo e a grande quantidade de tarefas que a atualidade impõe, muitas vezes roubam a atenção das pessoas para o ocorrência dos sintomas que as avizinham.

A ideação suicida é revestida de grande ambivalência, pois a pessoa recorre à morte como rota de fuga do sofrimento e, ao mesmo tempo, sinaliza seu clamor por socorro. Um dos traços marcantes da contemporaneidade é a velocidade herdada da eficiência tecnológica que produz o fenômeno do imediatismo e facilita atitudes precipitadas.

Multifacetado, o mundo opaco do suicida está na fome do desempregado; no abandono do desamparado; na vulnerabilidade do morador de rua; na ideologia do homem-bomba; na crueldade do bullying; na solidão acompanhada da adolescência e seus sites de recrutamento à morte, na anestesia dos entorpecentes, na essência do ser humano.

O pensamento suicida não pertence ao suicida, pertence a todos nós, seres humanos. Uma das formas de engajamento na luta contra o suicídio é identificar-se no outro, para haver capacidade de colaboração no momento da desesperança, quando o repertório de tentativas foi limitado pela mente em conflito.

A sociedade promove ações como o Setembro Amarelo no sentido de aproveitar este momento decisivo. As famílias e os amigos podem buscar o caminho inverso do afrouxamento das relações para reinventar o espaço do diálogo, do olhar cuidadoso pelo próximo.

A turbulência que acompanha os bebês em seu vôo de chegada à vida os coloca pouco animados com a existência proposta. Contudo, a assistência de bordo recebida de seus cuidadores os faz pensar melhor na sedução pela vida.

Uma obra, por não nascer sozinha, precisa de seu autor influência para continuá-la. A Água-Viva de Clarice Lispector inspirou seu grande fã Cazuza a escrever sobre a paz antes da morte, em sua famosa canção ‘Que o Deus Venha’.

A relação com o mundo externo, muitas vezes, traz exigências tão penosas que o ato suicida torna-se irrevogável. Porém, é também no outro e com o outro que se pode encontrar o prazer transformador do fazer viver, no resgate de sua própria trajetória.

Clarice e Cazuza reeditam nosso projeto-piloto da mãe e seu bebê na relação intertextual entre música e escrita. O perigo dos mares mostra a excitante experiência de nadar e sobreviver à água-vida que queima e, ao mesmo tempo, nutre, sublima e faz poesia.

Renata Quiroga é psicanalista, coordenadora de Serviço Social, Psicologia, Psicanálise e Psicopedagogia – PSFP.