Copa do Mundo não escala, mas as crises já vestiram as camisas. Por Andrea Nakane.

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Apesar de não ter sido até então muito alardeado, o fato é que nesse ano tem Copa do Mundo. Esse megaevento, que de quatro em quatro anos movimenta o mundo futebolístico e faz a economia de muitos acelerar, em 2022 está ainda sumido do radar dos brasileiros e também das organizações empresariais.

Serão 64 jogos entre 32 seleções nacionais classificadas, que atraem a atenção de cerca de 3 bilhões de pessoas, quase a metade da população mundial e, nessa edição, o destino-sede será o Qatar, um dos mais ricos países do Oriente Médio.

E nem começou, mas a Copa do Mundo de 2022 já está sendo marcada por uma série de episódios inéditos. Nunca antes, o Mundial foi disputado em novembro e dezembro – a mudança ocorreu para evitar o forte calor de junho e julho na região.

Também será a primeira Copa no Oriente Médio e a “menor” edição do Mundial, já que a maior distância entre estádios é de cerca de 70 quilômetros, o que foi saudado por preparadores físicos e treinadores por evitar o desgaste de viagens de avião entre os jogos.

Outro ponto específico que está no epicentro das atenções e é alvo de muitas inquietações é a segurança para as pessoas LGBTQIA+. No país, ser de qualquer outra orientação ou identidade de gênero do que cis hétero é crime, podendo levar a pessoa à prisão por até sete anos. Além disso, as demonstrações de afeto em público são proibidas no Qatar, assim como levantar bandeiras do movimento LGBTQIA+ ou fazer qualquer tipo de protesto durante a Copa do Mundo está proibido, sendo passível a aplicação de penalidades. Segundo o Código Penal da nação, caso relações homoafetivas sejam demonstradas por homens ou mulheres em público há previsão de ter até apedrejamento.

Sem dúvida alguma, esta é uma variável que já expõe a necessidade de um trabalho preventivo de gestão de crises por parte de todos os envolvidos. A hospitalidade do anfitrião corre o risco de tornar-se hostilidade com os visitantes, mesmo o país anunciando que todos serão muito bem-vindos.

Difícil será conseguir acomodações no local. Existe uma grande dificuldade por parte dos torcedores de encontrar hospedagens no Qatar. Para reservar um hotel, é necessário ter ingressos para jogos da Copa do Mundo. Todavia, os preços estão bem elevados e a disponibilidade bem abaixo do que foi ofertado nos últimos Mundiais. É esperado mais de 1,2 milhão de turistas no Qatar durante a Copa – e isso equivale a 40% da população do país, o menor a receber uma edição da Copa do Mundo.

Existem grupos de torcedores, especialmente da Europa e com um poder aquisitivo mais abastado, que estão considerando viajar para o Qatar apenas para ver jogos específicos e depois deixar o país para se hospedar em locais próximos, como Dubai, nos Emirados Árabes – o que prejudicaria todo o investimento do país-sede para atrair a atenção dos turistas e assim girar a engrenagem econômica.

Trazendo a atividade para a realidade corporativa, é muito tradicional que, em ano de Copa do Mundo, as empresas busquem atrelar suas atividades comunicacionais e até mesmo de treinamento de recursos humanos ao espírito que emerge do evento, visando ampliar engajamento e visibilidade.

Concretamente, o maior estardalhaço já sentido com o evento e que geralmente se repete todos os anos de Copa do Mundo foi o lançamento do álbum de figurinhas do evento.

O mesmo já causou até mesmo uma desordem de cunho econômico no país vizinho, a Argentina, fazendo com que o governo intermediasse conversas entre o sindicato de quiosques e bancas do país com a editora Panini, fabricante oficial do álbum da Copa do Mundo, para juntos buscarem uma solução para o sumiço – no país – das figurinhas  do mundial de futebol, gerando muitas reclamações e revolta, o que fez com que um pacote das mesmas fosse vendido no mercado paralelo por um valor exorbitante.

O preço oficial sugerido pela empresa é de 150 pesos por pacote com 5 figurinhas (o equivalente a 5,35 reais) e, com a oferta afetada, há pacotinhos anunciados a 750 pesos (cerca de 26 reais). No Brasil, o pacote custa 4 reais. E para completar o álbum são necessários 670 cromos.

E essa onda de coleção, que chegou por aqui, no Brasil, em agosto passado, fez com que alguns estabelecimentos como shopping centers, bares e até centros culturais, abrissem espaços para verdadeiros points de troca-troca de figurinhas, já que essa é a maneira mais econômica de completar a coleção. E, para os locais, seu ganho é justamente no fluxo de visitantes e possíveis consumidores.

Mesmo em uma situação mais favorável se comparada com a escassez observada na Argentina, a Panini – por aqui -, na tentativa de evitar perdas e insatisfações para os indivíduos interessados em adquirir os produtos no auge de popularidade, agiu e buscou parcerias comerciais com grandes varejistas nacionais que ficaram responsáveis por oferecer alternativas aos seus clientes. Mais de 90 grandes nomes do segmento estão engajados na empreitada, como Magazine Luiza, Lojas Americanas, Amazon e Livraria Leitura. E, apesar de tudo, “desabastecimento de cromos” é notado em diversos pontos do país, o que impacta negativamente a imagem da editora.

O uso do verde e amarelo também ainda está bem tímido, se comparado a edições anteriores, em função da apropriação das cores-símbolo do país por uma parcela ideológica da população, o que tem feito que camisetas de outras cores surjam para evitar a associação política. Muitas pessoas já até pensam em adquirir peças com colorações diferentes, como o azul-marinho e até o pink para não serem confundidos.

A aposta maior é que após o pleito eleitoral de outubro, a cabeça do brasileiro direcione-se para o evento, até porque sem o famoso polvo Paul, que faleceu em 2010 e ficou conhecido por acertar os resultados da Seleção Alemã no Mundial de 2010, na África do Sul, o Google já está estimulando o fervor tupiniquim e tentando substituir o molusco na arte das previsões.

O Google agora tem uma espécie de serviço sensitivo, já que em sua plataforma de busca ao consultar pelo nome Lusail Iconic – um dos estádios que sediará jogos da Copa – foi identificado nos últimos dias um evento curioso; a partida entre as seleções brasileira e francesa no dia da final do torneio em 18 de dezembro.

É claro que, a princípio, tudo não passou de um erro do Google, já que, embora o duelo seja possível devido aos chaveamentos, não há como prever quem serão os finalistas da Copa. Mas a ocorrência não passou desapercebida nas redes sociais, uma vez que os internautas se aproveitaram da falha da big tech para alimentar as esperanças rumo ao hexa, com a geração de muitos memes sobre o assunto.

Enfim… a Copa do Mundo nem começou… mas os problemas… já estão aí!

Andrea Nakane é bacharel em Comunicação Social, com habilitação em Relações Públicas. Possui especialização em Marketing (ESPM-Rio), em Educação do Ensino Superior (Universidade Anhembi-Morumbi), em Administração e Organização de Eventos (Senac-SP), e Planejamento, Implementação e Gestão da Educação a Distância (UFF). É mestre Hospitalidade pela Universidade Anhembi-Morumbi e doutora em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo, com tese focada no ambiente dos eventos de entretenimento ao vivo, construção e gestão de marcas. Registro profissional 3260 / Conrerp2 – São Paulo e Paraná.