CONEXÃO CABO VERDE - Comunicação, redes sociais e Covid-19. Por Suzel Cruz.

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O título pode parecer cliché em tempo de pandemia. O tema já é bastante ‘teclado’, logo há um risco de o assunto se tornar cansativo. Mas, é uma reflexão inevitável e necessária na atual conjuntura mundial, a pandemia de Covid-19 que estamos a enfrentar.

Um inimigo invisível infiltrou na nossa casa, na nossa cidade, no nosso planeta. O novo coronavírus veio, como um rastilho de pólvora, desde da China, espalhando medo e pânico a todos os cantos do mundo. Ninguém esperava. Não houve estudos, nem pesquisas visionárias que prevenissem os governantes. Ninguém estava preparado. Bateu a nossa porta num ‘toc-toc’ assustador, que deu lugar a um silêncio ensurdecedor.

As primeiras comunicações soavam como ‘arruma as tuas coisas, no caminho explico-te’. Não houve tempo para constituir gabinetes de crise pomposos, nem editar ou rever discursos, não houve tempo para escolha ponderada dos canais de comunicação, muito menos alinhar a estratégia de comunicação à atual conjuntura. Mas, esses passos eram precisos. O repto aos profissionais de comunicação (assessores de comunicação e relações-públicas) consistia em percorrer, em tempo record, o caminho que antes era pautado por maior tempo de planeamento e ponderação, nos mínimos detalhes, respeitando sempre as regras éticas profissionais deste campo.

A Covid-19 desafiou tudo e todos. O mundo clamava por respostas. A mensagem chegou: fique em casa! Simples de mais para sociedades ocidentais aceleradas e tecnologicamente evoluídas. Confuso de mais para sociedades ditas subdesenvolvidas, onde o significado da palavra ‘casa’ é, ainda, uma utopia. Completamente inesperado e imprevisível em qualquer um dos casos. Independentemente do sentimento despertado pela mensagem, a ordem expressa deve ser rigorosamente cumprida, sob pena de colocar a sua e a vida de todos em risco.

A mensagem, as medidas restritivas adotadas, a imprevisibilidade, o curto espaço de tempo para reagir e a clara ameaça à existência humana remete-nos para uma evidente circunstância de comunicação de crise, que a Covid-19 incumbiu a todas as organizações, governos e comunidades.

Como comunicar face à pandemia? O delinear de uma estratégia de comunicação de crise começa na correta identificação da dificuldade a superar. Compreender o momento de crise, os seus parâmetros e origens é o primeiro passo para sua superação. Gerir uma crise gigante, como é o caso da Covid-19, por meio da comunicação, requer atitudes comunicacionais inteligentes, estratégicas e criativas.

A orientação imperativa de ficar em casa, transmitida pelos profissionais de saúde, é seguida da necessidade de contínua comunicação e contato permanente. Não só para acompanhamento e orientação da nossa conduta preventiva perante o vírus, como para atualização de informação sobre o evoluir da pandemia e também para a necessário ajuste nas nossas relações sociais e profissionais. Ficar em casa não poderia significar parar. Isto seria a ruína de todos. É preciso fazer tudo (ou quase tudo) a partir de casa: o trabalho, a escola das crianças, as compras do supermercado, as contas para pagar e demais tarefas do quotidiano.

As redes sociais / plataformas digitais ganharam uma nova fisionomia, passando de vilão desintegrador a ator principal agregador na saga Covid-19. O meio digital passou a ser o principal canal de comunicação entre famílias, comunidades, organizações e governos. A interatividade e a multidireccionalidade são características deste meio, que permite aos intervenientes a criação de um mundo virtual de relacionamentos interativos e interruptos.

Os momentos de crise devem ser observados com otimismo, ainda que seja difícil perante cenário catastrófico. A conversão das dificuldades em oportunidades deve ser a base no alinhamento das estratégias governamentais no pós-Covid-19.

A pandemia mundial obrigará a uma mudança total de paradigma na comunicação e a maneira de sentir e estar em sociedade. A demanda da comunicação de massa, a comunicação digital e a instantaneidade das comunicações interpelam a procura e a intensificação da inovação em todos os domínios. Mas, também, o período é propício à busca de suportes e regresso às nossas raízes.

Num mundo cada vez mais global e globalizante, onde comunicar é imperativo, onde a ‘não-comunicação’ também é comunicação, a gestão da comunicação ocupará um lugar central nas organizações do séc. XXI. O tratamento da informação, a persuasão e a rápida adaptação a diferentes contextos serão os elementos chave na conquista dos públicos e dos mercados.

Suzel Cruz é professora no curso de Licenciatura em Relações Públicas e Secretariado Executivo da Escola de Negócios e Governação, unidade orgânica da Universidade de Cabo Verde, Campus do Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde. Mestre em Turismo Património e Desenvolvimento (ISMAI, 2012), pós-graduada em Assessoria e Consultoria de Comunicação e Marketing (ESJ, 2010), licenciada em Relações Públicas (ISMAI, 2009). E-mails: suzel.cruz@docente.unicv.edu.cv; suzel.crz@gmail.com