COMUNICANDO O QUE IMPORTA - Sobre empresas, marcas e sociedade. Por Mariah Guedes.

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Na coluna anterior, iniciamos nossa conversa sobre temas como “Marcas, Diversidade & Inclusão”. Esse é o título de uma das aulas particulares que ministro e que se relaciona com as atribuições que as marcas assumem na contemporaneidade. Desde então, vi algumas postagens em redes sociais digitais criticando a procura de exercer o propósito pessoal no mundo corporativo, e reforçando o papel das empresas como entes meramente interessados no retorno aos acionistas. Ainda que os posts não tenham sido em resposta direta ao meu texto, acho importante a gente se envolver no debate (#senti…).

A procura por um sentido na vida é inerente aos seres humanos. Essa é uma discussão filosófica que tangencia a noção de que precisamos ter um propósito. Uma justificativa, um motivo ou um porquê que nos guie em nossas jornadas, e/ou explique as escolhas que fazemos. Do contrário, podemos sentir um vazio existencial gigantesco – a ser preenchido pelo consumo inconsciente.

Então, como conscientizá-lo? Em um cenário hipotético, vamos pensar no seguinte: duas empresas de porte idêntico abrem processos seletivos de contratação para uma determinada vaga. Ambas oferecem os mesmos salários, os mesmos pacotes de vantagens, os mesmos planos de carreiras. Entretanto, enquanto a empresa A não tem nenhum diferencial social (restringindo-se aos cumprimentos legais e regulatórios), a empresa B é uma organização interessada em impactar de forma positiva a sociedade, para além de questões de imagem e de reputação. Essa empresa B tem como uma de suas metas o desenvolvimento sustentável, atuando de forma propositiva para a proteção do meio ambiente. É somente a empresa B que possui um programa de retenção de talentos diversos, com o corpo diretor sendo paritário em questões de gênero e raça. Também é apenas a empresa B que realiza ações de mitigação de danos às comunidades do entorno onde ela está inserida. Ainda, é a empresa B que investe em ações e causas de interesse público – além de representar “pessoas reais” em suas campanhas publicitárias e institucionais.

Pelo menos para mim, fica fácil escolher. Isso porque nem foi destacado que a empresa B continua dando os mesmos lucros que a empresa A, tendo seus compromissos acionários e outras preocupações financeiras que movimentam o mercado. Mas ela compreende a expansão da sua função social e se posiciona. Por isso que empresas deste tipo buscam a Certificação “B”, emitida para aquelas corporações que, facultativamente, se envolvem no cumprimento das mais elevadas normas de desempenho, responsabilidade e transparência, beneficiando a sociedade.

E se você é uma pessoa que pode alinhar sua determinação pessoal ao seu exercício profissional (*), por que não unir propósito e trabalho? Afinal, a empresa B faz mais sentido para você – o que estimula a sua sensação de pertencimento nesta organização, já que você estará perto daquilo em que você acredita. Isto é um ponto extremamente importante, pois a revisão do capitalismo para sua versão “mais consciente” passa por aí.

Bem, as linhas de hoje foram mais um desabafo sobre gestão do que sobre o ofício da comunicação… mas espero que as achem tão relevantes quanto as demais. De qualquer forma, atendendo a demandas advindas das redes sociais (“após ler em meu Face…”), ainda em fevereiro trarei uma coluna sobre a comunicação das marcas no metaverso, tema que citei muito brevemente no meu primeiro texto aqui. Continuem sugerindo tópicos. Até quarta que vem.

(*) Com uma taxa de desemprego de aproximadamente 13% (a 4a. maior do mundo), o Brasil vive atualmente num contexto de sobrevivência (a maior parte da população brasileira já se encontra, por exemplo, em situação de insegurança alimentar: 117 milhões de pessoas). Este tipo de situação insustentável obviamente reflete no processo de busca por trabalho, não dando espaço para a “escolha” de vagas ou de empresas. Entretanto, se você está em um patamar da sua vida que te permite (ao menos) a reflexão, minha sugestão é para que você não tente se esquivar dela – a não ser que sua intenção seja essa.

Mariah Guedes é mestra em Comunicação & Cultura, leitora ávida, canhota, macaense e queer. Acompanhe sua trajetória acadêmico-profissional em https://br.linkedin.com/in/mariahguedes.