COMUNICAÇÃO ACESSÍVEL E SEM FRONTEIRAS - São muitas as palavras e expressões que já não cabem mais no discurso contemporâneo. Por Bruna Ramos da Fonte.

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A minha vida profissional começou logo no início da adolescência, quando passei a trabalhar com a minha mãe que é uma tradutora bastante conhecida e respeitada, com quem sempre aprendi tanto. Entre as mais diversas etapas que compõem o serviço de tradução, uma das mais interessantes para mim sempre foi o estudo do vocabulário de cada empresa para a qual prestamos serviço de tradução técnica. Existem muitas maneiras de expressar uma mesma ideia e diversos nomes possíveis para um mesmo produto ou serviço, o que confere a cada organização a liberdade de adotar aqueles termos mais adequados à realidade do núcleo em que está inserida para que a sua comunicação seja acessível para funcionários, fornecedores e clientes. Devido à diversidade de realidades regionais que existe dentro de um mesmo país, também é bastante comum que uma mesma empresa adote vocabulários distintos a fim de dialogar com clientes de diferentes praças. Quer ver? Uma mesma indústria alimentícia que fabrica e comercializa pães congelados, de acordo com a abrangência do seu plano de vendas pode optar por nomear o seu produto de maneiras distintas, visto que o nosso pão francês de São Paulo se chama “pão carioquinha” no Ceará ou “pão cacetinho” no Rio Grande do Sul. Essa mesma lógica se aplica aos mais variados segmentos, então, antes de iniciarmos um serviço, sempre tivemos a preocupação de compreender as particularidades do vocabulário de cada empresa a fim de adotá-las na tradução, pois a utilização de palavras que não estejam em consonância com o vocabulário próprio da organização pode dificultar a compreensão que o cliente terá sobre determinado produto ou serviço, atrapalhando a sua oferta. Considerando também que, palavras que são neutras em determinados lugares podem ser uma ofensa em outros, em casos mais extremos, a escolha errada de palavras pode ofender minorias, criar polêmicas e gerar um boicote àquela empresa – o que explica a razão de muitos produtos precisarem ser renomeados quando exportados para outros países.

Por esta razão, antes mesmo de me tornar a escritora que sou, já convivia diariamente com as palavras, o que fez com que, desde cedo, tivesse dimensão do peso e do poder que elas exercem nas nossas vidas. Observe que cada núcleo social, religioso ou cultural também tem o seu próprio vocabulário e, para bom observador, o emprego de um determinado conjunto de palavras oferece pistas claras sobre o indivíduo e sobre os grupos aos quais ele está conectado. Pense bem: quantos vocabulários distintos convivem lado a lado dentro de uma única cidade? Ao mesmo tempo, como a nossa língua é mutante e se transforma com o passar dos anos, basta comparar a linguagem de um livro escrito nos dias de hoje com a de uma obra escrita há dez, cinquenta ou cem anos para observar a quantidade de mudanças que o idioma é capaz de sofrer como uma consequência das transformações ocorridas no pensamento da nossa sociedade – visto que palavras são escolhidas pelo autor de acordo com o seu contexto. Sendo assim, podemos admitir que um texto pode ser uma valiosa transcrição do seu tempo.

Sozinhas, palavras não têm valor algum: elas só adquirem este valor quando acompanhadas de uma ideia capaz de conferir sentido aquele agrupamento de letras. Portanto, é preciso ter consciência que os discursos aos quais estamos o tempo inteiro expostos carregam em si palavras que nunca são usadas em vão, mas sim com o intuito de reforçar, defender, rejeitar ou normalizar um determinado pensamento. Quando repetidas de forma incansável, palavras se convertem em verdades inquestionáveis tão logo nos adaptamos à sua presença. Se não desenvolvemos a consciência do poder de manipulação que elas são capazes de exercer sobre quem as repete sem questionar, ficamos à mercê daqueles que, munidos desta percepção, delas se utilizam fazendo de nós vítimas fáceis daqueles discursos produzidos por líderes, políticos ou veículos de comunicação, por exemplo. Quando este poder é exercido de forma ampla e massiva, os resultados podem ser catastróficos, gerando prejuízos inestimáveis à humanidade, como é o caso da ideologia nazista.

Em seu livro “LTI: a linguagem do terceiro reich”, um dos maiores – senão o maior – estudo sobre a questão linguística no contexto do nazismo, o filólogo judeu alemão Victor Klemperer defende a ideia de que o nazismo somente teve condições de atingir as proporções que atingiu a partir do momento em que dominou a linguagem; afinal, quem domina a nossa fala e a forma como nos expressamos, inevitavelmente domina também a nossa forma de pensar e agir. Para ele, “o nazismo se embrenhou na carne e no sangue das massas por meio de palavras, expressões ou frases, impostas pela repetição, milhares de vezes, e aceitas mecanicamente”. Certas palavras se infiltram discretamente no nosso discurso e, sem perceber, adotamos um vocabulário sobre o qual nem sempre temos consciência daquilo que expressa. E quando o assunto é política, essa questão da palavra é bastante evidente: você consegue se lembrar das palavras mais populares em cada um dos governos que vivemos nas últimas décadas? Observe que cada um deles tinha o seu próprio vocabulário, pautado nos seus ideais, programas de governo e, principalmente, nos “inimigos” – reais ou não – que cada um se propôs a combater. Discurso este que, durante o período de propaganda política ou mesmo do próprio governo, é amplamente difundido através da propaganda, das artes e de quaisquer linguagens e plataformas que aquele líder ou partido tiver à disposição para transmitir a sua mensagem.

De tempos em tempos, é preciso que a humanidade reflita sobre o seu vocabulário, pois conforme o mundo se transforma, se faz necessário mensurar se o nosso vocabulário tem evoluído em consonância com os valores e conquistas do tempo presente. Uma reflexão que se torna ainda mais urgente nos dias de hoje, quando tantos direitos foram conquistados por grupos e minorias que durante tanto tempo viveram marginalizadas, é preciso repensar palavras que antigamente estavam alinhadas com o racismo, a homofobia e a xenofobia, por exemplo, já que são muitas as palavras e expressões que durante décadas fizeram parte da nossa cultura popular e que hoje já não cabem mais no contexto do mundo no qual vivemos. “Judiar”, “fazer nas coxas”, “denegrir”, “criado-mudo” são alguns exemplos que precisam urgentemente sair da nossa boca e do nosso vocabulário; são palavras que podem ser facilmente substituídas e eu tenho notado cada vez mais o movimento de pessoas, coletivos e instituições preocupados em difundir informações sobre estes termos que carregam em si o peso histórico da escravidão, da desigualdade, do preconceito e da exclusão.

Mesmo assim, ainda há um grupo de pessoas – muito maior do que eu gostaria de admitir – que, por falta de conhecimento, consciência ou empatia, ainda insiste em manter-se apegado a palavras e expressões que há muito deveriam ter sido riscadas das nossas vidas. É frequente ver nas redes sociais pessoas comentando sobre o assunto e dizendo o quanto esse mundo “politicamente correto” é chato por ter se tornado intolerante a uma série de palavras e expressões. Vejo também pessoas dizendo de forma saudosista que, nas suas épocas de infância, “todo mundo” chamava o negro de “negão” ou de “macaco” e que, mesmo assim, “todos eram amigos porque não havia maldade nesses apelidos”. Será mesmo? Se a gente perguntasse para essa criança negra como era ser inferiorizada e subjugada por esses “amigos” em razão da cor da sua pele, o que será que ela teria a dizer para nós? Cor de pele, gênero ou deficiências não são – e nunca foram – motivo ou desculpa para exclusão e zombaria.

Para gerações que logo nos primeiros anos de vida aprenderam a cantar “atirei o pau no gato” – uma letra que, embalada pela melodia bonitinha e grudenta que todo mundo conhece, incita a violência contra os animais –, pularam carnaval ao som de marchinhas homofóbicas como “Cabeleira do Zezé” e “Maria Sapatão” e foram educadas na escola pelas histórias racistas de um eugenista como Monteiro Lobato, pode ser realmente muito difícil compreender o peso que têm certas palavras e expressões. É por esta razão que é preciso pensar cada vez mais na forma como estamos nos comunicando com as crianças, pois é a cultura popular que a elas transmitimos uma das grandes responsáveis por formar o pensamento e as ações dos adultos do futuro. Não é possível desejar um amanhã melhor sem cancelar estes conteúdos que incitam a violência, a homofobia, o machismo, o racismo e a exclusão em geral.

Quando o assunto é Monteiro Lobato, há algum tempo estamos acompanhando a polêmica em relação às mudanças que a sua bisneta vem promovendo na obra do autor, a fim de excluir as passagens racistas e adaptar seus livros para o contexto de um mundo mais livre e inclusivo. Sou a favor da adaptação destas histórias, pois os valores da nossa sociedade estão se transformando e já não se pode mais plantar a semente do racismo e do preconceito no coração das crianças como acontecia em um passado recente. Quando se trata da obra de Lobato, penso que devemos deixar os textos originais restritos aos estudiosos para que possam refletir e produzir estudos sobre o contexto histórico no qual o seu discurso estava inserido. Aliás, esse tipo de estudo tem sido cada vez mais frequente, e são realizados a fim de chamar a atenção do público para passagens da nossa história passada que não deveriam jamais se repetir – como é o caso dos quadros produzidos pelo francês Paul Gauguin, que hoje são utilizados como vias para a educação e conscientização do público sobre aquele comportamento machista e pedófilo que está eternizado nos seus retratos como uma consequência da sua própria biografia.

Klemperer nos alertou um dia que “palavras podem ser como minúsculas doses de arsênico: são engolidas de maneira despercebida e aparentam ser inofensivas; passado um tempo, o efeito do veneno se faz notar”. Da mesma maneira, palavras também podem ser remédios, capazes de nos curar um pouco mais a cada novo dia. O comunicador não pode perder de vista o fato de que está nas suas mãos escolher entre compartilhar veneno ou remédio com as suas audiências – e as respectivas consequências e responsabilizações que cada uma dessas escolhas irá gerar tanto no âmbito pessoal quanto profissional. Ao mesmo tempo, como ouvintes que somos, precisamos constantemente refletir sobre as palavras que nos são dirigidas, deixando de lado este hábito de repetir sem antes questionar as intenções que embasam os discursos que chegam até nós. As palavras – e ideias boas ou ruins que elas representam – somente encontram espaço para germinar quando há permissão, seja ela concedida de forma consciente ou inconsciente pelo receptor.

Imagem da autora: “Um homem vende livros nas ruas de Havana (Cuba)”.

Bruna Ramos da Fonte é biógrafa, escritora, fotógrafa ensaísta, professora e palestrante. Especialista em Leitura e Produção Textual com Aperfeiçoamento em Psicanálise Clínica e MBA em Jornalismo Digital, é criadora da sua própria metodologia no campo da Escrita Terapêutica. É autora de diversos títulos, incluindo “Escrita Terapêutica: um caminho para a cura interior” (Letramento, 2021) e as biografias de Sidney Magal e Roberto Menescal. Visite: www.brfonte.com