COLOCA NA RODA - Negacionismo, transparência e deturpação da realidade: qual é o papel da comunicação? Por Bruna Martins.

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Neste mês, a Coloca na Roda demorou um pouco mais para sair. Por um lado, porque em meio às notícias que não param, filtrar as informações e refletir exige certa dedicação para não trazer à tona mais do mesmo.

Há momentos em que precisamos mais ouvir do que falar e assim, tentar contribuir. Que imaginário de sociedade estamos criando? Como saber o que é realidade e o que é ficção em tempos de negação, falácias e discursos carregados de ódio, mas vazios de sentido?

Em tempos nos quais transparência e compromisso com a sociedade é algo raro, às vezes faltam palavras para dizer o que já é dito nas entrelinhas, nas redes sociais e nas mazelas estampadas no rosto do povo brasileiro.

A transparência tem um valor real. Não só na imprensa, mas nas organizações da sociedade civil (OSCs), nas empresas, nos órgãos governamentais e nas relações, sejam elas pessoais ou profissionais. Negar a realidade, omitir, mentir, deturpar a realidade e contribuir para o silenciamento e apagamento histórico dos mais vulneráveis não é atitude digna de nenhum profissional de comunicação — tampouco de um ser humano.

Em pleno 2020 há quem levante bandeiras para dizer que Fake News não é crime. Em que realidade algumas pessoas vivem? De correntes em correntes do WhatsApp, chegamos ao patamar que estamos.

Percebemos que as vidas, abreviadas precocemente estão reduzidas às tristes estatísticas. E mesmo diante de tanta dor, omissão e discursos desencontrados, há quem ouse debochar da nossa desgraça, tirar do ar informações relevantes ou manipular o que é de domínio público. 

Cadê a história que diz que a comunicação é um direito humano?

Choramos por notícias tristes em outros países e negamos que existe uma realidade difícil em nossa própria terra.A digestão da realidade não é fácil. Para os profissionais que são como as ‘testemunhas oculares da história’, certamente é bem desafiador.

De um lado, médicos, enfermeiros, profissionais de limpeza e tantos outros na linha de frente em uma época que vai ficar marcada para história. De outro, quem registra. Quem dá a notícia e quem também sofre violência e silenciamento por simplesmente fazer o seu trabalho.

É difícil transformar toda essa complexidade em um artigo. Mas, estamos aqui para registrar as turbulências e refletir sobre esse momento. 

É curioso como grandes nomes da literatura como Aldous Huxley no clássico Admirável Mundo Novo conseguem ser tão visionários e à frente do seu tempo. 

O livro conta a história de uma sociedade ‘perfeita’, construída em cima de manipulação e desejos construídos. As pessoas são ‘felizes’ e amam a servidão. Quem questionava qualquer padrão, era considerado selvagem. Em uma passagem da obra, o seguinte trecho se destaca:

‘Um estado totalitário verdadeiramente eficiente seria aquele em que o executivo todo-poderoso de chefes políticos e seu exército de administradores controlassem uma população de escravos que não tivessem de ser coagidos porque amariam sua servidão’.

Por que essa analogia pode ser considerada atual? Porque enquanto nos depararmos com a falta de transparência e doses de felicidade enlatadas e não pararmos para refletir sobre nosso papel enquanto cidadãos e profissionais, estaremos compactuando com muita coisa.

Claro que a internet, a imprensa, os projetos jornalísticos —  sobretudo os investigativos —  estão contribuindo muito. Mas é inegável que estamos vivendo um clima de negação e figuras estão construindo imaginários sociais horríveis. 

E há quem grite, servindo cegamente, sem questionar. Há quem aplauda agressões contra jornalistas, contra profissionais de saúde e quem comemore a reabertura de shoppings centers. Afinal de contas, o que está acontecendo mesmo? O importante é manter o look em dia e fazer mais uma compra inútil em uma loja de departamento!

Enquanto escrevermos, nos comunicarmos, procurarmos compartilhar a verdade e ações de conscientização, não deixaremos que todas esses problemas sejam maiores. Coloca na Roda você também!

Bruna Martins Oliveira é jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, onde foi autora da monografia ‘O Transtorno Bipolar na perspectiva da mídia: uma análise do Paraná no Ar’. Atualmente é estudante do curso de pós-graduação em Marketing Digital: Negócios e Estratégias, pela PUC MINAS e trabalha como redatora e jornalista em alguns projetos. Tem experiência no jornalismo de rádio (Grupo Lumen de Comunicação) e trabalhou como repórter freelancer na Secretaria do Esporte e do Turismo do Paraná e no jornal Gazeta do Povo.

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