Carlos Brickmann no OCI, 04/01/2016.

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A triste noite que se foi.

Na minha frente, um presente magnífico (que espero colocar o mais breve possível a seu alcance, caro leitor): um DVD, com roteiro e entrevistas de um grande jornalista, José Maria Mayrink, dirigido por Camilo Tavares. Tema: a grande noite da censura militar à imprensa.

Pelo menos dois jornais, “O Estado de S.Paulo e “Jornal da Tarde”, se recusaram a aceitar a censura. Os censores impuseram então, militarmente, sua presença à redação. Havia um surto de meningite em São Paulo. Cada pessoa tinha de evitar ao máximo as aglomerações para reduzir o risco. Mas as notícias foram proibidas, impedindo que cada um tomasse suas precauções. O ministro da Agricultura deixou o Governo brigado com o da Fazenda. As notícias foram proibidas. Um censor, chamado Leonardo, temia ser ridicularizado em alguma notícia. O nome Leonardo foi proibido. O artista italiano passou a ser simplesmente Da Vinci. O PCdoB organizou uma guerrilha no Araguaia. As notícias foram proibidas. Quem fosse ao Araguaia (sem saber de nada) estava sujeito a prisão: afinal, que é que tinha ido fazer ali? Mas como saberia de algo se a notícia não era divulgada?

Voltemos ao presente. O impeachment de Dilma é absolutamente legal, bem embasado, depende apenas de decisões políticas. Quem o defende está dentro de seu direito. Mas intervenção militar é inaceitável. É ruim. Não dá certo. Este colunista viveu a ditadura. Viu o filme.

No final todos morrem.

Os bons tempos

Um avião militar voa regularmente de Brasília a Porto Alegre para buscar a boa carne gaúcha, essencial para os churrascos presidenciais. Esses petistas não tomam jeito? Não, não tomam. Mas este avião ia buscar a carne no Sul no regime militar. Diz-se hoje que na ditadura não havia roubalheira. Mas foi na ditadura que se consolidaram os penduricalhos para a turma lá de cima – as “mordomias”. Foram descritos, numa ótima série de Ricardo Kotscho no Estadão, pouco depois do fim da censura à imprensa.

Nos EUA, onde nunca houve regime militar, deputado não tem carro oficial, o Judiciário tem só um (para o presidente da Suprema Corte). Aqui, as mordomias continuam desde os tempos da ditadura.
Impeachment, para passar a limpo o país, tem de cuidar disso também. A ditadura não cuidou.

Nos dias de hoje

Os cartões corporativos da Presidência custaram, até novembro, R$ 56 milhões (faltam os números de dezembro). A maior parte dos gastos é sigilosa. O caro leitor, que paga a conta, não sabe em que o seu dinheiro é torrado. Até tapioca já foi paga com cartão corporativo.

Informam Suas Excelências que o sigilo é necessário para proteger a segurança do Estado.

Os bons ares de fora

Maurício Macri assumiu a Presidência da Argentina há menos de um mês. Já devolveu à Audi os carros alemães top de linha que eram usados pela antecessora Cristina Kirchner. Agora, só usará carros fabricados na Argentina. Mais ou menos como certos países onde a presidente desfila de Rolls-Royce. Qual a economia? Para um país do porte da Argentina, minúscula.

Mas fica o exemplo: dinheiro público não pode ser esbanjado.

Feliz Ano Novo!

O dólar fechou o ano custando 48% mais que em janeiro de 2015. Esta notícia não é obrigatoriamente ruim: o real mais barato pode estimular as exportações – embora os exportadores levem algum tempo para remontar a rede internacional de que precisam, e que foi desmontada por Dilma. Mas produtos importados sobem e atingem o orçamento doméstico (trigo, componentes de celulares e computadores, lâminas de barbear).

No Brasil, dizia o ministro Pedro Malan, até o passado é imprevisível. A economia até pode melhorar. Mas vale lembrar a época do milagre econômico: dizia-se que o milagre alemão se devia à pesquisa, à disciplina, à qualidade da mão de obra; o milagre asiático era consequência de muito trabalho, baixos salários, governos eficientes.

Já o milagre brasileiro era milagre mesmo.

O outro lado da crise

Sintoma preocupante da situação do país: um assíduo leitor desta coluna, depois de cruzar três Estados, no caminho de São Paulo para Rondônia, encontrou apenas três acampamentos do MST, todos pequenos, bem desmilinguidinhos, desprovidos até das bandeiras que faziam parte da paisagem. Em viagens anteriores, seguindo o mesmo caminho, havia dezenas de acampamentos, mais movimentados e cheios de bandeiras.

Dúvida: será que a crise atingiu até as finanças dos cumpanhêro?

Agora, vai!

O Congresso acaba de promulgar a Lei nº 13.233, contra a crise de falta d’água. A lei “obriga, nas hipóteses que especifica, a veiculação de mensagem de advertência sobre o risco de escassez e de incentivo ao consumo moderado de água”.

Como vivíamos sem esta lei?