Anitta, o 'VMA' e a representatividade. Por Raquel da Cruz.

Share Button

No último domingo de agosto (28), vimos a Anitta conquistar um feito inédito para o Brasil. Ela ganhou um VMA na categoria de Melhor Clipe de Música Latina.

Aliás, vale explicar que o VMA, Video Music Awards, é o principal prêmio concedido pela emissora estadunidense MTV e um marco nas premiações de música internacionalmente. Entre os anos 1980 e 2000, antes da era da internet e das mídias sociais, era uma das premiações mais populares justamente porque tentava incluir os fãs em um espetáculo feito para eles. Quando o acesso a celebridades era limitado, a MTV era o canal que trazia as primeiras notícias, as entrevistas exclusivas e entretinha os jovens adultos da época. Daí a importância histórica do prêmio e da vitória de Anitta.

O VMA era para um grupo seleto de gringos. Era inimaginável até muito pouco tempo que um brasileiro, ou uma brasileira, pudesse ser reconhecido com um prêmio desses. É como se o Brasil tivesse conquistado o Oscar de Melhor Filme. Esse é o tamanho da conquista. Algo que todo mundo achava completamente impossível se tornou possível pela determinação de uma cantora da periferia. Por mais que seja preciso levar em conta a pressão dos movimentos sociais dos últimos anos pela inclusão de minorias em produções e premiações do entretenimento, o mérito é de Anitta e sua equipe.

A essa altura muito já se falou sobre a formação dela. Que cursou Administração, que estudou a fundo o mercado internacional para projetar a sua carreira, que tinha um sonho e o transformou em plano… Mas, seu talento artístico ainda é muito questionado. Isto se deve por sua origem. Historicamente, há uma tentativa de se descredibilizar a cultura popular. Foi assim com o samba e é assim com o funk. Inclusive com processos de opressão e criminalização bem semelhantes. A arte tem o poder de dar voz a um povo e por isso as tentativas de tolher seus admiradores e criadores.

A arte também tem o poder de reunir uma série de signos que representam um determinado modo de vida. Assim, se a representação serve para empoderar, também serve para simbolizar aquilo que se quer odiar. Em um país como o Brasil, em que o preconceito é velado, é mais socialmente aceito dizer que não se gosta de funk, do que das pessoas que dão origem a ele. É daí que vem o recalque com Anitta. O fato dela ser uma mulher negra da periferia já é o suficiente para descredibilizar seu talento e suas conquistas, já é o suficiente para que a elite branca dominante se sinta insultada com a representatividade proposta pela cantora.

Assim, vai acontecendo uma série de inversões de valores. Ao invés de se celebrar a cultura brasileira ganhando visibilidade internacional, comenta-se sobre as decisões pessoais da artista, a roupa que ela usa, a exposição que faz de seu corpo e, inevitavelmente, suas escolhas políticas. A figura de Anitta tem sido usada para padronizar tudo aquilo que ameaça a manutenção da extrema direita. Se o pobre não pode viajar para os mesmo lugares que o rico, Anitta mostra que pode. Se mulheres precisam ser recatadas e cuidarem do lar, Anitta é lacradora e dona do próprio negócio. Se o negro precisa servir ao branco, Anitta está onde ela quiser.

Agora, não podemos esquecer que para chegar neste lugar ela precisou fazer diversas concessões. Precisou aprender sobre política e, em certos momentos, isso aconteceu depois de muito apanhar no online. Precisou produzir hits em espanhol para alcançar toda a América Latina. Precisou ter um discurso adequado, alinhado com tendências sociais, mas sobretudo, de mercado. Porque é assim que funciona para uma celebridade. É preciso que elas encontrem o meio termo entre o que querem defender e o que se pode vender. Nesse processo, Anitta teve que se embranquecer para caber, ou pelo menos embranquecer a imagem do Brasil no exterior. Para um retrato fiel é necessário diversidade, que mais artistas brasileiros, de variadas origens e histórias, possam estar onde ela está, possam mostrar a complexidade do País. Afinal, é assim que se constrói o tal do soft power.

Ter uma imagem nacional forte para o restante do mundo é importante pois funciona como uma moeda de troca para as mais diversas transações diplomáticas. Demonstrar que somos diversos culturalmente e que todos os saberes têm espaço traz credibilidade à nação. O estrangeiro passa a ter a garantia de que a democracia estará assegurada e, com ela, estabilidade para concretizar negócios e evitar conflitos. O primeiro passo para conquistar este tipo de vantagem é adquirir a admiração estrangeira por meio da empatia. A arte tem a potencialidade de construir este vínculo.

Voltando para o cenário interno, Anitta serve como um modelo de admiração e que deve ser idealizada até certo ponto, principalmente pelas crianças. Embora seja necessário explicar o contexto como um todo, a figura da cantora pode estimular a imaginação dos jovens no sentido de lutar por seus interesses. Quando vemos pessoas parecidas conosco alcançando lugares improváveis, criamos a esperança de que nós mesmos também podemos ocupar estes espaços. Isso é imprescindível para que não sejamos autodeterminados ao padrão X ou Y, mas para que consigamos saber quem somos, o que queremos e, assim, planejar nossos sonhos e realizá-los.

Anitta aprendeu na prática como se projetar. Depois de duras críticas contra sua imagem, conseguiu chegar em uma posição de alto destaque. Tão alto que desmerecer ou tentar diminuir seus feitos tira o mérito daqueles que os criticam. Ainda assim, a luta é incessante e todos os dias precisamos nos dar conta de que ela talvez nunca termine. Sempre haverá a necessidade de incluir o novo e o diferente. Nesse sentido, o VMA é apenas o começo.

Imagem: Pexels / Engin Akyurt

Raquel da Cruz é mestranda do PPGCOM / Unesp e bacharela em Comunicação Social – Relações Públicas pela UEL. Concluiu sua especialização pelo GESTCORP da ECA-USP. Tem interesse em assuntos que envolvem relações públicas, celebridades, fãs e letramento transmídia.