A violência discursiva, a violência oculta e a ética de grupo. Por Ana Paula Arendt.

Share Button

‘A justiça é cega / a injustiça cega’. Fred Maia, poeta e letrista brasileiro.

Sou uma mulher que busca manter a sanidade.

Recentemente me vi motivada a escrever para meus Filhos algo além dos Salmos, explico: no prelo uma coleção de sete volumes de 77 poemas, versos de autocomiseração esperançosa diante da realidade indiferente, uma herança de dignidade e da experiência do que vivi e testemunhei, a parte boa do que vejo. Um texto que pudesse ser relido posteriormente quando alcançassem a maturidade da busca, a era da busca de respostas. Mas quem seria eu para supor as respostas de que tanto vão necessitar no futuro? A minha experiência de vida tem sido gratificante, é verdade, por eles e pelos tantos encontros proporcionados pela busca de uma vida saudável transitando entre vários mundos, pois cada pessoa é um mundo de coisas. Seria a experiência de alguém em circunstâncias difíceis válida para quem viverá em outras circunstâncias?

Isto me ocorreu por algo muito simples e corriqueiro. Pedi que meu Filho saísse da chuva ontem, enquanto estava brincando de correr com seus irmãos. Não saiu. Pedi que abotoasse o casaco à noite. Não abotoou. Pedi que caminhássemos mais devagar e que fizéssemos uma pausa para tomar uma sopa quente. Não quis. Às cinco da manhã, me despertou com febre, dizendo estar passando muito mal. Abri minha nécessaire, peguei doses de anti-inflamatório e de anti-térmico permitidos sem receita médica e cancelei os compromissos. Todos reclamaram: ‘é apenas uma dor de garganta’. Nada disso. Depois de uma volta no metrô em país estrangeiro, há de se ficar em observação, pois podem ser mil e uma possibilidades de vírus e bactérias. Ao menos passaram a me ouvir e se conformaram, a febre baixou e ele ficou melhor.

Poderia-se dizer que o instinto materno é sobretudo racional: pois a mãe prefere dormir até às seis da manhã, ao invés de dormir até às cinco, apenas. Ou se poderia dizer ainda que toda mãe leva em consideração aspectos de racionalidade econômica: perder algumas pratas num passeio pago que se iniciaria na mesma manhã, ninguém gosta. E mesmo as mães que não gostam de passeio, ainda assim preferem não gastar com remédios. Mas não: nada disso no corpo de uma mãe importa, pois quando um filho não ouve sobre limites, o sofrimento em níveis desconhecidos da ciência e da cabala é detonado em alguma parte do útero e do seio, juntamente com o prazer de cuidar com êxito, para remediá-lo.

Afinal, também nas questões políticas e de caráter filosófico não há nada de diferente para fazer, pois o instinto materno é algo que não tem dosagem nem temática. Ainda não vi, com estes olhos que a terra há de comer, uma mãe que se limitasse em dar conselhos ou cuidar de um filho ou de um neto restritivamente por tema, ou por qualquer tipo de cálculo ou consideração sobre si mesma ou econômica, que não fosse afetada por algum tipo de adoecimento ou falha de caráter. Recordei-me com doçura de minha própria mãe, quando, tendo eu dezessete anos, me aconselhou que eu me dedicasse à carreira de Direito. Naquela época descartei seu conselho, pois queria me dedicar às exatas, mas não sem me lembrar hoje do caráter sagrado e místico do conselho de qualquer mulher que nos tenha carregado no ventre e que, portanto, sofra por tabela maiores dores que as nossas. Tivesse eu seguido o conselho de minha mãe, ainda que posteriormente, teria tido certamente uma vida menos difícil.

O que me faz recordar que a ideia de registrar e deixar um aprendizado ético para filhos não é nova coisa nenhuma, pois todo pai e toda mãe se empenha nisso dia e noite em sua própria vida tendo em conta o exemplo. Aristóteles já havia escrito o famoso ‘Ética a Nicômaco’, livro para seu filho. Penso que não poderia haver maior remédio ou bendição, abrir um livro escrito por uma geração anterior e encontrar nele respostas para o dia-a-dia, necessariamente conturbado pela renovação dos conflitos. Ai, pobre Aristóteles! Que filósofo se lembrou de falar que seu carinho e cuidado paterno não foram suficientes? Dizem que Nicômaco morreu jovem em batalha. Esse para mim o primeiro fato a se lamentar ao abrir seu livro, a dúvida sobre o livro como uma forma apropriada de transmissão de sabedoria humana (e teremos sido sábios?).

A Bíblia talvez seja o maior repositório desse bom senso geracional, meio a tantos livros de pouca utilidade que refletem mais convicções de seus autores que efetivamente instrumentos para uma realidade da qual gerações futuras devem precaver-se. Tendo também com muita satisfação aberto recentemente algo de Cícero, e constatado nas entrelinhas o propósito implícito na sua obra contido, eu me tornei partidária dos raciocínios longos, ainda que peripatéticos, ao longo dos quais encontramos as pausas para reasseverar os vínculos de amizade que tornam o diálogo possível; o debate de ideias um passatempo agradável; e a troca de vivências, um depósito de cordiais memórias…

Pois despertada às cinco da manhã pela febre do filho redimido pelos cuidados, não tive muita opção posterior aos cuidados do que aquela de me colocar a ler e receber notícias de toda sorte, muitas delas reclamações sobre Governo, política e discursos. Pois também vivemos hoje uma falta de dúvidas, umas crenças absolutas no fundamento material sob distintos rótulos filosóficos, de modo que bem poderia alguém escrever um livro sobre Ética e Verdade, que fosse mais feliz do que Aristóteles. Mas nós nos habituamos e a nossos ouvidos muito rapidamente à repetição de pretensões falsas: de que as verdades são muitas e que a religião é o ópio do povo… de que Maquiavel foi um esperto pragmático, e não um bajulador ocioso… Que a filosofia é a menos remunerada das profissões. Nós nos esquecemos dos marcos históricos e das cidades que os jesuítas fundaram País adentro e em nossas fronteiras, que Michelangelo foi patrocinado por Papa Júlio II, que grandes avanços da humanidade se fizeram pela sanidade de um comportamento restritivo de si mesmo, pela afeição a uma dimensão religiosa, de respeito ao outro e de convivência comunitária, dos valores de solidariedade em orações públicas que, reputando a uma obrigação religiosa, não questionamos, mas tornaram a vida mais palatável e possível. Observamos a política pelos jornais, como uma variação do intuito material e do instinto estratégico de disputas, ao invés do sentido inicial com que se preocupavam os mais notáveis: a arte do diálogo e do consenso, a definição das prioridades e o cuidado com o bem público. Isso tem levado as pessoas a celebrar a violência discursiva.

A denúncia da estupidez espúria não é novidade, a bem da verdade, nem é novidade o bom senso que muitos ainda cultivam de observar que grupos adversários se acusam sob diapasões similares: inimigos necessariamente convergem… Em atos ou discursos. O cavalheiro que acusa o adversário de covarde tropeça logo adiante em suas próprias palavras de covardia; o carrasco executor sem misericórdia teve de lidar com o destino de ser colocado sob sua própria guilhotina; e tantos exemplos a história nos brinda que nos deveria fazer pensar duas vezes antes de iniciar uma campanha difamatória falsa contra alguém. De consciência e inconsciente é feito o ser humano.

Mas a agressão discursiva persiste: a necessidade de vituperar alguém que se oponha ao grupo, com base em qualquer argumento postiço, para conformar toda a sociedade às necessidades visionárias de uma liderança… A ponto de hoje encontrarmos na Família Real brasileira o repositório moral e de serenidade política. Quem imaginaria isto, há pouco mais de um século? Há quem celebre a poesia disso.

A humanidade parecia avançar, ou ao menos acreditávamos nisso: direitos humanos e direitos das crianças, liberdades individuais; mudanças estruturais de regimes políticos, incorporando instituições republicanas que insistiam e impunham a igualdade jurídica, a distribuição de renda contra a carestia. Os discursos pareciam caminhar para uma bendição vertiginosa, rumo a uma preocupação cada vez mais fina com problemas remanescentes, além daquelas brutalidades de sempre que se combatem no dia-a-dia. A ideia do Brasil toda construída sobre esse pressuposto de que, se existe Governo, ele visa o progresso.

Mas se o discurso é algo mais sutil do que inicialmente enseja, a violência discursiva, portanto, é também algo que precisa ser de perto mais examinado; pois um discurso pode ocultar aspectos não-verbais e ideias entranhadas. Se um discurso opera mudanças e comandos, também nele se torna possível encontrar uma violência oculta; afinal, é o que do ponto de vista secular se concebe, o Governo como o mecanismo de controle da violência, o Estado como o titular do monopólio da força física por meio dos mais diversos arranjos e instruções. Por que se incomodar então que o discurso aparentemente surreal tenha embutido esses instrumentos de governabilidade? Contudo é perceptível que os discursos de direitos humanos fundamentais e das liberdades em geral, vêm sendo implementados pelos seus autores sobretudo não apenas visando a coletividade, o avanço das cidades e de seus marcos públicos de vitórias coletivas históricas, mas para uma coleção de pessoas, para o avanço de quem pertença a um mesmo grupo e que partilhe obrigatoriamente de crenças similares. Eis a ética de grupo, a origem da violência discursiva. Assim foi e tem sido, dizem os céticos; assim deve ser, dizem os cínicos. Estipular pedágio para gozar direitos fundamentais previstos em Constituição na forma de adesão a um discurso, à palavra: algo inimaginável aos Constituintes, é o que me parece, pois o intuito de nosso marco legal sempre foi de preservar a pluralidade.

Sim, as Repúblicas nas Américas foram construídas assim, por essa normalização da titularidade de um grupo sobre os demais: inicialmente registrada nos escritos de Benjamin Franklin em jornais de títulos engraçados, e em versos satíricos, na cultura anglófona; e em ambientes idealistas inofensivos e ingênuos, na cultura latinoamericana. A realidade jamais correspondeu a todos os ideais de quem constituiu a Carta Cidadã, bem sabemos. Afinal, quais de nós, republicanos, se responsabilizarão por essa herança oculta, calcada no sabor das massas em degustar um futuro que ainda não chega, de um preceito fundamental de liberdade que de pronto o burocrata, bem tosco, descarta?

A independência e a autonomia, a soberania de uma Nação, construídas por meio de um reconhecimento mútuo entre aqueles que defendiam a precedência de um ideal pluralista e as prerrogativas necessárias para salvaguardá-las foi regional desde sempre. Quem liga para as conspirações em Foros, além de quem não conseguiu fazer prevalecer sua agenda política calcada sobre esses pressupostos antigos, anfictiônicos…? Naquelas reuniões, ainda que excluída a observadora, percebiam-se presentes todos os mecanismos necessários para vetar o populismo. Afinal, não basta encorajar alguém para que se abstenha do poder, a abstenção de um ato de autoridade é, forçosamente, um ato de sabedoria e de velhice política acumulada…. Velhice que falta às lideranças construídas sobre uma esperança de destino…

O ‘Ética a Nicômaco’, o esforço de liderar a geração seguinte à contenção, portanto, surge como um dos mais nobres afazeres, pois não se encontrará maior legitimidade que o bem que se deseja de preservar a dignidade e integridade dos filhos, biológicos e de espírito, transmitindo a sabedoria a tantas penas acumulada. Afinal até mesmo as divindades têm barbas brancas: Zeus é velho, Deus é Pai, assim está escrito, e também a cultura judaica acredita que a ética, o compromisso com a verdade, é algo que está acima dos conflitos pelos quais os homens disputam o paraíso terreal impossível. Abster-se de um ato ou fala que privará o direito de outrem: eis algo que vem sendo pouco cultivado estes tempos em que escrevo. Sua inobservância proporciona a acumulação de insatisfações que caracterizam inevitáveis mudanças políticas e de regimes.

A verdade e a mentira alcançam um território penoso nas arenas políticas e nas vias aéreas, por meio das quais se revelam descobertas, pensamentos irresistíveis; e na política, poderia-se dizer que existem verdades temporárias? Assim, a violência discursiva não seria algo tão grave que mereceria atenção ou reparação: se uma fala pode mudar, e se a violência discursiva pode encontrar rapidamente antídotos e explicações, não haveria porquê para tanto rumor. Sendo a mentira, aliás, algo nada inédito, como bem digeriu Jonathan Swift em seu panegírico a esse recurso, as autoridades disporiam de um método inexaurível para prevenir o estabelecimento de políticos acomodados a ditar verdades.

Contudo a mentira e a subtração de um bem, ainda que na esfera discursiva, produzem (ou podem produzir) danos reais sobre as pessoas. E, por sua vez, danos reais produzidos sobre a vida das pessoas provocam a perda de legitimidade, a queda subsequente da autoridade. A política: um afazer fluido, que muitos interpretam como a arte de ocultar a espada do poder com que se alcança a obediência; e eis aí o desafio permanente de se lograr novos instrumentos para prevenir que alguém bem intencionado venha a se tornar um tirano, causando danos e mortes por meio de ideias espúrias em comandos ao público ocultos; ou mesmo apenas por meio da própria inércia, em relação aos mecanismos de governo que foram criados pelo candidato anterior. Há de se buscar enxergar os códigos de grupos por meio dos quais se infringem leis e se ostenta a sabedoria mundana, passageira, dos benefícios, acrescentando aí qualquer rótulo de propaganda ou de ideologia que justificaria um projeto de bem comum. E querem creiamos nisso? Mesmo repetida, essa verdade que pregam não se sustentou, sobretudo para o grupo afeiçoado à foice e ao martelo: a pobreza persistiu, os juros permaneceram altos, a violência institucional abateu famílias; a população endividou-se e perdeu bens; a segurança de minorias não melhorou sob as bandeiras propagandísticas milionárias exaltando a diversidade.

A destruição da felicidade foi meta de grandes ditadores e tiranos que pareciam predestinados a querer entrar para a história. Vejamos Henrique VIII: de consolação, nunca logrou o êxito de se tornar o exemplo gerador de ética de Governo, mas sua crueldade serviu de contraste para Elizabeth I, sucessora que buscou governar pela virtude e pelo mecenato às artes, pois nas artes se consagravam os dilemas e sentimentos do povo, incluindo o sentimento de pertencer a uma mesma nação, um ideário deglutível. O peso da vontade daquele soberano atuava contra o êxito de estabelecer um patamar eficaz de governabilidade, tendo em vista o assassinato do melhor amigo, o arcebispo de Canterbury, e da amada Ana Bolena, a segunda esposa. Afinal, teria havido racionalidade em separar-se da Igreja Católica e divorciar-se para alcançar essa dupla tragédia? Os museus ainda dizem que sim, sob a obrigação ao redor da legitimidade de uma dinastia, mas os atores e curadores se comprazem em questionar com humor a verdade estatal. A verdade? Revoluções também acontecem por vezes de um modo formoso, sem violência ou grandes discursos, no silêncio dos modos e da cultura que as pessoas vão cultivando e transmitindo; no modo de pensar e agir, nas virtudes que serão celebradas. Andando pelo mundo, fiquei muito admirada de sermos conhecidos e lembrados, os brasileiros, por essas revoluções e instituição de limites e fronteiras sem que tenha sido disparado um único tiro.

Hoje ainda persistem aqueles que visam destruir a felicidade alheia para produzir um grito de destaque a entrar para a história? Os desafios de criminologistas cada vez mais difíceis de se resolver, orações cada vez mais difíceis de se rezar. Repositório da verdade simples, os textos religiosos são a fonte da qual bebem aqueles insatisfeitos que buscam a justiça em nome da sanidade, guardam muitos arquivos de como lidar com tiranos e políticos, talvez atualizados de tempos em tempos. Exegese distinta, ler as Escrituras animado, daquela determinação de quem, farisaico, ergue discursos belos e redondos para exaltar uma visão de mundo estranha às suas práticas. Perguntas sobre as bases formidáveis de uma guinada à direita que os brasileiros manifestaram desejar: se a família é o centro do conservadorismo de um órgão tradicional, como justificar designar servidores a postos distantes da morada de seus Filhos? Se o comunismo é a grande ameaça a ser combatida pela organização de uma frente liberal-conservadora, por que nomear os entusiastas do socialismo para os melhores cargos e manter liberais no sub-solo? A verdade vêm à tona àqueles que ainda buscam o poder de ceder, o raciocínio claro, distinto do poder daqueles burocratas que detêm um cargo de autoridade turva. E sob a ética de uma transição felizmente se procrastinam os embates diretos e os conflitos que pessoas no passado torturadas clamam. Sim, pois quem sofreu uma violência ou abuso sente necessidade de transmiti-la, quando não se torna consciente de sua condição prostrada latente, quando não se confere uma indulgência de deixar p’ra lá e buscar outros sonhos. A guerra política permanente, sob a ética de grupos, com seus dogmas é tão irracional! A violência política tão perturbadora, que chega-se a admitir a vitória política do torturador, o qual se prefere combater; mas jamais do moderado, que já tenha dado mostras de não se afeiçoar muito tempo às responsabilidades mais difíceis…

É assim, sob sismos, que se movem os extremistas no mundo, ocultos ou declarados: crianças e jovens torturados gravemente, ao redor dos bolsões de pobreza e dos desertos humanos, recebem armas das mãos de outras vítimas de violência, para combater um inimigo que desconhecem, com o qual pouco se importam. Nas instituições democráticas também persistem esses mecanismos de transmissão de violência intocados: o trote nas universidades entre veteranos e calouros, o estupro de mulheres que se rendem a outras coalizões políticas; as retaliações institucionais entre Poderes sobre a vida privada; as ferramentas de brutalidade, a qual os brutos denominam administração, com as quais, vez ou outra, alguém é oferecido num xadrez de holocausto, com as quais imputam, por sua vez, a culpa; também as tantas pedras em cima das quais cada cidadão deposita a sua fé de redenção, a via de transformação de uma derrota em trajetória eleitoral que fornece acesso aos instrumentos de poder; a exclusão de recursos de um orçamento aprovado; e o cálice da difamação. Sob sismos, eis a alternância entre erros absolutos aos quais se denomina governo, da qual resultam os belos ensaios sobre a cegueira, um dos quais nos contou Saramago.

Um judeu sincero que se atenha às Sagradas Escrituras me corrigiria as preocupações, recordando o equilíbrio favorável que advirá da estupidez dos que se opõem a vacinas e ao progresso científico, sob pretexto de agenda política, dos que buscam embates como solução para conflitos e dos que se valem da violência discursiva como um método eleitoral: pois as pessoas que clamam o regresso e se atiram à violência, legalizada ou não, discursiva ou oculta, ao invés de tentar pelos meios disponíveis refrear sua agressividade, terão menor chance de sobrevivência futura, e portanto farão menos descendentes… De fato a experiência nos mostra vestígios de que, cedo ou tarde se revela, sobretudo pelo autor, tudo aquilo que é ou foi outrora oculto. O dano que alguém causa a pessoas vulneráveis é posteriormente retornado ao inventor dessas ferramentas, no que nós, ocidentais, chamamos de justiça divina, no que os asiáticos celebram como lei do retorno, enquanto celebram os poderosos uma autoridade negligente, esquecendo de suas responsabilidades de restituir e reparar, de consentir com o que é justo. Fato é que aqueles que reclamam soluções modernas para destruir a felicidade alheia, para ofender uma ética coletiva, ou desdenhar da liberdade religiosa de estabelecer vínculos sagrados, não contarão com o auxílio de uma memória coletiva no seio de formação da família, nem com as vantagens da criatividade proporcionada por um ritmo de vida humano. O ritmo humano é incerto, é verdade, contudo seus resultados benignos estão sempre acima de bestiários populistas divididos por diferenças ideológicas. Os laços familiares, de companheirismo e de amizade verdadeira não precisam disfarçar vitórias, pois não cultivam as diferenças que animam a uma prevalência absoluta, nem almejam uma Verdade permanente além daquela de que já dispõem. Eis a vantagem conferida pela escolha do que é tradicional e minimamente justo: a legitimidade do convívio, o sorriso sincero e o cenho grave, o que nos confere o ouvido antecipado à voz do povo, dos iguais a nós. Ah… se pudesse ser instituída com maior prestígio a fuga dessas brigas de rua, às quais nos chamam os que gritam, insatisfeitos, que somos incapazes de enfrentá-los…

Felizmente passou o momento; peço com carinho para meu filho colocar o casaco e não mais se recusa. E deixa de lado o aparato eletrônico para se colocar a dormir cedo, para se dedicar à imaginação e ao repouso, para dominar o sonho e despertar cedo para aproveitar a descoberta do dia seguinte… O que mais eu poderia almejar, se já me fez contente…? Se eu pudesse deixar uma lição ética a outros filhos? Fujam de brigões insatisfeitos e empenhados em destruir a felicidade alheia, ainda que glamorizem a atividade como um instrumento de governo. Evitem criar ou extrair poder de um dragão de Estado, admitam publicamente as falhas e busquem corrigir-se; fujam de utilizar desses pretextos de injustiças para obter do bem público reparações, precatórios e benefícios, jamais se justifiquem em ideologias ou em ideólogos… E mesmo que a dureza da espada estatal se volte contra uma proporção reduzida ou imperceptível de pessoas, contra uma única dentre milhões de famílias, fujam; pois assim, diante apenas de si mesmos e de seus crimes, mais rapidamente decaem os tiranos com seus dogmas… Diante das inconsistências entre bandeiras ideológicas e as respectivas atitudes, não me cabe julgar quem as leve adiante, nem denunciá-los, ser muito falho que sou, tendo ainda 4,5 graus de miopia… Sobre a depuração da Verdade, a História dos fatos costuma fazer melhor esse serviço.

Afinação proibida

Expurgos e lamentos,
na longa e estreita rua sem saída
entre os prédios de janelas geminados:
o retábulo enxaquetado é triste.
Afinação proibida!
Reina o silêncio das cordas finais,
embora ninguém esteja morto.
Os revezes devem ser calculados
por uma só mente…
Sem progressos.
A religião à la carte,
calma:
Tiranos de mentira.

Expurgos e lamentos,
Na rua curta e larga sem saída
Entre as chácaras de lioz com rudistas:
O deslinde solucionado é triste.
Afinação proibida!
Só luzes rubras e monocromáticas,
Embora o sol seja feito das cores todas.

Regras de ensaios a sós,
sem respostas,
nem gozo de prêmios.
Holocaustos de incautos
E não claustro de incultos.
Placa imposta: aqui o final da renga.

Mas fora das cavernas,
neste final da renga,
os pássaros cantam;
as unhas gemem;
os anéis oscilam.
Crianças brincam,
as árvores dormem,
o curso corre,
as damas falam;
um Homem brilha.
A escada espiralada
e o tapete de veludo,
abóbada de estuque;
corrimão dourado de arabescos,
com muitos destes rabiscos.

Ana Paula Arendt é cientista política, poeta e diplomata brasileira. Escreve mensalmente a coluna ‘Terra à Vista’.

Ressalva: os trabalhos sob o pseudônimo Ana Paula Arendt pertencem ao universo literário, refletem ideias e iniciativas da autora e não necessariamente posições oficiais do Governo brasileiro. Estes trabalhos literários buscam estar em consonância com os valores e princípios da Política Externa Brasileira relacionados ao diálogo, à dignidade humana, ao desenvolvimento e aos direitos fundamentais do indivíduo. A autora está sempre aberta a sugestões e críticas.