A noite é nossa. Por Juliana Fernandes Gontijo.

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Dona Jovelina de Assis era filha de escravos na região de Diamantina, em Minas Gerais. Desde os sete anos, já trabalhava na casa dos antigos patrões da sua mãe, Maria Severina.

Os Bento Ribeiro formavam uma família muito rica que também morava na cidade. Como eles se acostumaram com Jovelina ainda bebê, enquanto a mãe trabalhava no casarão, aos poucos, foram incutindo na cabeça da criança que era preciso trabalhar cedo.

Em 1954, aos 49 anos, somava oito filhos e 18 netos. No entanto, seu corpo já demonstrava muito cansaço; as rugas da vida “lhe davam” mais de 60 anos. Ela morava sozinha com o marido em um pequeno casebre à beira da rodovia, pois todos os filhos já estavam casados. Para melhorar o ordenado em casa, além da fax/ina diária na casa dos Bento Ribeiro, ela ainda era lavadeira “de mão-cheia”. Além dos patrões, tinha mais seis famílias freguesas: pelo menos uma trouxa de roupa para lavar todos os dias. Sempre depois da faxina na casa dos Bento Ribeiro, lá estava ela com a bacia cheia de água com sabão após a janta.

Naquela madrugada fria de inverno, muito mais tarde que o esperado, Jovelina trabalhava duro ali na “coberta”, enquanto o marido já dormia depois de um longo dia na lida da roça. Seu companheiro Joaquim José era caseiro no sítio do vizinho Zé do café.

Mais cansada que de costume, preferia trocar a bacia pela cama quentinha perto do marido, mas o dever lhe chamava. O casal ganhava pouco, mal dava para cobrir as despesas em casa. Mesmo com a ajuda dos filhos, os remédios para o inchaço das pernas e os problemas de pressão alta consumiam-lhe grande parte do ordenado.

Não havia outra escolha. Todos os dias, na mesma rotina. Pegava cinco baldes de água no rio que passava atrás da coberta. Esse tanto de água era apenas para esfregar a roupa com o sabão caseiro, feito da gordura de toucinho. Quando estavam sujas demais, esfregava e batia numa grande pedra na beira do rio. Ao todo, ela usava pelo menos uns 15 baldes d’água, dependendo da sujeira.

Jovelina era mulher de muita fé. Rezava sempre, pedindo a Deus que Ele lhe desse ainda muitos anos de vida pela frente.

A trouxa daquele dia era maior que as outras e isso lhe consumiu muito mais tempo. Pelo entendimento da posição da Lua, ela percebeu que já passava das duas horas da madrugada e ainda estava enxaguando as roupas dos Bento Ribeiro.

De repente, ouviu um barulho que parecia vir da cozinha. Enxugou as mãos no avental molhado e foi até lá. Não viu o marido. Imaginou ser um rato na varanda, fechou novamente a porta e continuou o enxague das roupas. Minutos depois, ela sentiu que era o peso da mão do marido nos ombros. Deu um pulo. “Cê me assusta, homi”. A água bateu-lhe nos olhos. Quando virou de costas para a bacia, escutou uma voz rouca e arrastada soprando em seus ouvidos:

– A noite é nossa!

A mulher saiu correndo com o lampião na mão; abriu a porta da cozinha; atravessou a pequena sala da casa; tropeçou no pé do sofá e entrou no quarto. Iluminou bem o rosto do marido e ele roncava serenamente com o barrigão virado para cima. Jovelina estava pálida, tremia “feito vara verde”. Com o coração disparado, sua pressão deve ter subido. Voltou à cozinha ainda trêmula; deu uma olhada na coberta para ver se via alguém pela fresta da porta. Tudo em silêncio.

O medo era tão grande que ela arrancou a roupa molhada e vestiu a camisola. Apagou o lampião e foi se deitar ao lado do marido mesmo sem tomar banho.

Poucas horas depois, o galo carijó cantou no quintal “anunciando” 5 horas da manhã. Jovelina acordou assustada, vestiu uma blusa de frio para não tomar sereno. Foi até a coberta para terminar de lavar a roupa.

A bacia estava seca. Naquela semana, os Bento Ribeiro estavam viajando, logo não havia serviço.

A mulher bateu a mão na cabeça e disse em voz alta:

– Arre, égua! Foi um maldito pesadelo, muié! Isso é p’ra cê nunca mais lavá roupa nas madrugada! A noite é p’ra descansá du lado du maridu e recuperá as energia.

O marido escutou:

– Muié, o que ocê disse?

– Nada não, Joaquim. Nada não!

Ele jamais entendeu a fala da esposa. Preferiu também não se intrometer nas maluquices de Jovelina. A mulher levou o pesadelo como uma lição: a noite é para descanso serenamente ao lado do marido. O casal ainda viveu feliz em Diamantina por mais 30 anos mesmo com todos os problemas de saúde de Jovelina.

Juliana Fernandes Gontijo é jornalista por formação e atriz. Apaixonada pela língua portuguesa e cultura de maneira geral, tem bastante preocupação com sustentabilidade e o destino do lixo produzido no planeta.