Normose, a doença da "normalidade" no mundo acadêmico.

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De Renato Souza, ontem, no Portal GGN (Luis Nassif On Line), um tema candente que precisa ganhar mais espaço na mídia: http://jornalggn.com.br/fora-pauta/normose-a-doenca-da-normalidade-no-mundo-academico 

COMENTÁRIO

Várias análises já demonstraram: muitos doutores publicam-se e referenciam-se uns aos outros, numa ação entre amigos tão mafiosa quanto medíocre.

Deveria haver controle externo dos departamentos acadêmicos. E não só o controle das publicações científicas “qualis-ficadas” – o que nada mais é que uma ação coordenada entre pares.

Departamentos? Não, corriolas.

Um departamento acadêmico deveria responder por sua “fatia” de saber, por exemplo, no meio para o qual provê perfis “especializados”. Se um bacharelado em Jornalismo não consegue “produzir” um perfil sequer para atuar numa organização de Jornalismo, alguma coisa deve estar errada.

O mesmo acontece com a Medicina, o Direito e a Contabilidade, cujos egressos têm sido reprovados, em seus respectivos exames de proficiência, na proporção de 9 em 10 inscritos.

E ninguém quer ser “chefe”. São todos pares. Então fica assim: – eu não encho o saco de vocês e vocês não enchem o meu. E todos trabalham o menos possível, nos dias e horários que lhes convêm, o mínimo na graduação (porque ninguém é de ferro), e pesquisando aquilo que der na telha, mesmo que tenha NADA a ver com o objeto do departamento.

Produção em escala só barateia o resultado. De relógios a pesquisadores.

Há tempos acontece na universidade pública brasileira uma “delegação” do poder de avaliar às publicações “todo-foderosas”. Funciona assim: o candidato a mestre ou a doutor, ao fim de suas obrigações (com disciplinas, seminários, papers, aulas dadas de graça no lugar de seus orientadores), deve conseguir publicar o artigo referente à sua pesquisa numa dessas públicações “qualis-ficadas”. Qualquer uma. Se a tese é em cirurgia pode ser uma revista de … cirurgia. Mas “se der errado”, e o artigo não “emplacar”, pode-se sempre tentar uma revista de radiologia. E, se ainda assim não “colar”, haverá alguma de diagnóstico avançado, clínica médica ou medicina social disposta a publicar o texto. Praticamente, não há como não obter-se o beneplácito de um editor, ou conselho editorial, de quem o orientador seja “conhecido”.

Estelionato acadêmico.

E aí, só depois, é que o cidadão poderá marcar a sua “defesa”. E a primeira coisa – talvez única – a dizer diante da banca “examinadora”, será demonstrar a publicação na revista de “renome” e reproduzir o artigo e suas figuras, antes de posar para as fotos ao final da pantomima…

Triste. E lamentável!

Graças aos céus estou completando 39 anos de carteira assinada em 2 de setembro próximo. E fiz a minha carreira acadêmica – esta com 28 anos completos – antes do uso intensivo da web, antes do advento do homo lattes, e antes da ditadura dos artiguinhos em série. Meu doutoramento na USP foi iniciado em 1996 e a tese depositada em 1999. A defesa ocorreu em 2000. Um artigo sobre a mesma saiu em 2001, e o livro dela decorrente em 2002. Um trajeto, à época, natural.

A aposentadoria me aguarda em breve e aí poderei dedicar um pouco do tempo produtivo que me resta a ajudar a abrir – de fora, claro, pois que dentro o corporativismo sempre vence e fecha – a caixa de Pandora em que se transformou a antes respeitável universidade brasileira, hoje um ambiente quase irrespirável.

Mais sobre (do clipping de 03/08/2013, n’O Globo): http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2013/08/02/homo-lattes-505601.asp

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