Conte algo que não sei... e talvez fique sabendo menos ainda.

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A coluna d’O Globo intitulada ‘Conta algo que não sei’ tem sido bastante clipada por este OCI (como pode ser observado no nosso ‘cardápio’ de clipping).

Ontem, porém, a coluna (P. 2), resultado da entrevista feita por Pedro Amaral a Peter Fernandez, ‘especialista em Marketing e Administração’, fez por merecer este clipping pela razão inversa – ou seja -, o desserviço intelectual que o discurso ali ‘vendido’ difunde.

LINK – http://oglobo.globo.com/sociedade/conte-algo-que-nao-sei/peter-fernandez-na-china-ja-se-pode-pedir-onibus-pelo-celular-21039400

COMENTÁRIO

Umberto Eco – o grande expert da Comunicação – deu-nos antes de morrer a chave para entender o lado ‘B’ da web (o lado ‘A’ é o das maravilhas da internet – que dispensamos elencar):

– A internet deu voz aos imbecis.

É para se pensar…

Talvez a presença do ‘especialista’ na coluna seja uma questão de super-competência do assessor ‘de imprensa’.

Sim, com um bom desses, até imbecilidades ganham espaço. A propósito, os pichadores ‘convidados’ a uma recente edição do programa ‘Altas Horas’ (Rede Globo) não podiam suspeitar (assim como o próprio ‘Serginho’ Groisman – que estampou ‘no ar’ uma cara de ‘o-que-é-que-e-isso-companheiro?’) que (1) o líder do grupo musical J. Quest, Rogério Flausino, ato contínuo à exibição da ‘matéria-paga-em-benevolência’ defendendo a tese de que o ‘trabalho’ dos pichadores também é coisa ‘do bem’, sairia ‘lacrando’ que se tratava de um papo conversa-fiada de imbecis (como de fato, o foi), e (2) que a ‘galera’ o aplaudiria imediatamente, ao que o apresentador, conformado, após subir aos pulos ao… poleiro em que estavam os músicos, desceu em silêncio, talvez advertido pelo ponto eletrônico da direção… ‘Deixa assim porque se mexer mais, piora… Toca música!’.

É o rock do ruivo maluco. A quem a ‘editoria’ serve? Aos pichadores e ao papinho ‘fake democrático’ contra o prefeito João Dória? Ou aos respeitáveis anunciantes da emissora, todos – sem exceção – habitués do mesmo Dória, no ‘Lide’?

Cartas para este portal.

Agora, voltando ao tema deste clipping:

O ‘especialista’ entrevistado, mais um maravilhado com a tecnologia (seria melhor dizer, talvez, ideologia) dos aplicativos sai-se com esta: “A internet veio para facilitar. Hoje, posso ligar para minha mãe, de graça, por meio de aplicativos”.

Alguém precisa explicar ao Peter que se ele fala ‘de graça’, alguma arrecadação que mantém a infraestrutura pública que suporta a internet deixará de ser recolhida e, logo, deixará de ser repassada para custear a própria manutenção da ‘maravilha’.

O ‘especialista’ veio ao Rio acompanhar o lançamento de novo serviço de carros particulares por aplicativo: “Na China [em Pequim], já se pode pedir ônibus pelo celular”… onde… “… a cada dois segundos é feito um cálculo no sistema, otimizando as rotas em toda a cidade. As pessoas são orientadas a andar até duas quadras, para que o coletivo as busquem, sem desviar muito o trajeto e diminuindo o número de paradas…”.

De novo, alguém precisa explicar ao Peter que:

(1) Pequim não pode ser modelo. Trata-se de uma megalópole caótica governada por um sistema ditatorial não-democrático que não legisla, por exemplo, sobre poluição do ar, e no qual os cidadãos são simplesmente esmagados diante de decisões estatais e ‘empresariais-de-amigos-do-regime-de-partido-único-comunista-travestido-de-‘economia-de-mercado’). Dar uma olhada no documentário China Blue dá a exata dimensão da importância que a China (governo + ‘empresários’ chineses) dá a cidadania.

(2) Se o ‘coletivo’ não para em pontos convencionais (onde se juntam vários passageiros), pegá-los individualmente ‘diminui o número de paradas’? Como? O que se obtém com esse ‘sistema’ é justamente o contrário: uma otimização do lucro (ou dos custos), visando apenas o ‘resultado’ do ‘Estado-empresário’ ou do ‘empresário-amigo-do-PC chinês’. Imaginemos o caos do trânsito (sim, imaginemos apenas, porque a China filtra o que se pode mostrar de sua – poluída – paisagem urbana).

(3) “Para se cadastrar no sistema, o indivíduo  tem que passar por uma checagem com as fontes de informação públicas [aquelas mesmas que minguarão porque o ‘especialista’ fala ao telefone ‘de graça’]… e as corridas  por aplicativo têm controle de qualidade [pois] os clientes avaliam o perfil do ‘profissional’ (profissional de quê? De condução de seu próprio ônibus?)…”. Bem, infelizmente, o sonho do ‘especialista’ não se realiza com o ‘controle de qualidade’ que menciona. Estão aí as denúncias – crescentes e cada vez mais alarmantes – contra os aplicativos de lesa-táxi para prová-lo.

Quando um veículo da ‘media mainstream’ escolhe mal as suas fontes não está praticando ‘fake news’ ou propagando ‘realidades alternativas’ (afinal, cada ‘especialista’ sempre escolhe os fatos que prefere). Está, sim, fermentando uma ‘fake citizenship’ – o que – convenhamos – é algo bem mais grave.