A não cumprida promessa das "agências" de checagem.

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Deu anteontem na revista Oeste, na matéria de Cristyan Costa. Advogado afirma que a sentença a favor da Revista Oeste pode encorajar órgãos de imprensa.

LINK – https://revistaoeste.com/brasil/os-meios-de-comunicacao-nao-devem-se-intimidar-perante-as-agencias-de-checagem/

COMENTÁRIO

Já perdi a conta das vezes em que repeti o seguinte mantra: “A saída para o jornalista é o empreendedorismo”. A minha cantilena se faz ouvir nas salas de aula em que atuo desde 2001 – ano emblemático da decisão da juíza Carla Rister pelo fim da exigência do diploma de nível superior para o exercício do jornalismo.

Infelizmente, os currículos de formação de jornalistas – pode haver exceção, mas desconheço – continuam voltados para a formação de “empregados” – como se as Redações continuassem a ser as mesmas (enormes, lotadas) da gloriosa década de 1990. Eu mesmo tive a oportunidade de atuar como consultor no Sistema Jornal do Brasil e testemunhar o boom.

O mesmo acontece com os currículos de propaganda: visa-se formar pessoas para atuar em agências, contratadas. Talvez neste caso, a opção por criar a própria atividade – como acontece com os egressos dos cursos de Design – aconteça mais, mas a única formação voltada para atuação profissional liberal – como consultor ou assessor – é a de relações-públicas.

Outra experiência profissional muito rica que tive a oportunidade de vivenciar foi um período de sete anos de atuação docente no curso de especialização em Comunicação Empresarial (CEMP) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Ali, a maioria dos inscritos era de bacharéis em jornalismo e, neste grupo, a respectiva maior parte era de pessoas já atuando profissionalmente – fora de veículos (detalhe importante).

Jornalista é designação correta somente para aqueles atuantes profissionalmente (contratados ou empreendendo) em veículos de comunicação. O bacharel em Jornalismo é isto mesmo: bacharel. Assim como o bacharel em Direito – bacharel, e não advogado. No caso dos advogados, o ritual de passagem é o exame da OAB. No caso dos bacharéis em jornalismo é a atuação profissional em veículo de comunicação. Não numa concessionária de automóveis, numa indústria farmacêutica ou numa ONG e, muito menos num blog pessoal (daí “blogueiro/blogueira”), ou numa assessoria “de imprensa” – onde, a rigor, o papel profissional é de relações-públicas (única profissão regulamentada no país na área da comunicação, aliás).

Com a crise porque passa a imprensa – não só no Brasil, mas mundialmente – pela entrada em cena da díade internet-redes sociais, mais do que nunca, a saída para o exercício do jornalismo, tanto do ponto de vista de quem faz como de quem consome notícias, é o empreendedorismo. E a atividade de fact checking é, sem dúvida, um bom nicho para a atuação de quem se forma em jornalismo.

Mas… sempre surge um mas… quando empresas de fact checking se aliam a grandes veículos comerciais, atuando como “cartórios” dos mesmos, ou são financiadas por fundos de investimento ideologicamente direcionados, a qualidade deste essencial trabalho ajuda – ainda mais – a descredibilizar a instituição “imprensa”. É importante ressaltar o uso do termo “agência”. Agenciar é “agir em nome de, agir no interesse de” alguém. Se este “alguém” não for o cidadão comum, leitor, ouvinte, telespectador ou internauta, a isenção inexiste.

Quando os próprios veículos criaram – na esteira do fenômeno das fake news – projetos de checagem, como O Globo criou seu “Fato ou Fake”, a ação era mais clara… e melhor… O próprio veículo se corrigia, se aperfeiçoava (numa herança tardia do cometa “Omdudsman da Folha”), e ficavam nítidas as escolhas editoriais. Porém, quando fact checking virou business, alargou-se o horizonte da pós-verdade e dos “fatos alternativos”, à la Kellyanne Conway.

Felizmente, vimos vendo surgir novas iniciativas noticiosas independentes de anunciantes – fora do velho esquema de interferência do poder do dinheiro nas escolhas das Redações – e calcadas apenas no financiamento via assinantes. É mercado na veia, fora, também, da égide estatal – cujo escândalo de demolição da credibilidade da TV Cultura sob o atual governo do estado de São Paulo é caso exemplar.