Viva e verá! Uma reflexão sobre a senioridade. Por Ticiana Oppel.

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Quando estava na universidade escutei de um professor que o bom profissional de Relações Públicas ia se formando ao longo dos anos de trabalho. Fiquei meio irritada na hora, rebati a afirmação e destaquei a importância do frescor e da energia de um recém-formado com sede de atuar. Meu mestre sorriu e concordou com o argumento. Isso foi há 20 anos e agora reflito sobre o que ele quis dizer, depois que vivi e vi tudo que me faz a profissional que sou hoje. É bem verdade que após um tempo a gente se sente meio velho no mercado de trabalho. Isto pode ser muito desconfortável porque algumas ferramentas evoluíram tão freneticamente que você já não acompanha uma edição de vídeo como antes. E pensar que o clipping era feito de forma manual! Pode ser um tanto enfadonho explicar quem foi Cartier Bresson, mas é revigorante ouvir sobre UX Experience, além de sentir-se seguro o suficiente para tomada de decisão baseada em tudo que já realizou e estudou. Nada é mais rico do que o convívio entre as gerações, do que o trabalho colaborativo e o foco em soluções inovadoras, seja você baby boomer ou geração z. Por mais que o salto tecnológico os tenha distanciado, o importante é perceber que só nesta troca de referências é possível criar as tão necessárias novas possibilidades que reinventam o mundo a cada dia.

A pirâmide etária brasileira está se transformando. A expectativa, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é de que até 2050 o número de pessoas com mais de 60 anos vai triplicar, compondo quase 30% da população, o que evidencia uma transformação da força de trabalho. Muitas pesquisas apontam que, no Brasil, pessoas com mais de 45 anos são discriminadas e vistas como menos produtivas, comunicativas e criativas. Além disso, as empresas geralmente não investem de forma significativa em ações estratégicas de integração ou capacitação de colaboradores, o que agrava problemas. Um estudo de 2018 do instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostrou que a taxa de ocupação entre as pessoas com mais de 60 anos cresceu 8% e a de trabalhadores entre 29 e 39 anos teve um aumento de 0,9% no primeiro trimestre de 2018, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Isto se deve ao aumento da expectativa de vida dos brasileiros e a necessidade desta parcela de pessoas melhorar a renda. A taxa de desemprego no país está em 12,6% da população segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada em maio de 2020 pelo IBGE. Estes dados tornam-se ainda mais alarmantes em um recorte do moribundo mercado de comunicação.

Ser um profissional experiente traz benefícios tácitos aos comunicadores, uma vez que eles acompanharam o surgimento do novo formato da vida atual: a digital. A única que parece estar disponível de modo irrestrito neste mundo pandêmico e que rege a maioria das formas de divulgação, comunicação e relacionamento. Quando você lembra que usou internet discada, se comunicou por ICQ, teve conta no Orkut, revelou fotos, tinha uma máquina de escrever em casa, você experienciou um outro mundo, que foi se transformando rapidamente para virar o que é hoje. Esta memória da virada das eras é valiosíssima porque situa o profissional de comunicação na troca das tecnologias. Você é bilingue, domina não só a linguagem digital, mas também a analógica, que ainda tem seu charme, ou você vai discordar da magia de escutar um vinil? Ou vai me dizer que abriria mão da delícia que é fotografar na Polaroid? Hoje, relembro da conversa na sala de aula com o mestre, que sorriu e concordou com o argumento, mas em um tom professoral fechou a conversa com um ‘viva e verá’.

Ticiana Oppel é RP com duas décadas de atuação no mercado. Sócia da 2 Baianas Produtora. Geminiana, mãe e empreendedora, acredita na economia criativa e na colaboração para o desenvolvimento de novos projetos, ideias e soluções.