Será que não está na hora de termos um ministro gay no STF? Por Gustavo Costa.

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‘Com todo respeito ao Supremo Tribunal Federal, eu pergunto: – Existe algum, entre os 11 ministros do Supremo, gay? Gay assumido? Não me venha a imprensa dizer que eu quero misturar a Justiça com sexualidade. Todos nós temos uma orientação sexual ou não temos(?). E respeitamos, um tem que respeitar o outro. Será que não está na hora de termos um ministro no Supremo Tribunal Federal gay?’.

Sim, a frase foi só para chamar sua atenção mesmo. A fala original do presidente da República foi:
‘Com todo respeito ao Supremo Tribunal Federal, eu pergunto: – Existe algum, entre os 11 ministros do Supremo, evangélico? Cristão assumido? Não me venha a imprensa dizer que eu quero misturar a Justiça com religião. Todos nós temos uma religião ou não temos. E respeitamos, um tem que respeitar o outro. Será que não está na hora de termos um ministro no Supremo Tribunal Federal evangélico?’.

Se o presidente lesse este título iria respeitar o ponto de vista? Alguém poderia perguntar: – Qual a necessidade de um ministro gay? Eu responderia: – A mesma que um ministro evangélico; defender seu ponto de vista.

Mas indo por esse caminho, não deveríamos ter uns 3 ministros negros, mais umas 4 ministras mulheres, alguns ministros da Umbanda, do Espiritismo, do Budismo e até mesmo ateus?

Não vejo a hora de termos um ministro do STF formando em Direito com bolsa do ProUni. Isto, sim, faz sentido.

O que está por trás do discurso do presidente é uma tentativa de impor a religião cristã como molde para nossa sociedade. Se um juiz julgar seus casos com base no viés religioso, não teremos justiça e sim opinião. Mas qual justiça seria essa do ministro evangélico? Pegando a Bíblia como referência, em Levítico – capítulo 24, versículo 20, temos a seguinte passagem: ‘Quebradura por quebradura, olho por olho, dente por dente; como ele tiver desfigurado a algum homem, assim se lhe fará’. Essa é famosa Lei de Talião, que aparece diversas vezes na Bíblia, uma justiça bastante dura, que mostra a severidade de como as pessoas devem ser punidas.

Em outro trecho da Bíblia, Lucas – capítulo 6, versículos 27 ao 29: ‘Mas a vós, que ouvis, digo: amai a vossos inimigos, fazei bem aos que vos aborrecem, bendizei os que vos maldizem e orai pelos que vos caluniam. Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra; e, ao que te houver tirado a capa, nem a túnica recuses’. É uma visão completamente diferente, muito mais próxima do que é, de fato, o cristianismo.

Qual justiça nosso ministro iria aplicar? A Lei de Talião ou o amor cristão? Teremos criminosos mortos ou perdoados? Seria Talião para o povo e amor para os políticos? Ou o contrário?

Além disso, é sempre bom lembrar, o Estado é laico. Isso significa não impor uma visão religiosa sobre temas que precisam de imparcialidade. A última vez que o cristianismo governou ficou conhecido como Inquisição, e eu não preciso nem lembrar quantas pessoas foram mortas durante os 600 anosem que a Igreja esteve no comando.

Mas o que isso tem haver com comunicação?

A fala do presidente reforça o posicionamento do Governo, que tanto critica ideologias, mas que só sabe defender suas bandeiras de forma ostensiva. Adotar uma atitude dessas demonstra quais são as preocupações do governo, ficando claro que não é a justiça que importa, mas sim o fato de haver pessoas que façam aquilo que seja determinado de acordo com os desejos do presidente, descartando completamente todo o trabalho técnico que um juiz deve exercer.

Isso é parte da estratégia do governo para desestabilizar o STF, que vem, constantemente, atacando os ministros. Parte dessa permissividade dos ataques provém do próprio Supremo, que não tem feito nada para reverter sua crise de reputação e de credibilidade. Em breve será publicada minha pesquisa científica em que abordo mais precisamente o tema da crise no STF. Lá dou detalhes sobre como o posicionamento do Supremo culminou nessa enxurrada de ataques.

Todas essas declarações desastrosas demonstram a falta de preocupação da presidência em ter uma assessoria de comunicação que prepare Bolsonaro para se posicionar de forma mais assertiva, aumentando seu repertório, com o objetivo de não tumultuar, ainda mais, seu governo. A inexperiência de toda sua equipe, e sua também, pode arruinar seu governo e, ao que tudo indica, tem caminhado para isso.

Gustavo Costa é relações-públicas e desenvolve trabalhos de comunicação com empresas em São Paulo. Em 2018 ganhou o Prêmio Universitário Aberje com planejamento estratégico para a Sabesp, além de produção científica sobre Ética, Reputação e Posicionamento no Supremo Tribunal Federal sobre a ótica das Relações Públicas, que, em breve, será publicada.

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