Rupturas na comunicação pública. Por Gustavo Costa.

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Em um dos artigos anteriores, eu havia escrito sobre ”como a ‘nova’ fase política impacta na comunicação”. Pois bem, o tal impacto veio mais rápido do que eu imaginava.

O veto da campanha publicitária do Banco do Brasil aconteceu exatamente como previ. Lembro-me de ter questionado: ‘as empresas vão continuar sendo disruptivas?’. Agora já sabemos que não.

Em entrevista ao Globo, o posicionamento do presidente foi bastante explícito, ‘Quem indica e nomeia presidente do BB, não sou eu? Não preciso falar mais nada, então. A linha mudou, a massa quer respeito à família, […] nós não queremos que dinheiro público seja usado dessa maneira’.

‘Quem indica e nomeia o presidente do BB, não sou eu? Não preciso falar mais nada então’. Logo de cara vemos o autoritarismo típico de quem não está disposto a ouvir ninguém. É um simples ‘não gostei, não quero’. Posicionar-se dessa forma demonstra uma total falta de respeito com os profissionais que pensaram a campanha. Tenho certeza que houve um estudo para que ela fosse feita. Foi identificada uma necessidade de abordar o tema dessa forma. Isto fora, claro, o desrespeito com os públicos.

Se a campanha, que não era nada demais, foi vetada, imagine como deve estar o clima interno no BB? De agora em diante, os colaboradores devem estar pisando em ovos sobre o que e como fazer, fora o grande número de funcionários LGBT+ que devem estar se sentindo completamente acuados em seus postos de trabalho.

‘A linha mudou, a massa quer respeito’. Que massa é essa que foi desrespeitada? Falar de um lugar comum para representar o todo é bastante perigoso, quando, na verdade, sabemos que essa é uma opinião apenas do governo, e de seus correligionários. A frase fica ainda pior pois é ‘respeito à família’, nitidamente a família bíblica, excluindo a possibilidade de que existam outras famílias, afinal elas não importam.

‘Nós não queremos que dinheiro público seja usado dessa maneira’. De que maneira? Fica claro o entendimento de que utilizar a verba publicitária em campanhas de diversidade é jogar dinheiro fora, porque não vale a pena investir nesse público.

É importante ressaltar que o governo é a referência para muitas ações que acontecem no mundo corporativo, determinando, de forma inconsciente, como as empresas devem agir, como por exemplo, em relação às pautas da diversidade.

Vamos entrar em um momento-chave da comunicação. Com essa atitude explícita do governo, as empresas vão começar a se posicionar de forma mais próxima ao pensamento da presidência, afinal, os interesses comerciais são mais importantes do que as pessoas.

No entanto, as empresas que adotarem posicionamentos fora desse padrão repetitivo, tendem a ganhar muito mais espaço e respeito com seus clientes, pois uma política pública que não abarca o todo tende a ruir facilmente, assim como as empresas que pretendem seguir na mesma onda.

Culturas e posicionamentos mudam a todo instante, mas a internet está aí para que não deixemos ninguém esquecer; nos momentos difíceis, quais foram as empresas que se deixaram levar, demonstrando a fragilidade dos seus valores, perdendo a confiança dos consumidores.

Resgatar a credibilidade vai custar muito caro. É uma crise de imagem anunciada. Agora vamos ver quem vai estar disposto a pagar o preço.

Vale a pena o risco?

Gustavo Costa é relações-públicas e desenvolve trabalhos de comunicação com empresas em São Paulo. Em 2018 ganhou o Prêmio Universitário Aberje com planejamento estratégico para a Sabesp, além de produção científica sobre Ética, Reputação e Posicionamento no Supremo Tribunal Federal sobre a ótica das Relações Públicas, que, em breve, será publicada.