Platão e a alegoria da caverna - parte 2. Por Antônio Queirós Campos.

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Platão não foi o único autor a deixar relato ou impressões sobre seu convívio com Sócrates e com seu pensamento, embora seu testemunho seja de longe de muito maior valor filosófico e literário.

Aristófanes, o mais famoso comediógrafo ateniense da época, deixou-nos uma comédia em que uma caricatura de Sócrates é o protagonista (na comédia “As Nuvens”) e outras referências importantes ao filósofo em outras duas comédias (“Rãs” e “Vespas”).

O testemunho de Aristófanes, embora vazado com intenções humorísticas, é cada vez mais levado em conta pelos scholars.

Outro testemunho “ocular e auditivo” dos ensinamentos socráticos foi Xenofonte – um discípulo de Sócrates e, ao mesmo tempo, um aventureiro, cronista, viajante com veleidades de historiador – que dedicou a ele três livros: uma “Apologia de Sócrates” (sua hipotética defesa no tribunal), um texto chamado “Banquete”, e outro chamado “Memoráveis feitos de Sócrates”.

Seu tom é mais encomiástico do filósofo, no que difere dos diálogos de Platão, em que Sócrates é um personagem bem mais complexo tanto humana quanto filosoficamente.

Mais sobre a “Alegoria da Caverna”:

Há um elemento crucial da alegoria que consiste na presença, dentro da caverna, de uma outra pessoa (e esta não acorrentada como os demais prisioneiros) que, servindo-se da luz advinda da fogueira que ardia atrás de si fazia desfilarem bonecos (como mamulengos) por sobre um estrado… representativos de figuras humanas, de animais, árvores e objetos vários, de modo que as sombras dessas figuras que ele manipulava se projetassem no fundo da caverna .

Ao mesmo tempo, essa pessoa fazia ruídos como se imitasse vozes humanas ou de animais. De tal sorte que tudo o que os prisioneiros podiam ver e ouvir era o que essa pessoa fazia projetar no fundo da caverna em frente à qual estavam acorrentados.

Assim, toda a realidade que supunham existir eram tais sombras.

Essa pessoa misteriosa representa obviamente um amálgama dos grandes vilões mimetizados e combatidos por Platão ao longo dos diálogos de que a imagem da caverna representa uma alegoria-síntese.

Um amálgama portanto dos poetas, dos retóricos e dos políticos que, mediante manipulação da realidade, mantinham o povo na ignorância – fonte de seu poder.

Essa pessoa tem um estatuto bastante curioso e instigante. Platão não dá detalhes sobre ela, ao contrário do que faz com todos os outros elementos componentes da alegoria, sobre cujo significado não economiza detalhes e comentários bem didáticos até.

Se o prisioneiro que se libertou (alusão ao próprio Sócrates) é sem dúvida o protagonista da alegoria, essa figura estranha é seu antípoda, alguém que em tese também teria – se quisesse escalar a íngreme saída da caverna e suportar o ofuscamento provocado pela luminosidade do mundo solar externo a caverna – acesso ao mundo exterior, metáfora do mundo verdadeiro. Mas opta por permanecer na caverna iludindo os demais e derivando disso seu poder sobre eles.

Para mim, essa criatura estranha – figura híbrida de sofista, político e poeta – tem, em tese, acesso ao mundo das realidades verdadeiras exteriores à caverna já que tem liberdade de movimento. Ou seja, tem, em tese, acesso ao mundo da verdade. Mas prefere (assim delibera conscientemente) continuar manipulando os prisioneiros, disso extraindo a razão de sua vida. Do poder que detém sobre os demais prisioneiros, de mantê-los tanto cativos quanto escravizados a uma falsa realidade.

Platão o chama de thaumatopoios – que quer dizer literalmente “fazedor de maravilhas”, uma espécie de encantador.

Antônio Queirós Campos é bacharel, mestre e doutor em Filosofia pela PUC-Rio. Sua área de pesquisa é a Filosofia Antiga, com destaque para Platão e Aristóteles. Autor de vários artigos em revistas acadêmicas especializadas, é professor dos cursos de especialização da PUC-Rio de Filosofia Antiga e de Arte e Filosofia.