Pare e pense! Por Danit Furlan.

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Tudo muda, nada muda. Um convite para repensar o futuro dos profissionais de comunicação.

Qualquer pessoa hoje tem seu espaço no mundo virtual, é um protagonista de sua própria audiência. Uma câmera em mãos e um sinal de wi-fi e vemos a vida real acontecendo em tempo real no mundo virtual. Trata-se de um grande e massivo Big Brother.

Quem tem estrelado esse cenário é a tecnologia, que fez com o que aquilo que antes era limitado agora passe a ser ilimitado, ocasionando grandes mudanças, em especial por meio das redes sociais, das quais o Brasil é um dos maiores adeptos, perdendo apenas para os Estados Unidos em número de usuários no Instagram, por exemplo. A cada dia aumenta a quantidade de pessoas e até de empresas que estão gerando conteúdo, compartilhando informação, publicando opinião, comunicando. Mas isso não é novidade.

Conhecimento acessível a um clique. E assim, tudo o que sabemos está cada vez mais se assentando como acesso comum, uma espécie de comoditização do conhecimento. Estamos na Era do Conhecimento. ‘Scientia potentia’, ou ‘conhecimento é poder’. E se a frase é mesmo verdade, o que estamos vivendo não deixa de ser, ao meu ver, uma redivisão de poder.

Se na Antiguidade eram poucos os que sabiam ler, hoje isto já não é diferencial para uma massiva parte da população mundial. E assim seguiu-se com tantos outros conhecimentos ou poderes durante centenas de anos. A verdade é que não estamos passando por nada diferente do que nossos ancestrais já passaram. Sempre estivemos em uma constante mudança, sempre estivemos, desde que o mundo é mundo. Mas, cada vez numa ascendente velocidade e grandes proporções de impacto.

Em matéria publicada na revista Exame, no ano de 2017, a profissão de repórter (ou jornalista) listava entre outras 10 como uma das ‘extintas’ entre os anos de 2022 e 2025, substituída por robôs que já existem e já possuem capacidade para produção de conteúdos dos mais diversos.

Diante deste cenário, fica a pergunta: – O que será do futuro da profissão dos comunicadores em geral?

No alto volume de conteúdo, há também muita informação fictícia, não verídica, muitas fake news. E são elas que, em parte, têm sustentado o jornalismo.

Como assim? Simples, estamos revivendo novamente o fenômeno do Repórter Esso, aquele da década de 1940! A veracidade da informação ganhou ainda mais destaque, o que me faz remontar a época do Repórter Esso.

‘Se o Repórter Esso não divulgou é porque não é verdade’, contava meu professor. Estou tratando da veracidade, da apuração dos fatos, estou tratando não de notícias falsas. Fake news são muito mais do que isso. São a oportunidade de fazer a sociedade refletir sobre calúnia, difamação, injúria… e… ética!

Sobre a importância e a relevância do profissional e do exercício da profissão: não duvido que um robô, em muito breve, ultrapasse a capacidade de somente produzir conteúdos. O céu é o limite, diz o ditado. Mas, será que ser jornalista nos dias atuais é apenas produzir conteúdo? Será que é apenas relatar fatos?

Precisamos reinventar o jornalismo?

E, se precisamos de um novo jornalismo, pergunto: – Quando surgirá um novo leitor? Será que não está na hora de promover mais discussões sobre criticidade, responsabilidade na rede, opinião pública?

Não importa se quem irá produzir o conteúdo serão robôs futuramente, mas cabe aos profissionais da área começar a discutir mais o consumo do que está sendo produzido, as suas consequências, a avaliar o resultado deste empoderamento que nos foi entregue, com tamanha facilidade, a qualquer um de nós que nos tornamos ‘mídia’…

A crise de pensamento causada por tanta mudança no mundo da comunicação – que agora é de todos – está cumprindo o seu papel no processo natural da evolução. Nos faz repensar o que estamos fazendo, como estamos fazendo, por que estamos fazendo, mas – principalmente – para que estamos fazendo…

Sim, estou tratando de alguns aspectos da teoria funcionalista da comunicação – que pode ter ficado para trás desde que foi fundada – mas que, em minha opinião, não perdeu seu valor e tem uma essência que se traduz muito mais ainda nos dias atuais – com as redes sociais.

‘Do percurso da manipulação, passando pela persuasão e depois a influência, mais do que nunca estamos atingindo as funções… O deslocamento conceitual agora se concentra nas consequências objetivamente verificáveis da ação da mídia sobre a sociedade como um todo ou sobre seus sistemas’. (*)

Mas, sobretudo, o que mais aprecio nessa teoria é como ela aborda a disfunção. Que é o mesmo que perguntar: – O que é que você está fazendo com o que você sabe? Ou, tecnicamente falando, ‘chega a confundir o conhecimento dos problemas do dia com fazer algo a propósito’ (*). Mas essa é uma conversa mais aprofundada para outra oportunidade…

Estou tratando de um jornalismo que vai além de relatar fatos, de aparecer na mídia, de escrever textos, de montar um canal no Youtube. Aquele jornalismo que foi para mim a resposta para o meu sonho de tornar o mundo um pouco melhor, porque tinha a capacidade incrível do pensar a sociedade.

O fato de saber que alguém vai, a partir de uma matéria, artigo, enfim, conceber uma ideia, uma visão de mundo, vai acessar informação, criar conhecimento, vai pensar. Esta é a maior dádiva. Porque a partir do que absorvemos, construímos coisas novas, reforçamos não apenas conhecimentos, jogamos os obsoletos fora, evoluímos nossa visão de mundo e de valores. Eu espero um mundo melhor onde as pessoas possam, a partir de suas opiniões, chegar ao consenso da verdade e da sabedoria.

E, se diante de tudo isto, você é um dos que está agoniado com o ‘boom’ de informações que estamos vivendo, e está arraigado na defesa do atual jornalismo, cuidado. Não gere apego com o que você sabe. Dê lugar ao novo conhecimento. Desplugue-se e abandone o que sabe, abra-se para o que não existe ainda. Isso não significa abandonar o jornalismo, nem trocar de profissão, pelo contrário, significa apenas que precisamos parar e repensar o que é o jornalismo nos dias atuais.

Ser jornalista para mim é e sempre foi muito mais do que ter uma câmera e um microfone em mãos, do que escrever textos. Guardo essa essência que vai na alma-jornalista – mesmo tendo me tornado uma profissional de marketing – e aquilo que tem alma, não morre, só evolui.

(*) Teorias das Comunicações de Massa, Mauro Worf, 2005.

Danit Furlan é profissional de Marketing e Comunicação com título de MBA em Estratégia de Mercado pela FGV e mais de 15 anos de experiência na área.