O enigma do acidente e o léxico do inconsciente coletivo. Por Maria Eduarda Schmitt.

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‘Pai e filho sofrem um acidente terrível de carro. Alguém chama a ambulância, mas o pai não resiste e morre no local. O filho é socorrido e levado ao hospital às pressas. Ao chegar no hospital, a pessoa mais competente do centro cirúrgico vê o menino e diz: – Não posso operar este menino! Ele é meu filho!’.

Quem atendeu o paciente?

Lembro de ouvir essa história e ter dificuldade de respondê-la. Pensei em diversos papéis (masculinos) familiares que poderiam ser associados à situação, mas não tinha sequer cogitado a figura principal: a mãe.

Preconceito na ponta da língua

A língua portuguesa contribui para essa formulação de pensamento. Temos uma limitação sintática que implica à palavra ser masculina ou feminina. Usando os pronomes como exemplo, quando nos referimos a um grupo de 100 pessoas, sendo 99 homens e apenas 1 mulher, usamos ELES.

Nesse caso poderíamos entender a flexão atribuindo à questão quantitativa do grupo. Porém se invertermos a situação (sendo 99 mulheres e 1 homem) o pronome correto a ser usado continua sendo o mesmo: ELES.

Os substantivos seguem a mesma premissa binária, na maioria identificados pela terminação em ‘a’ ou ‘o’. Algumas gramáticas possuem gênero neutro para designar palavras que possuem viés interpretativo. Exemplo: a palavra inglesa ‘doctor’ corresponde a profissionais de medicina de ambos os gêneros.

Percebendo esse problema, Google – declaradamente comprometida com inclusão, empoderamento feminino e diversidade – deu um passo aparentemente simples; mas que vai trazer mais acuracidade para a interpretação e ajudar a sociedade a repensar o enigma.

A empresa adaptou a sua ferramenta de tradução para os dois gêneros. Agora quando for pesquisado o significado de ‘doctor’, a resposta será informada de acordo com a variação masculina (médico) e feminina (médica).

No primeiro momento, Google Translator funcionará com termos do inglês para francês, italiano, português ou espanhol; e do turco para o inglês. A ferramenta não está pronta, mas de acordo com o gerente do produto, James Kuczmarski,a ideia é refiná-la ampliando essas possibilidades.

Reflexo do (in)consciente coletivo

Voltando à brincadeira proposta pelo Quebrando o Tabu, o enigma é um exemplo claro de como em nossa educação está perpetrado sumariamente pelo ‘pré-conceito’. Seu desdobramento (o preconceito mesmo) tem graves (d)efeito sociais. Um deles (só um!) é limitar ou obliterar o feminino. A tradução e flexão (entre outros) automáticas para o masculino geram interpretações incorretas como, neste caso, determinar que a pessoa brilhante é um homem.

Essas más interpretações ainda rechaçam crenças misóginas, como: a produtividade de uma mulher é inferior devido à maternidade; e é inapta para assumir atividades mais áridas e complexas, como de uma desembargadora.

Como se não bastasse, o preconceito social se chafurda ainda mais no mundo corporativo e serve como justificativa plausível para diferença salarial entre os sexos. Contribuindo para o
fortalecimento do mercado de trabalho como um lugar hostil e arbitrário.

Ah! Para concluir, quanto à minha resposta ao enigma, tenho uma vergonha imensa de ter me deparado caindo no lugar comum e errado a questão. Quantas mais questões ‘simples’ como um pronome, uma palavra ou uma brincadeira reforçarão esse tipo de comportamento?

Imagem: Pixabay.

Maria Eduarda Schmitt é graduada em Administração de Empresas pela Universidade Boa Viagem (Recife/ PE) e especialista (MBA) em Marketing pela Universidade Federal do Paraná. Atuou como arte-educadora voluntária em museus e no Instituto Ricardo Brennand durante a Licenciatura em Artes Visuais na Universidade Federal de Pernambuco. Tem experiência profissional em Marketing, Endomarketing e Comunicação Empresarial. Atua na área de Marketing de Produto com foco em TI e Economia Criativa.